lundi 28 décembre 2009

Surrender

E lá estava ela, com seus lábios rosados e sua pele alva. Inefável e infalível, como se seu sorriso caminhasse em câmera lenta para os outros mortais e seu olhar oblíquo perverso fosse certeiro em minha direção. Doce enigma, pequena silenciosa, em olhares vagos, vagueia em mim, sorriso solto... sabe bem o que falo, volta prosa, sem nem embaraço, pra no próximo passo te encontrar de surpresa e só.

dimanche 20 décembre 2009

Grão

"Se meu coração explodisse agora viraria nada. Desmancharia em muitos pedaços que, em câmera lenta, migrariam como que na ausência de gravidade, para lugar nenhum, desaparecendo dessa órbita para uma outra não-órbita qualquer."

- Não sabia nomear suas vontades, não sabia pronunciar seus desejos, não lembrava o que lhe apetecia os dedos ou salivava a boca, não sabia qual sua cor preferida, nem do que não gostava, não tinha memória recente de prazer imenso, nem borboletas no estômago de acontecimentos de agora. Era uma pequena criatura paralisada.

jeudi 17 décembre 2009

Crise

Será bendito fruto dessa agonia
se bonito for saber um dia,
que entre tantos desacertos,
houve em todo passado erro
medida exata solução.

São Paulo

Enterra longe
passando foi passado
De-la pra cá
Per-Correu mundos,
distintos foram enganos.

Salvando-se pois a saliva,
guardando em brancas nuvens,
inocência em caixa de doce,

Chão de cimento,
asfalto molhado,
escoa água suja,
suja cidade,
chove sobre a terra preta,
que de preta só a sujeira dessas
secas faces,
Seco olfato de quadril duro,
de muita brancura,
que não a convence de outro estado,
que não aquele de céu azul onde nasceu.

dimanche 29 novembre 2009

Passarinho

Canário
Gavião
Lavadeira
Arãcuã
Periquito
Papagaio...

Mas Sabiá...
Ainda bem-te-vi passar
pra vir beija-flor,
aí foi bom cantar.

lundi 23 novembre 2009

De ser tão imenso

O marrom do barro, da poeira, das mãos antigas,
as vozes agudas,
o canto dos querubins,
os olhares mansos.
Os abraços sinceros,
as músicas que me dizem a identidade.

Guardar a cidade num cortejo,
balançar na quixabeira sonhos de menino,
Transformar cisal em casa e de mãos menores descobrir o segredo das cortinas,

Cantar a infância da avó, na meninice da criança agora,
silenciar e ver tanta vida valendo a pena,

Cirandar, apertar a mão, moldar a panela que os olhos não deixam terminar.
Sentar na terra, comer mamão, dormir na esteira, despertar com um sorriso de perna-de-pau.

Descobrir minhas histórias na vida do outro,
atentar que se é gente e que se sente tão parecido.

Brincar de elástico, aprender a brincar de elástico.

Ver roda gigante tão pequena, escutar o esfregar de uma peça na outra,
Ver o céu pretinho, cheio de pintinha, e o brilho delas tão forte guiando de lá.

A flor amarela, violeta e a rosa de quem eu ganhei o cheirar,
O suco de tamarindo mais doce que o de cajá,

A cachaça de louro e de côco, o museu nas paredes do bar,
A mãe que torce o nariz, e como é comum em qualquer lugar,

O sonho que não desiste, que segue em frente firme,
As bicicletas à mão, o esqueleto que quase fica lá.

O samba que não era samba, o ficos que ganhou nome,
a noite fria que é casada com o dia quente,
o silêncio da casa cheia na madrugada, a lenda que virou a alvorada...

Tudo isso guardadinho em seu lugar...
Nenhuma foto pra olhar,
nenhum áudio pra escutar,
e daqui em diante,
só fechando os olhos e pondo a mão no coração pra rememorar.

jeudi 19 novembre 2009

Sombra de saudade

Despertou primeiro os olhos, que abriram num susto. Em seguida seu corpo foi devagar acompanhando o movimento da manhã que já cantava alto lá fora. O caminhão de frutas, a voz média, o bate estaca, bate martelo, monóxido de carbono e todo o resto.

Dentro, onde estava, ainda era morno e calmo, com a janela de vidro guardando o barulho de fora, mas mais dentro ainda, acordava calma aquela sombra esquisita de saudade. Uma memória que vem no corpo e que se monta no espreguiçar; toques registrados nos poros, nos ouvidos, nos olhos e na boca. Um falta-alguma-coisa qualquer que se despoja junto ao travesseiro e amanhece juntinho, acompanhado de suspiro e de uma textura assim sépia.

