Amanhã faz um ano.
E o resto são só as dobraduras desse papel amassado
Amanhã faz um ano.
E as minhas roupas ainda tem esse cheiro,
Meus olhos derretem em seu amarelo.
Amanhã, joguei uma rosa ao mar e colhi solidão,
confusão, corrosão, coerção, compaixão, paixão.
Amanhã me dividi em fatias bem pequenas,
Milimetricamente ajustadas por lâminas frias.
Amanhã corri um tumulto pra te encontrar,
Abracei forte o gosto amargo desses braços,
A revolta seca dos lábios.
Amanhã desconfigurei as lembranças,
Tornei rotina ao avesso,
Caminhei contra o vento,
Senti o barulho cansado da respiração,
Senti secar o rosto molhado
Na brisa quente de verão.
Amanhã ainda tem gosto de sal,
Ainda tem flor vermelha ao mar,
Minha boca em câmera lenta
Dizendo não foi por mal,
Seu coração gelado me fitando
No nó apertado na guela,
A saída do carro,
O diz que não era pra acreditar.
Que amanhã faz um ano e tudo é tão fresco.