mardi 14 novembre 2017

Olhar pro alto

Um chamado
Uma espera
Uma hora
Uma seta
Um avião
Um pássaro
O sol
Um mosquito
A lua
A chuva
Uma pergunta
Um adeus
Uma explicação
Um mistério
Um meteoro
Uma estrela que morreu
Uma constelação
Uma nuvem branca
Uma nuvem cinza
O vento que a leva
O que me leva
Aquele amor que morreu
Deus

vendredi 10 novembre 2017

Ode vulcânica solitária à meu pai e à Alejandro.

Esse destino de implodir
Vivo a fazer pequenas ebulições
De dentro pra fora.
O outro me mareja
é extensão das minhas veias
O outro que nem sou

Vivo aninhando esses pequenos vulcões
Meu pai não sabia
Nem eu sabia
Mas estava desde muito
aprendendo a criá-los

No avesso,
explodo
um silêncio profundo
como aquele mesmo
após uma explosão 

É uma surdez
O absurdo é tanto
O ruído é tamanho estrondo
Que cega os ouvidos

Mas a lava escorre dentro
Fervente e fluorescente
No silêncio solitário
Dos olhos
Que não se deixam ser a janela aberta da alma

Então recordo no sonho
o que sinto ou temo
Mas eu não sei
Nem meu pai sabia
E me ensinou a ser gente
Reparar no mar
Nos grãos da terra
E na importância que tem o coração quando bate.

Tudo se mistura na lava
Melhor não dizer ao certo 
Melhor não saber
Melhor não...

Ser não tem escapatória.

mercredi 25 octobre 2017

A vontade mesmo é no mínimo dois corpos e muitas vidas.

vendredi 20 octobre 2017

Da profundidade dos olhos

Esses nossos olhos
Contêm um brilho denso
Um túnel profundo
De onde dentro sai
Uma luz forte
Ofusca a alma de quem vê

Penetra
Resgata
Vivifica

São os olhos do amor
Que darão vida
Onde houver um coração que pulse

Que quando encontram outros olhos
Adentram fundo
Se reconhecem e marejam
A luz quente que aquece tudo

Eles nos dizem
Que onde houver gente
Há luta
E jeito.

mardi 10 octobre 2017

Poço

Vivi tempo demais
Deixei escorrer pelo ralo alguns sonhos
Sem que os agarrasse
Antes, esfacelaram

Sinto ainda nos lábios o gosto
do passado recente
Um mundo inteiro pela frente
Um animal preto e branco
Corpos colados
Um sotaque engraçado...

Tudo agora é crime

Vivi muito tempo
Sem ter tempo pra desatar
os nós que deixei crescer por dentro

Hoje enxergo longe
Uma trilha com cheiros
Flores

Mas...
Vivi tanto que caduquei
Não vejo com olhos de paixão
Calejei os olhos.

Os sinais aos poucos aparecem
Os da pele
Os dos ossos
E
Nos sonhos
Foram muitos
Não os agarrei

Mas foram muitos.

mercredi 20 septembre 2017

Matança

Não falemos mais em tempestades ou moinhos
Que não toquem nossas faces esses ventos
Que não sequem nossas gargantas
Nem emudeçam nossas vozes.

Esta contração no estômago passará
Esse pesar passará, não restará o vazio.

Não há nome para este lugar
Escuro, só, imenso.

A lama não solidifica minhas raízes
Elas beiram o ar, avesso de si
Em sentido oposto bambeiam
Não se agarram ao invisível
Estão soltas.

mardi 1 août 2017

Coraçao da Ressaca

Meu coração é uma maré de março em plena ressaca
Vai-vem tao forte quanto se sabe vivo
O que passou é jogado para a areia,
Esfrega-se forte nos grãos...
Intenta se agarrar ali

Mas lá
a onda do peito arrebatadora
Tentáculo vivo e líquido
O suga de volta

Vem forte,
carregado pelas águas bruscas
que entre afagos e solavancos
desafoga e sufoca, afoga e acorda
O que ainda é amor ou não passou ...

Ele que ainda vive
Tenta  sobreviver e seguir, nadar
Mas a força extasiante o quer de volta
Dentro, revolto, intenso,
nas profundezas de suas águas...

Até que março se vá ...

Mas ele sempre volta.