Ouvia uma risada engraçada, sentia o amarelo mel, o esmagar, as músicas desafinadas, o cheiro de manga, a água de côco, o cheiro de sal, o ofegar simultâneo e a lágrima teimosa que caía quando o céu explodia. Sentia o cheiro, o cheiro da sombra.

A cama era de solteiro, mas de repente havia tanto espaço ali que caberia um outro corpo grande, que cobrisse mais do que coberta e que, melhor que essa, trouxesse junto, uma infinita canção de ninar num ritmo assim tum-tum, tum-tum, tum-tum e movimentos lentos escorregando por entre o cabelo que descansa leve sobre si.

A sombra amanhece clara com o raiar do dia, e quando o corpo vai se ocupando com as outras coisas do mundo, ela vai ficando mais escura, se agregando às outras, se disfarçando em xícaras de café, em papéis que não esperam, em engarrafamentos, em "por favor", "muito obrigada" e "até logo"; para quando tudo escurecer, ela ser transparente e se deitar novamente ao lado, e agora com o cansaço que se esforça em não vê-la.
E no dia seguinte tudo começa outra vez.

Du temps

Pour quoi ça?
Et le vent que va
Me fait lembrar
Du temps quand
Tout était en parfait état

Sur le chaud de ce sable
Mes pieds se brûlent
dans le mirage

D’une vieille chanson qu’on ensemble jouait
D’un nouveau amour qu’on ensemble créaient

Et pour quoi pas ?
Si il y a toute une vie en retard
Et les coeurs que ne se calment pas
Un chemin couvert déjà

C’est tourjours l’avenir que démonte les plans de vie
Les espaces ouverts pour que le bonheur se fondre
Le départ des réves, l’entrés des monstres
La solitude des mains

lundi 16 novembre 2009

Suas mãos não páram, seus pés não páram.
Mas a cabeça e o coração bem que podiam.

vendredi 13 novembre 2009

Amanhã é sexta.

Acordou suave.
Lembrou-se do cinza,
das mãos mansas e certeiras,
cobrindo o rosto,
carregando como se fosse seu.

Do áspero que acarinha,
vontade.
E a noite caiu

Para

De olhos apertados caber você no meu sorriso.
Te vi bonito, cheiro de gente,
desce doce em minha garganta.
Assim calado, tanto fala que devagar
tanto faz e faz.
E em sorriso e voz que ressoa,
Me traz perto, não vai, não me deixa ir.

De certo que tudo é um pouco cedo,
E cedo tudo um pouco,
mas só hoje,
Certo é que não houve ,
engano não tinha
pra você versos meus,

Agora, respiram fundo e sentem
cheirinho de gente, aguando nó,
Se perguntando por quês, do ques, que vês.

jeudi 12 novembre 2009

- Sim, as cartas de amor são mesmo ridículas.
E ainda que o sejam, são inevitáveis.
Soprano assim.
Deus batizou e fez de mim.
Perigo foi cair no grave,
Pra levar choque e arrepiar no ataque.

mardi 10 novembre 2009

Jabuticaba

Pretinha azeda que explode branquinha doce.

dimanche 8 novembre 2009

De ai ai

- Me fez uma falta aqui dentro.

A ausência aqui continuou em silêncio.

jeudi 5 novembre 2009

- Fiquei de pé ao meio dia no cruzamento que liga Garibaldi, Vasco da Gama, Reis Católicos e Garcia. Afastei os pés, estiquei as mãos, olhei o céu com os olhos espremidos e a água desceu gelada e num só jato só sobre mim.

Li você

Me procurei em todas as páginas,
Me encaixei em todas as palavras,
Ainda que não fossem pra mim.
Porque tem gente que acontece de ser poeta
E poesia é assim.

Fluxo de água e trilhos

Desengano milagre,
quebro o pote,
caem moedas e um coração

Vermelho forte,
foi ficando branco gelo
De véu remendo,
silencioso no cotovelo.

Acena do vagão
tudo agora é não,
quente em mim,
ficando frio assim.

