mercredi 30 avril 2008

Para não dizer que foi banal

(Rascunho)

Depois da conversa, um semi-monólogo, que não durara mais que 3 minutos, ela saiu andando em direção à sua casa; derramou duas ou três lágrimas só para sentir que não teria sido em vão, que não havia perdido seu tempo, só para constar algum cisco no coração.
Seguiu até a porta de sua casa, quando decidiu mudar de direção, continuou andando. um bar diferente0 talvez, pessoas com olhos diferentes, olhares mais ressaqueados, quem sabe. só não queria ficar com aquele gosto de sem sentido, de tempo perdido, de não sentido, nem sofrido. Não sabia o que poderia vir dalí em diante. Só esperava não repetir os mesmos passos, em calçadas já conhecidas.

dimanche 27 avril 2008

Foto de uma saudade

Encontrou a foto do dia na praia dentro de uma das caixas no guarda-roupa.
Ela sorrindo de perfil, gargalhando, melhor dizer, o fundo amarelo, alaranjado, o verde escuro do mar. Não se lembrava do que ria naquele momento, mas teve de volta, quando viu a foto, a sensação boa que havia tido no dia, que tinha em muitos dias quando estavam juntas.
A praia era aqui perto, seu sorriso é que não era tanto. Ele mexia em caldeirões de lava fervendo por dentro, acordava gigantes adormecidos, era espuma que vai embora quando a onda passa... Fazia o coração da outra desmanchar.
Naquele tempo eram novas, sabiam pouco das desventuras da vida, sabiam nada uma da outra, sabiam tanto e tanto era tão pouco naquela época. A foto devia ter sido num feriado desses em que viajavam para ver a vida acontecendo. Teciam poesia pelas madrugadas, riam embriagadas e dançavam bem perto as músicas que mais gostavam. O tempo era líquido, elas nem tanto, não como hoje, eram fluidas talvez , as peles quando se encostavam, arrepiadas, escorregavam...
Olhava a foto e sorria, sem gargalhar, sorria do estômago até os olhos. Tudo era rápido demais, o mundo vai rápido demais, não há contrato para algumas coisas. Lembrava tão bem de cenas já antigas, lembrava dela chegando com aquele jeito leve destrambelhado, chegando rindo linda e desmoronando do seu lado, cansada de dançar. Eram uma só, as duas. Beijo de nariz e risos frouxos, cantavam desafinadas todas as músicas que o Zé tocava, onde será que andava o Zé? Tinha ido embora junto com a multidão...
Lembrava de quando depois de rir e dançar e de tanto vinho, ela parava séria, olhava o mar... era nada e tudo, de repente, ficava quieta. Lembrava até o barulho da cena, o grave das ondas vindo e ficando agudo quando a maré forte puxava o que era seu de volta e ela olhando, muda. Dificilmente compartilhava o que passava por dentro nessas horas.
Nunca esquecera aqueles dias, as sensações, pelo menos. Era sua caixa fechada de saudade, não abria mão de mantê-las. Hoje, vive uma vida tranquila, tudo corrido e devidamente pago no final do mês. Algumas vontades ficaram para trás e algumas risadas inesquecíveis também, mas sempre é preciso arrumar o guarda-roupa e mexer em caixas guardadas.

mercredi 23 avril 2008

Sertão.

Ele senta na porta de casa todo dia que chega da lida, geralmente com o pôr do sol. Acende um fumo, pensa na vida. Nessa hora passa por dentro um sofrimento que não é sofrimento, é mais um alívio de ter acabado o dia. Não sofre não, agradece estar vivo.
Uma tragada e a tosse grossa saindo junto com a fumaça. Não tem mal tempo, acorda às 4:30 da manhã, inchada de um lado, facão do outro, tem que ter mãos fortes e grossas. Ele não estranha o trabalho. Não brinca em serviço, nasceu no mato e sabe diferenciar tranquilamente cascável de jubóia, mutuca de mosca de fruta.
Senta no batende de cimento e terra, calça encardida, mãos amarronzadas. Tem sertão em seu rosto, em cada marca nos braços. Tem a fome de todo seu povo, a sabedoria de existir sem se perguntar por quê.

Automático é preguiça e é verdade.

Invadiu meu travesseiro à noite, veio em figura, em vários, em silêncio em olho cheio e grande. Bonito e só, calado, me faz, sem rumo, não ser, não vai, não quer, não foi, deixou. Fiquei.
Enorme, de braços grandes e quentes, boca de fumo, cheiroso, entorpecente, mata e acorda.
Vinho? pode ser, mas onde? Me diz que sim, que não é aquilo que pensei, o que pensou?
Eu encarei, encarei até não poder mais ver, circundei, segui, fui atrás, encurralei, como se não fosse deixar passar, mas deixei, como deixei. Parou, me conhecia? Disse oi, por que não? Quem é? Não sei, e você? Também não sei. Parou, mentiu, olhou nos olhos, fingiu que não via, mas sabia que sim, era ela, era eu. Encarei sim. Fui até chegar perto, sentir respiração, sentir cheiro, sentir gosto, senti vontade.
Encontrei outra vez, algumas vezes, sem tia morta, com tia morta não fui, fiquei. E mudou tudo, virou sombra, fantasma, lembrete de geladeira encrustado para sempre em sonhos e dias de festa. Olhei dentro de novo naquele dia. Abraçou de verdade, é de Oxossi, ele tem ciúmes, Oxossi. Os dois Oxossi? E a combinação se dá onde? As guias estão no pescoço e no corpo. Quente, sujo e cheiro bom. Eu fui lá, olhei de novo, escrevi o que não devia, olhei de perto e de longe, fingi que não vi, morri por dentro, gritei só. É Oxossi, só pode ser filho de Oxossi. Brinca de dizer a verdade para mim, me diz algo, então. É bom falar por que? Tá sossegando por que? Onde eu não fui? Por que parei?Para arrepender?
Tenho agora, vez ou outra, sonho encardido, bom de acordar e respirar fundo. Guarda pra sempre escondido, não pode mais. Volta tempo?

mardi 1 avril 2008

Micro-mini-sintético-imenso

Depois de olhar por longos minutos pelo vidro da varanda que dava para o mar, decidiu, enfim, se desfazer daquele lugar.

Soneto àquele(a) que olha calado(a)

Me vigia do escuro
Existe no silêncio
Fica sempre perto
Para que possa sentir o cheiro
.
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Mesmo impossível,
Até se invisível,
Contorna meus arredores,
Me sopra quente nos ouvidos.
.
.
.
Existe em segredo para mim
Me entorna com seus desejos,
Enche de gozo, o ego.

.

.
Sê sempre esse oculto falante,

Que encanta a fantasia,

Que se desvenda em poesia.