lundi 5 décembre 2016

Os passos da morte

Ela vem devagar
às vezes.
Éramos jovens e não a conhecíamos

Ela soprou bem perto e se apresentou
Num dia na praia
em que o coração de meu pai parou.

Mas  nossos corações eram muito jovens
e abriram espaço pra ela só passar
Então, meu pai voltou.

Mais tarde, quando minha  lembrança
já não caminhava só pelo corpo,
A vi abrir um tufão  bem perto:
"Você lembra de Jorge, filha?
Ele morava lá do outro lado
e criava um monte de passarinhos..."

Jorge a convocou. Abraçou-lhe com força.
Foi ao seu encontro com um tiro contra si.

Neste dia, eu vi as mulheres que me antecediam
chorarem rios de águas salobras.
pensava em Jorge, que eu não conhecia,
abrindo gaiolas e os pássaros voando.
Os pássaros de Jorge voando.
Jorge voando e sumindo.
As mulheres chorando.
Minha mãe me ensinando pelas lágrimas o que era a morte.

Eu olhava os corredores e a varanda da casa de verão
E via suas passadas sombrias, pesadas
uma ausência sem fim.

Anos depois, ela veio solenemente
Erguer sua presença-ausência devastadora
Frente a mim.

Naquela madrugada
enquanto eu chorava,
meu irmão cantava Leãozinho para minha mãe
e minha mãe rezava,
o coração de meu pai parou.
E não voltou.

Ela veio dessa vez e abriu um buraco negro
em mim.
Me disse seu nome completo e avisou:
Estou por aqui.

Desde então eu lhe observo,
enquanto ela caminha ao redor, bem perto.
Lhe tenho respeito imenso,
Lhe desafio só quando é preciso.
Mas desejo sempre que ela voe longe
Como os pássaros de Jorge

Enquanto isso, eu costuro todos os dias
esse buraco imenso aqui dentro
E todos os dias ele volta a abrir.