Pra desembocar ainda salgada água,
me engole doce a alma
Ou engole doce alma pra mergulhar salgado corpo

Tudo em volta tem luz vertical,
Banho de verde e lentidão gelada
Água minha.
Me leva longe, sussurra concha em mim.

mardi 3 novembre 2009

Saber desistir é uma bênção.

vendredi 30 octobre 2009

Quarta-feira amanheceu poesia

(Palavras descrevem um mundo, mas faltam ainda para algumas sensações, que só tocamos com outras vias... As retinas capturam as imagens de fora, os ouvidos escutam atentos e os olhos de dentro transformam em cores e imagens o som que entra, dando sentido a tudo.)
Em seu rosto, a idade desenhada nas linhas de expressão, mas os movimentos ainda ágeis de menina, o corpo pequenino que não acompanhava os anos. Por alguns deslizes na escuta e pela exagerada exigência, poderia-se dizer que o tempo passou, mas para todas as outras coisas, era ainda uma menina. Seus olhos brilhavam com as histórias que lembrava, recontava os fatos com tamanho afinco, que daqui, quem ouvia poderia sentir os cheiros e salivar o gosto. O táxi ia caminhando lento pelo engarrafamento e nunca o caos urbano fora tão proveitoso. Dentro do carro, flutuavam pelo ar quente licuris, côcos do babaçu e as pedras que os quebravam, pitangueiras carregadas e as pitangas mais graúdas dos últimos tempos, benção de mãe, o quintal cheio de mangueiras, as mangas do cabula, o cheiro doce de fruta madura e tantas outras histórias...
Meus olhos não se aguentavam em mim, e emudeci só para escutar. Ela me deixa sempre muda com tantas honrarias... E eu debruço horas sobre sua existência, sobre suas palavras, sobre suas mãos quando encostam sábias sobre meus ombros, sobre sentar-se na calçada para esperar Seu Pedro chegar, sobre brincar de mão com as professoras, sobre cantar com os pequenos, sobre tomar geladinho pela primeira vez, sobre trazer uma flor para o carro, sobre ser senhora ou "você", sobre as cores vivas que devem ter o papel crepom, sobre o canto entoado dos meninos, sobre os entraves dessa nossa "educação"... sobre a vida delicada se faz presente frente a mim... Sobre a felicidade de poder viver esses dias, sobre a recompensa maior que é vê-la existir.
" (...) E cada um lá em casa tinha uma manga, pois eram tantas mangueiras que cada uma dava uma espécie diferente. Tinha a que era mais amarelinha e pequena, quase não tinha fios, tinha a manga de minha mãe, tinha a que era mais verde por fora, e que a gente amassava bem sua casca, um couro grosso, e ela ficava bem mole por dentro, então tirávamos a pontinha e chupávamos o suco, como era doce! Tinha a minha! a minha era "a boa", quase me esqueço da minha! (...) Não me perdoo até hoje por ter deixado que aquelas espécies todas desaparecessem... Meu pai vendeu a terra e ela foi repartida em muitos lotes, algum pedaço é a praça hoje em dia, mas os outros se perderam em tantas casinhas. Não vejo mais as mangueiras por lá... Não entendo como não pensamos isso naquela época... Não pensamos que poderia acabar..."

mardi 27 octobre 2009

E na terça-feira a chuva caiu

O telhado é de cerâmica e eu posso ouvir,
com alguma atenção os pingos se esbarrarem velozes
Escorregarem até a ponta e se lançarem até o chão.
Quando juntos fazem um volume tão único
Que a sensação na boca é de pequenas explosões.

Esse cheiro-terra de passado,
essa cor-dia de lembrança.
A coberta era fina,
o frio daqui é de mentira.
Os corpos esquentam mais que os panos.

Lembro de dormir em outros braços
e acordar, depois da chuva, com a água das árvores.

E antes, eram outras as águas,
e serão muitas ainda.
Chover é preciso.

lundi 26 octobre 2009

Rima com o que quer

- Maldade, Zé.

- É, maldade.

- E eu só queria escrever felicidade, Zé.

- Mas maldade até que rima com felicidade ...

- É... e com saudade também.

- E com fragilidade, vontade, afetividade, efetividade, rima com várias coisas, é só ter criatividade... Rima com criatividade também ...

Segunda-feira em primeira pessoa ou dia dos comerciários.

O dia hoje acordou já quente e fazendo charme de que ia derrubar água. Traçoeiro, se demorou até o escuro e nada de deixar a chuva cair. Logo cedo, reparei que hoje fazia mais silêncio que de costume e no caminho até a praça, fui estranhando a mudez da cidade. Vi olhos atentos em minha direção, vi um sentar cansado no mesmo banco de sempre, e os cabelos grisalhos, mas soltos e cacheados que custam a acreditar que é aquilo mesmo que se vive todos os dias. Me fitou, seca, me viu passar e continuou em seu silêncio.

