dimanche 30 novembre 2014

Selvagem vida.

É uma estrada de barro
mais ou menos estreita
mais ou menos  vazia
acostamentos e valas
Assim pra baixo...
assim pra dentro...

É um longo ou curto caminho
E as árvores se sacodem
Umas folhas voam e se despedem
outras só ressoam o toque
de umas nas outras

É um sereno que cai
Uma escuridão vagarosa
tomando as vistas pela beira

Um vôo acendendo nos olhos
lá distante
e já  perto
nos ouvidos que dormem


A poeira subida que sacode tudo
e sua difusa fina existência de pó...
e o caminho é tão vasto profundo
não se sabe pra onde leva...
Nem se em si ou em que
termina

samedi 29 novembre 2014

Dos presentes pedidos

O silêncio voou para o telhado do vizinho
fez daquele canto vazio
seu ninho.

O menino disse ao velho barbado
que como presente
queria um ninho de passarinho.

Mas o certo é que
o menino queria mesmo
era o silêncio
E ver do alto do telhado
todo dia
o sol nascer e morrer.
E eu te digo sempre:
o melhor do mundo
é que ele é tão pequeno
quanto eu  e você.

mercredi 26 novembre 2014

sabores

A cor da fruta
é a cor do lábio.

Pitanga
Pitangueira
Boca vermelha

Açaí
Açaizeiro
 purpúreo beiço

O sabor da fruta
é o sabor do lábio

Pitanga: delicada, cheirosa, azeda
Açai: forte, presente, denso.

Loalização

Na nuca
Onde?
Na nuca
Onde?
Na nuca

dimanche 23 novembre 2014

Desenlaço a cintura
arrodeada pelas mãos
rodopio em seu eixo
deslizo os pés pelo chão

as gotas de sal nos cobrem
escorrem cheiro de sol
dançamos
asfalto mato
floresta afora

samedi 22 novembre 2014

Fragmentos oníricos de 22/11/2014

Havia um passarinho amarelo e branco,
que sobre meus ombros batia as asas
e me aproximava para perto do moço.
O rapaz de quem eu devia me aproximar,
ele apontava com o bater de suas asas.

Como se me desse o recado
e soubesse por onde
os rumos do coração fossem dar

Ao que eu mostrava o feito para alguém
explicava como o passarinho me levava,
agora um outro, agora verde,
tinha um prego entre as asas,
que lhe prendia o vôo.

Ele, agoniado, tilintava as asas,
mas não se movia.
Eu lhe segurei o corpo e arranquei o prego,
deixando-o  seguir  vôo.
Ele não se aproximou de ninguém
O segui com o olhar
 até que no alto,
ele se transformara em algo outro...
 uma mulher talvez, uma ninfa,
 ou algo solar...

lundi 17 novembre 2014

Inverso

Adormeci  e aos teus braços distantes
ali tão perto
disse adeus.

Reconheço nesses lábios
algo que não toco
não é meu
não sou eu.

A tempestade se anuncia
fecha o dia
e nela o prelúdio
da já antiga despedida

Ah estupidez,
Onde anda  esse peito
que não renuncia
a tanta ausência
reminiscência de um amor
que morreu

Eu antes aqui
diante de ti
te beijo a pele
o dorso

Procuro te acordar
te inventar um encanto,
um desencanto
uma fúria
te despertar
vida no olhar


Ela diz à serenata

Se a lua que minha é mãe
pede desta boca o uivo
solitário, certeiro
Eu a sigo e canto ao longe,
este minguante sopro
de adeus

O cavalo sem cela
e a raposas me fitam
se entreolham
e me esperam
eu os acompanho
no caminho

Sigo nua,
iluminada por ti
amada lua
nesta imensidão
floresta fechada
intempérie coração.

mercredi 12 novembre 2014

Ronda

Sigo tua sombra em silêncio, 
te rondo porque te tenho vivo em mim.  
E a perdida ingrata em teu peito sou eu. 
Que sussurra afagos
e em olhares perdidos lamenta ao tempo, 
as rajadas de vento úmido
que seca o suor teu em meu rosto. 

À noite, quando a lua mingua longe,
uma canção toca ao pé do ouvido 
e ela tem teu nome, 
um rastro de riso,
um susto inesperado no escuro. 

A dúvida que é dádiva
é a mesma que amedronta a alma. 

E meus pés teimosos não te deixam vagar só.

lundi 10 novembre 2014

Fragmento de Cassandra para Belona: o pesadelo

O que mais me atormenta é que ainda longe , aonde quer que eu vá você me persegue, você vive dentro de mim, seguindo meus passos, murmurando em meus ouvidos . Basta que eu sossegue qualquer instante  e te vejo: - silencio - imunda, os olhos borrados, o sangue descendo pelas pernas. Te vejo e essa imagem me enjoa... me apavora... maldita...  o buque de flores  mortas nas mãos, as maos manchadas , e eu nesse corredor imenso, sem fim. Eu correndo, você me perseguindo , e eu corro, corro, corro tanto,  -ela corre- até que os pés já não aguentam, as pernas já não tem forças, olho para trás e você quase me alcança, quase me toca, e eu correndo cada vez mais rápido nesse corredor sem fim, até que, sabendo que não vou mais conseguir, desisto, respiro forte e decido te encarar. Me viro. -Silencio ofegante- e primeiro vejo esses malditos brincos e quando finalmente encaro os seus olhos, lá dentro estou. Estou eu, eu... eu e seus cabelos são meus, sua boca é a minha, suas orelhas, sua pele. E acordo no súbito grito de pavor porque eu sei que você quer me devorar, mas você sou eu, eu, eu.
É preciso coragem para desbravar o abismo
(Seu e do outro )

Amor de pai

Quantas vezes fosse preciso
Eu cruzaria aquelas águas,
Buscaria areia bem fundo no mar
Para te ter aqui por perto sempre
A me guardar.

Minha casa vazia

Esta casa vazia me adormece os dedos
Esquenta meus olhos em seu silêncio.
Aqui habitam meus medos e receios.

Criei-me nesta casa
com a janela virada para o naccente
Na escuridão, trancava-me
Na solidão da vista que abria-se
Para a cidade e para ninguém

Hoje, depois de criada,
O silêncio que ja me foi caro
Revela-se densamente dolorido
Revira buracos em mim
Que jamais serão tapados
Esquentam os olhos até
Se revelarem em lágrima

E eu mais uma vez silencio
Permito-me na solidão
Apresentar-se o pavor
A saudade e a desesperança.

lundi 3 novembre 2014

Desceu os andares às pressas
passos largos pelo mundo
caminhou desenfreadamente
rua acima sob tempestade
cruzou a avenida aos prantos


para desaparecer assim
repentina
no meio do asfalto.