lundi 28 mai 2007

Percalços


Estou entre longas paredes encardidas e frias. Estrangeira em vizinhanças tão próximas, invisível em cadeiras verdes.

Guardo uma certeza que se confirma a cada minuto: não pertenço à aqui, não compreendo essa língua. Além da confirmação, só um pesar do dever, dever que me submeti uma vez por querer e desde então ando sem motivo.

Nadando na superfície de todas as águas, sem sentir uma temperatura que se adapte ao meu corpo. Corpo torto em mundo direito, que perdeu, sem nunca ter consciência de ter tido, a vontade que move o mundo, que deságua em revoluções e transforma.

Este corpo aqui só espera o tempo o engolir, sem ter que perguntar por que... sem se importar... e já sem saudades.

mardi 8 mai 2007

O cenário não havia laterais, nem teto, nem cochia, malmente um chão em pedregulhos.

Ela vinha de lá, do outro lado, o vestido voando, quase abandonando o corpo, a respiração ofegante, uma velocidade tão grande dentro que o lado de fora quase não conseguia acompanhar.

Corria muito e corria há tempos, quando, enfim, encontrou um obstáculo maior que ela própria, do qual não pôde fugir.

Freiou os passos quase se esbarrando nele. Percebeu o espelho enorme em frente a si e, entre inspirações fulminantes, disse-lhe:

- Tem um vazio em mim, em algum lugar aqui por dentro, que eu não consigo encher, que não me abandona nem se revela... E o pior de tudo, já constatei que não é fome.

O espelho continuou ali, imóvel, e nele o ar de desespero, o suor escorrendo no rosto, o peito pulsando agressivamente, a saliva sem molhar, os olhos molhados, o vestido desmantelado, a ausência.

O tempo parou, o mundo findou e o vazio continuou dentro.