Sorri no caminho, encontrei um abraço, ando me desfazendo neles, sobretudo nos que não sei dizer muito. A música macia ia me levando na estrada, a voz leve ao pé do ouvido ia me soprando o vento que a cidade não quis soprar hoje. Chegando, vi os mesmos corpos que se estendem no mesmo chão sujo. Mas hoje, havia alguém com ouvidos atentos perto deles.

Vi os pés curiosos dos que não são daqui, para eles é tudo tão imenso. Olho por isso os mesmos lugares e percebo a cada dia um detalhe que não se mostrara antes. Tudo está ali o tempo todo, fincado cada vez mais forte ...

Vi pequenas criaturas nos braços cuidadosos de mulheres. Tão frágeis e dóceis com seus pequenos movimentos, repousam calmos sobre o coração delas, respiram junto, agarram suas mãos... Me fez lembrar de ontem e de como a vida não se interrompe, senti outra vez minhas mãos sobre a pele viva, que guarda gente, e o carinho que desperta, que cresce junto com os meses de espera.

Mais tarde, a brisa chega tímida, até tomar corpo e começar, enfurecido vento, a derrubar papéis e levantar as saias.

Vou de volta, menos cansada que de costume, devagar pelo caminho. Algo de um suspiro fundo, a cabeça pesando sobre o banco da frente... e esse silêncio que insiste, dando voz a tudo que usualmente se cala. E como é estranho ouvir o silêncio do mundo.

samedi 24 octobre 2009

Não me diz que foi hoje.

Sobre o tal dia duas coisas:

- A primeira delas é a constatação de que a vida é mesmo proporcional à importância que se dá a ela, e assim, por vezes, ela passa a perna, enganando, fazendo perceber que algumas tempestades eram copos d'água e algumas poças eram buracos imensos. É bom viver e só reparar depois, caso contrário, é muita preocupação.

- A segunda delas é a cena que se configurou no findar do dia. Era um restaurante bonito e silencioso, muitas mesas vazias e onde haviam pessoas, estas falavam baixo e gesticulavam pouco. Ela entrou linda em seu vestido preto, um salto discreto, mãos frias e bolsa sem alça. Entrou só no lugar, chamou alguma atenção pelo tamanho da solidão que lhe fazia companhia, sentou à mesa que ficava no meio do salão, talvez um pouco mais para a esquerda. Chegou o garçom, um vinho por favor, forte e seco, não, não, taça não. Isso, a garrafa. Por enquanto só, obrigada. Quem assistia de fora, era como se uma câmera rodeasse em círculos seu lugar e se afastasse vagarosamente enquanto os goles de vinho desciam secos pela garganta. Tinha um nó engasgado, mas continuou linda toda a noite, e toda a noite a cadeira à sua frente permaneceu vazia.

mardi 20 octobre 2009

Do sumiço

Em decisão firme e pragmática, com pouco amor, como só poderia ser, ele decidiu não responder. Quis desaparecer porque achou não valer, "onde não há o que insistir melhor deixar morrer".

E assim desapareceu, deixou algumas pegadas no chão de areia que o vento fez questão de desmontar. Com ela ficou a vaga lembrança de suas botinas marrons, de quem anda pelo mundo grande, sem pressa e sem parar, como se procurasse seu lugar. Não achando, sai por aí tentando, provando abraços pra ver em qual vai se encaixar, por vezes dá uns passos em falso e desiste por desacreditar que repousaria ali um sossegar. Não se sabe se é preguiça ou intuição, ou mesmo seus pés que não grudam à nenhum chão.

À ela deixou o silêncio, o não-dizer que dizia muito, linhas em branco, caixa vazia, um pôr-do-sol cumprido e mais todos os outros em aberto.

samedi 17 octobre 2009

De ponta porosa

Com uma caneta vermelha de ponta grossa fiz um ponto bem marcado no canto esquerdo, ao alto da Via Láctea. Marquei ali naquele lugar, um encontro de energias da cor da caneta, e dele vai pulsar, até enquanto a terra girar, um batuque forte como o da minha terra. Para o universo saber que desde aquele outro dia, no instante em que meus braços pareceram muito pequenos, algo surgiu e vai viver até o dia em que...

vendredi 16 octobre 2009

EmEle.Háele?

