samedi 15 septembre 2007

De passagem
A tarde seguia morna e gelada. O céu não tinha cores fortes, nada de especial, nenhuma palavra, nenhum segredo... Um dia médio passava sem pretensões, sem intenções... Mas quaisquer segundos podem mudar tudo:

Ele tinha aquele singelo poder, por vezes escondido, de transformar os símbolos. Fazia malabarismo com as letras, transformava fragmentos em poesia... Carregava consigo um pequeno saquinho de pano com um pó translúcido que cheirava a flores e no momento, que parecia ser escolhido pelo tempo, sem nunca ser determinado ao certo, ele soprava o pó e o mundo se transformava.
Ela se encantava, vivia assim meio bamba, meio sem jeito, mas tinha de certo uma força por ali, conhecia pouco do mundo e talvez por isso se encantasse inocentemente com o cotidiano. Às vezes era tudo novo e os movimentos banais se reconstituíam em danças leves do tempo... Nunca soube d’onde vinha esse tipo de velho-novo acontecimento, mas seus pensamentos iam longe e despertavam sorriso no rosto... Possuía também o pó. Sem saber o por quê, apenas utilizava-o intuitivamente quando os dias vinham pesados...
Por ordem do acaso, afinal este tal de acaso andava sempre ao lado deles, os dois se encontraram naquela tarde média.
Ao admirar a bonequinha que caricaturava a figura dela, ele observou:

- Ela é a sua cara......só faltou uma perna de pau ou corda bamba....ou um carrinho com estrelas minguantes....elas ainda caem?

- Ô...caem sim, mas nunca mais eu vi uma delas caindo...

- Nenhuma delas me concedeu pedido...em meio a toda correria do primeiro encontro....elas se seguraram no vidro.....Não caiu uma sequer


- Poxa... eu estou precisando mesmo encontrar uma delas por ai, meus pedidos andam meio esquecidos. Mas da próxima vez que eu encontrar uma, guardo um pedido para você, está bem?

- Essas trapaças de nada valem.......pode até resultar no contrário...tem que coincidir com o momento em que os olhos estão abertos...se tentar fixar o olhar...ele desfoca...em segundos você não enxerga mais nada... então é melhor seguir sem se preocupar.

- Vejamos...então eu posso fazer um outro pedido! Eu posso pedir para elas manterem seus olhos abertos nesses momentos mágicos... assim você não perde uma estrela sequer...

- Entendi agora porque você voa...

- Por que eu vôo?

- Sua relação com as estrelas é estreita...

- Digamos que a gente se cativa...

-Vive juntinho delas...você...sempre me dando um pedacinho de sonho.....

- E você, me dando poesia...às vezes eu esqueço

- Esquece...

- É... esqueço que a gente que inventa o mundo...mas agora você me faz lembrar...

E assim eles o fizeram.Inventaram o mundo! Transformaram as cores daquela tarde banal com o pincel das palavras... não sabiam explicar... mas nas duas existências havia algo em comum, alguma coisa perdida que ambos encontravam vez em quando, nesses intervalos de tempo que podem ser tão vazios ou encher o mundo.

Foi pó mágico para todos os lados. O aroma do ar mudou, a lei da gravidade diminuiu o seu pesar e o mundo caminhou mais leve nas horas seguintes...