lundi 29 octobre 2007

Um algo ao contrário

Já que sempre em terceiros(as), não falando mais do que da primeira, aquela que vibra, que só a mim enlouquece, que grita tanto e tão forte, me deixando, por vezes, surda para os outros fatos do mundo. Só eu, ainda que minimamente, posso traduzir em letras o que é esse bolo de coisa intocável que não cessa em girar por dentro, que dá fome e gozo e mania e perseguição e amor e dor.
Configuram-se assim personagens. Invísiveis, sem nomes, sem cadastro de pessoa física, sem conexões exatas, só vestindo carapuças e incorporando os diversos meandros que são um único, interminável e cíclico rojão de qualquer coisa líquida. Quem digita é todos(as), nã pode ser um(a).


...Siga-se a passagem...

"Os dias têm sido longos". Não cansava de suspirar esse motivo, de tempos em tempos, quase cronometrados, somando-se uma média de 30 minutos, a cada novo suspiro.
- Quanto tempo, tudo bem? Como vai a família?
Tudo bem, tudo em paz. Tudo bem demais. Tudo o mesmo, tudo ficando velho, nada comovendo. Era o trabalho, só poderia ser o trabalho. Era caixa de supermercado. Um bairro de classe média alta, muito familiar, rostos conhecidos, aposentados, milhões deles. Senhores e senhoras sempre sorridentes de passos calmos, rostos manchados e distraídos.
Essa era a parte que mais gostava, sabia o nome de todos de cor, estavam lá quase todos os dias; era como uma parte da rotina: passear no supermercado. Fizera amizade com alguns, saiam após o expediente. Caminhavam na praça em frente ao trabalho e conversavam sobre os dias, sobre os cachorros e seus donos mal-educados, sobre as histórias de outros tempos e os membros da família, de ambas.
Ela se divertia, sorria, cantava, era de "bom dia", "boa tarde" e "boa noite", mas havia algo que não se explicava.
Cansaço, era o cansaço, devia ser. São livros demais, teorias muitas e todas desaguando no desconforto da incerteza. Ela estudava... bem, ela ia à faculdade, mas ainda não encontrara "o sentido de tudo aquilo". Em verdade, as coisas faziam muito sentido e acabavam se tornando desencaixadas de suas funções no mundo... ou melhor, ela fazia sentido de menos e o sentido das coisas terminava deixando-a desencaixada do mundo. Não nasceu para aquilo, nasceu para algo que ainda não sabe. Só não tem sentido.
Era a falta de um cúmplice. Deveria ser a falta de um...

Não sei continuar, não consigo. Fica o pedaço faltando. Ela era caixa de supermercado e tinha algo que não fazia sentido.

Tudo isto para tentar explicar um outro nó. Nó de espanto e felicidade pelo reflex de mim no outro, na outra:

"Porque viver a pulsão feminina com toda essa força de criatividade e amor além de ser raro, faz a gente estar sempre transbordando intensidade e absurdo. (O que me admira).Mas como os mundos foram todinhos feitos com muita complexidade e potência, nada mais tandendo ao máximo do que procurar olhar mais fundo sempre. Ao mesmo tempo, você é a combinação perfeita dessa força estranha e densa com a delicada, mas não fraca, harmonia que o amor exala. É como ser forte serenamente, entende?Você exala amor. Nas cores que escolhe pro seu corpo-vestido, nas formas que pensa e expressa o que é ser no mundo, na voz, no olhar curioso, no riso e no sério... - e talvez mais do que em tudo isso; em toda minha intuição pertinaz, todos os ideais que eu enxergo a partir do que eu amo, toda a mentira e verdade de amar as pessoas pela pura disposição de querer ser mais humana."