Incerto de primeira vista,
mas com os olhos perto chega a faísca,
De corpo quente que derrete em abraço.
Vi doce, engoli macio.
Achei que fosse só tato no silêncio,
e quando foram palavras, virou gente.
Com olhos imensos e sopro quente no ouvido.

Em movimento de quem descaso faz,
em outras palavras nem sentido traz,
Mas quando vi de perto, dentro, foi certo,
não houve em torno medo,
em silêncio fazendo enredo.

Em fim de dia quente, começo de noite úmida,
me surpreende com o que foi dito,
as pessoas passam a passar com outra cor pela rua,
as paredes ficam mais azuis que de costume.
Você se fez.

(Efêmero e vulgar?)

Em você

Coração fervendo, alma explodida,
cansaço de vida,
pulei das alturas desafiei penhascos, apostei alto,
vi sangue derramado,
enchi as esperanças.

Martela como certeza,
quando muito perto fraqueja, duvido do possível então.

É sempre machucado, vivido até o último pedaço,
apertado e mordido dos pés ao pescoço,
sofrido até não mais caber e por ser assim sem descanso,
é tão inteiro que faz doer.

mercredi 7 octobre 2009

"Tranquilla corazón"

Era o que tinha escrito em letras de um verde-cor-de-esperança no cartãozinho preto. Ao ler o tal, que seria divulgação de um comércio qualquer, parecia que a frase tinha sido soprada em voz calma e antiga em seus ouvidos. O vento não traria tal mensagem sem algum propósito, tinha certeza que Iansã tinha nas mãos seu endereço e que fizera pousar macia tal frase sobre seu peito. Respirou fundo, derramou uma lágrima do olho direito e guardou a frase pelos próximos 400 dias. Hoje ela ainda ecoa de longe, mas quase sem substância, quase pedindo que alguma vida que lhe mova outra vez.

samedi 19 septembre 2009

Tropical úmido

Abre a boca me engole cinza,
as vezes olho seu céu e de tão azul me cega,
Seus ruídos às duas da tarde me enchem de um enjôo preguiçoso.
Pelas ruas, os restos de momentos, pedaços de cenas que passaram,
Monto romances com estranhos, invento histórias cheias de sentido.

Sua umidade me derrete nos 30 graus,
sua quentura leva consigo um ar arrastado,
como se tudo aqui demorasse mais,
desse mais trabalho.

Há também o valor inestimável das pequenas grandes vidas que nos atravessam,
entre os 15 km percorridos:
brigas em telefones móveis,
cuidado de quem se ama,
carinho na pressa,
cansaço na sacola,
atraso no relógio,
sorriso no terço,
me toca o braço e agradece,
rima na venda,
moeda no bolso,
tem alguém aqui?
descubro um novo nome em cada vale-transporte.

O chão é incerto e turvo, exala o coração das gentes que caminham sobre eles,
vou só, tão cercada pelos meus nessa terra. Que não é sozinha inteira, mas que alcança vida ainda que inanimada.

Essa cor escura, esses braços fortes, de gente que fez toda essa bolha ser assim.
Enfurecida e muda, onde a mão que pede toca o perfume francês,
onde o idioma mole e torto trisca na metidez das palavras desnecessárias,
onde a sujeira dança com o mar,
onde o gris toca o anil e as cores fazem caminhos infinitos.

É esse o chão que ferve sob meus pés,
que me pergunta todos os dias quem sou eu,
que me queima a pele e aquece o corpo,
que me expulsa e puxa de volta em conforto, dizendo:
você pertence a mim.

O que não sei dizer.

Essas palavras que faltam,
fazem cócegas em minha língua,
escorregam pela güela,
sinto seu cheiro suave ao nariz.

Vou ao seu alcance e me escapolem
arredias,
não posso tocá-las, não sei suas sílabas,
Existem discretas fazendo borboletas em mim,
Batem asas em meu coração e estômago,
Meus olhos tropeçam, bambos
em busca de sua pronúncia,
Atônitos, calam, esperam que você possa ouvi-las,
sem precisar de uma intérprete.

Estão além de mim,
existindo onde não sou,
aumentando o fluxo sangüíneo,
Deixando tudo no quase dito,
Me fazendo salivar e engolir o verbo,
que não suporta o peso dessa tal vida.

jeudi 17 septembre 2009

Olhos grandes e cílios espessos

Vem depressa com o corpo,
encosta no meu dorso,
que de olhos fechados,
sabemos, não há passado.

Chega de manso,
leva embora o banzo,
vira o avesso,
faz nascer um começo.

