vendredi 30 octobre 2009

Quarta-feira amanheceu poesia

(Palavras descrevem um mundo, mas faltam ainda para algumas sensações, que só tocamos com outras vias... As retinas capturam as imagens de fora, os ouvidos escutam atentos e os olhos de dentro transformam em cores e imagens o som que entra, dando sentido a tudo.)
Em seu rosto, a idade desenhada nas linhas de expressão, mas os movimentos ainda ágeis de menina, o corpo pequenino que não acompanhava os anos. Por alguns deslizes na escuta e pela exagerada exigência, poderia-se dizer que o tempo passou, mas para todas as outras coisas, era ainda uma menina. Seus olhos brilhavam com as histórias que lembrava, recontava os fatos com tamanho afinco, que daqui, quem ouvia poderia sentir os cheiros e salivar o gosto. O táxi ia caminhando lento pelo engarrafamento e nunca o caos urbano fora tão proveitoso. Dentro do carro, flutuavam pelo ar quente licuris, côcos do babaçu e as pedras que os quebravam, pitangueiras carregadas e as pitangas mais graúdas dos últimos tempos, benção de mãe, o quintal cheio de mangueiras, as mangas do cabula, o cheiro doce de fruta madura e tantas outras histórias...
Meus olhos não se aguentavam em mim, e emudeci só para escutar. Ela me deixa sempre muda com tantas honrarias... E eu debruço horas sobre sua existência, sobre suas palavras, sobre suas mãos quando encostam sábias sobre meus ombros, sobre sentar-se na calçada para esperar Seu Pedro chegar, sobre brincar de mão com as professoras, sobre cantar com os pequenos, sobre tomar geladinho pela primeira vez, sobre trazer uma flor para o carro, sobre ser senhora ou "você", sobre as cores vivas que devem ter o papel crepom, sobre o canto entoado dos meninos, sobre os entraves dessa nossa "educação"... sobre a vida delicada se faz presente frente a mim... Sobre a felicidade de poder viver esses dias, sobre a recompensa maior que é vê-la existir.
" (...) E cada um lá em casa tinha uma manga, pois eram tantas mangueiras que cada uma dava uma espécie diferente. Tinha a que era mais amarelinha e pequena, quase não tinha fios, tinha a manga de minha mãe, tinha a que era mais verde por fora, e que a gente amassava bem sua casca, um couro grosso, e ela ficava bem mole por dentro, então tirávamos a pontinha e chupávamos o suco, como era doce! Tinha a minha! a minha era "a boa", quase me esqueço da minha! (...) Não me perdoo até hoje por ter deixado que aquelas espécies todas desaparecessem... Meu pai vendeu a terra e ela foi repartida em muitos lotes, algum pedaço é a praça hoje em dia, mas os outros se perderam em tantas casinhas. Não vejo mais as mangueiras por lá... Não entendo como não pensamos isso naquela época... Não pensamos que poderia acabar..."

1 commentaire:

Bailinho de Quinta a dit…

lindo demais zuda!