Soluça meu engano,
pra desencadear encanto.
Descobre com o olhar
meu esconderijo,
E aceita esse respirar cansado como abrigo

Se for no agora,
pode não ser inteiro,
mas é só esperar a hora,
que ganhamos peso.

Tipo de coisa que se solta devagar
que nem vento no fim do dia,
quando se engancha nos cabelos
e arrepia a espinha.

dimanche 13 septembre 2009

Para repetir até virar verdade.

A vida é bela,
A vida é boa,
O amor existe.

Do encontro

Quando abriu a porta, sob a chuva grossa que caía naquela tarde de setembro, estava ela, encharcada, segurando uma caixa em uma mão e uma frase já borrada pela água, na outra. Ele, coração de gelo que é, começou a derreter vagarosamente sob a chuva forte e com ele, as lágrimas dela que, quentes e salgadas, se misturavam à água doce e fria que caía.

Tinham uma vida inteira a ser costurada.

Reticências

Seu coração era um vulcão vivo que de épocas em épocas, enfurecido, lançava uma larva fervente e vermelha que se espalhava com tamanha intensidade que não deixava nada como antes por onde passava. Por vezes, as proporções que a erupção tomava eram mais desastrosas do que esperava e tinha, ela mesma, que pagar pela fúria de seu coração, reconstruindo vagarosamente o que ele havia destruído e quando não era possível, o jeito era lidar com o vazio que restava.
Nesses dias de deserto pós erupção, as horas caminham lentas e mudas e os passos no chão fazem ecos ensurdecedores aos ouvidos. Agora eram apenas dois pés e duas mãos e mais nada ao redor. Havia ficado só no mundo. Dentre os milhares de planos de reconstrução de seu universo particular, pensara em tirar algumas pessoas da cidade, em escrever cartas anônimas, em descobrir a forma de fazer o tempo correr ao contrário, ou de apagar más memórias, talvez desenhar algo no muro frente a casa dele, pintar o asfalto, talvez um carro de som, ou uma banda inteira tocando ao vivo em sua janela, algo que o fizesse acordar do sono profundo, da dor que cega, da raiva que amarga a saliva. Ela queria qualquer coisa de impalpável que fizesse o rumo das coisas mudar.
Como se as lembranças dele estivessem em cada esquina do que conhecia, em todo objeto que tocava, toda música que ouvia. Tudo a partir de então tinha seu nome e seu coração batia no compasso do samba dele. Não era possível acreditar que tudo aquilo virara cinza, era cruel conceber que aquele era o fim, não podia ser. Lhe disseram um dia, com toda sinceridade, que o Amor era um algo recíproco, e se dela saíam tantos raios incandescentes dessa tal coisa em direção a ele, é porque algo de lá pra cá, mesmo que machucado e escondido nos escombros, havia e era tão forte quanto o que ela sentia; e era apenas essa crença que lhe mantinha viva.

jeudi 10 septembre 2009

Medida

Do tamanho de formiga,
de inseto,
de fungo,
de vírus,
de bactéria,
de célula,
de gameta,
de tudo o que não se vê a olho nu.
Do tamanho que ficou.

jeudi 3 septembre 2009

Do verbo desaparecer

De desintegrar,
sair da vista ou da presença.
Ocultar-se.
Sumir-se;
levar descaminho.
Apagar-se,
ofuscar-se.
Caminhar sem rumo,
invisível aos olhos,
despida de volume,
avessar,
atravessar a parede do mundo,
sumir dentro de si,
introjetar o coração no nada ,
ser engolida pelo buraco negro,
morar em marte,
tomar o chá do sumiço,
comer biscoito de vento e com ele varrer a si,
cometer autofagia,
desmaterializar-se,
desencantar-se,
...

mercredi 2 septembre 2009

Prece

Sopra forte pra ver curar,
perdoa os mal feitos e diz que vai passar,
no três, quando eu contar e abrir os olhos,
vai tudo mudar.

Que o vento é companheiro e leva embora a maldade,
que a chuva que não passa sabe da minha saudade,
que se ninguém ouvir, aqui calada, saberei sozinha da minha vontade,
desse aperto grande, desse corpo pela metade.

Me livra desse pesar e faz voltar o tempo, pra com ele eu despertar,
lembrar na hora certa de quem tenho que cuidar,
e não cair às pressas em qualquer lugar,
sem perceber que pelo efêmero e vazio se perde o rumo, o caminho.

Me faz dormir em silêncio onde as árvores cantam macias durante a tarde,
Traz de volta o riso, o abraço apertado, as mãos, o peito e todo o resto que me falta.

Amém.

lundi 31 août 2009

E a frase gritava alto nela: "minha culpa, minha máxima culpa". Como se arremessassem com força um chicote ardente, um cinto de couro, espinhos ou qualquer coisa que machucasse muito. Criada ao redor do catolicismo, entendia bem de culpa e sabia como era dolorido carregá-la, porém, estarrecida com os últimos acontecimentos, já não mensurava o que cabia ou não ser feito, o que era aconselhável ou justo, só sabia o que vinha do coração. E este maldito, já desperdiçara muito, já faltara com o cuidado, já arriscara a vida, já não tinha muito senso de direção ou portas de emergência.
Não podia mais voltar atrás: minha culpa, minha máxima culpa...

lundi 24 août 2009

Metáfora é quando a gente encaixa sentido no mundo com o que vem de dentro pra fora.

mercredi 19 août 2009

Bandeira Branca

Nem faísca, nem fagulha, nem incêndio,
nada que se possa dispersar,
nem rancor, nem mágoa, nem benção, nem perdão, não há.

Ficamos nós: duas, carne crua, cheirando ainda a ilusões,
ao redor de tantos que não sabem de nossos furacões,
tão pouco, tão silencioso que de longe beira o despercebido.

Descabido encontro, desmerecida espera, engano bobo.
O que não resta a dizer, se desprende no tempo,
entre olhares cruzados, mudamos o curso,
trocamos as forças, desarmamos na ternura.

Porque somos feitas dessa mesma matéria,
que ultrapassa, que se espalha por dentro,
que derrama e descamba para além de nós,
porque temos essa incansável vontade,
esse gosto inapreensível que nunca se sacia,
essa força que não se amarra,
essa insensatez que prefere morrer pelo feito
a fantasiar o não vivido,
Porque pulsamos e morremos de amor e acordamos e sonhamos e vivemos e sobretudo e além de tudo sentimos.

vendredi 14 août 2009

Tum-tum Tum-tum Tum-tum

A vida oscila singela entre furacões, chuvas torrenciais, chuviscos, dias de sol, dias de frio, dias de sol e frio e dias de calor.
Há mais de uma semana venho acordadando com uma sensação esquisita de felicidade, em dias que estão mais para chuvosos do que ensolarados.
Há sentimentos que não se explicam, há outros que só são para serem vividos e uns outros ainda que nem para serem vividos servem.
O melhor disso tudo é perceber que sob o sol, ou sendo levada pelo vento, se vive sempre, com todo o calor que há por dentro, com toda a energia que pulsa incessante, mesmo que todo o resto queira provar o contrário...

lundi 10 août 2009

Amor.

Dos mais sólidos e mais inteiros, que resistem a turbulências e inconstâncias. Eu tenho.
Obrigada Deus.

vendredi 7 août 2009

- Equívoco?
- É, isso.
- Equívoco mesmo?
- Quando desacontece, sabe?
- Sei: equívoco.
- Pois bem, isso.
- E quantos hão de ser?
- Não sei... só vivendo.

jeudi 6 août 2009

Volta

E eu que achava que era quartzo, me descobri areia...

mercredi 29 juillet 2009

Detalhes

Eram dois, eram quase três.
Fui um e em mim tantas.
Foi ele e era solidez.
Um entanto no depois,
Foi imenso que engoliu canção,
Se desfez aos poucos nesse vão.

Era meu como bicho manso
Era sua como quem pede abrigo
Era insensatez nos embates,
Era sanidade nos dias de ruína.

Era tão devagar e sutil,
tão forte, doído,
machucado, inteiro,
movediço, empedrado,
doce e amargo...

Era história pra vida inteira,
lembrança guardada a chave de ouro,
marca que o tempo não desmancha.

É ainda o que resta, o que não foi varrido embora,
o que pulsa sem cadência e com os olhos fechados traz sorrisos.
Era muito e pode ainda ser mais,
em outros instantes, mas com os mesmos motivos.

mardi 14 juillet 2009

Et tu es en moi.

Me manquerais la presence de tes mains,

me manquerais tes yeux en regardant moi

me manquerais la manière unique que tu as de toucher mes lèvres.

Me manquerais surtout cet amour que nous avons construit toujours...

Bahia

Sentirei saudade da areia branca,
da água gelada e do sal que limpa a alma.

Sentirei saudade do quente desse chão,
de andar descalça
e pisar inteira nessas calçadas.

Sentirei saudade de tudo que fui
e de tudo que deixei de ser aqui,
dessa brisa quente e úmida
me embaraçando os cabelos e o corpo.

E dormirei sozinha sempre que tiver saudade
para nascer de mim o gosto dessa terra.

vendredi 10 juillet 2009

Nunca canso de sentir.

Ai ai pudim...

Embaixo dos meus pés nuvens de caramelo, são leves, mas grudam.
Meus pensamentos, algodão doce, enrosca infinito e dissolve na saliva.
Minhas idéias salas vazias, em que se morre à porta e não há quem abra.
Minhas mãos, pobres criaturas adormecidas, não servem mais para criar histórias, contornar símbolos.
Meus olhos enxergam torto, distorcendo e confundindo faces e amores,
Meus seios apontam o futuro, mas não seguem outras direções.
Ao redor de minha pele, anestesia, e as cores seguem pastéis e sem vida.

Me mordo forte pra ter certeza de que estou viva.

E vou falar dela...

Olho de mulher forte e vagabunda.
Me encara como quem chama pra briga
e depois desiste
porque a batalha já está vencida.

Boca de mulher vadia,
voz pesada e arredia,
Se faz um personagem
e se esquiva de si.

Seus cabelos enrolam em mim,
Ouço suas fantasias,
pena que não sabe fazer poesias,
Nem amo e só.

Nem como a outra que me encantava
Essa me faz rir,
Não sou desse timbre,
não gozo assim.

(Mas um dia o jogo muda
e a força ganha da doçura.
Aí as palavras serão outras
E quem sabe a moça
cause algum arrepio em mim.
Será?)

mardi 7 juillet 2009

verdades ao Mundo.

Mundo,

Tira minha roupa,
me deixa nua que hoje eu quero aprender a ser sua.
Quero sentir seu cheiro,
falar seu nome,
ver sair você da minha boca.

Hoje eu quero te pegar com força
e te olhar nos olhos,
porque quem tem a te dizer sou eu.

Quero saber de todos os seus segredos
e descortinar sua rotina,
me esbaldar em seus braços,
rir de suas fraquezas,
me fazer mulher sobre você.

Hoje quero andar por sua casa,
bagunçar sua vida,
desarrumar seu tédio,
me atirar em seus desejos.

Te segurar forte,
como a quem se tem domínio,
te lamber inteiro,
te desarmar,
te mostrar que hoje,
quem diz o que quer,
sou eu.

lundi 15 juin 2009

Conversando com Caetano

Perdeu, jogou de lado, agora é que não deu.
Ameaçou, arriscou arremessar pra fora da janela.
Não viu, não assumiu, não permitiu, não consentiu.
Deixou passar, ficar pra trás, perder valor, não mais amar.

Atropelou, mastigou, engoliu, perdeu de vista o vulto.
De cima assistiu seguir a cena sem nem mais um susto.
Andou, parou, suspirou, fumou e nem um segundo passou.

Voltou ainda sem saber o que estava a fazer.
Dormiu, acordou, hesitou, respirou, deixou o telefone tocar.
De curiosidade morreu sem procurar saber o que ela dizia.
Não preferiu, não expeliu, não conferiu, não quis promessa.

Quis sem querer, fez sem fazer, disse sem dizer.
Esqueceu o que faltava na soma, o que completava o jogo,
o que valia a pena apostar.
Se arrependeu, olhou pra trás e já não estava lá.

samedi 13 juin 2009

Não é você, sou eu.

Esse desejo que não se segura nas próprias pernas,
um dia desse caio de banda sem você pra aparar a queda.

jeudi 4 juin 2009

Alfabeto.

Talvez minhas palavras saibam se soltar mais pelas letras do que pelos sons,
Falo melhor quando escrevo,
Engasgo menos, destrincho mais.

Papel em branco é meu melhor e mais velho amigo,
a ele faço confidências que às vezes nem eu conheço...

Adeus voz, serei agora só letra.

lundi 1 juin 2009

Do deixar de Ser.

Anteontem vinha andando na rua, atravessou com pressa, o carro buzinou alto chamando sua atenção e a de todos, ontem ainda contabilizava todas as contas que deveriam ser pagas nos próximos dias e as que iriam ficar penduradas por mais um mês. Em um instante de calor, comprou uma água na barraca e comentou da instabilidade do clima. Voltou à rua com seus pensamentos que não sossegavam com tantos afazeres a resolver.

Ontem levantou com os olhos pesados pensando que as 7 horas que tinha dormido passaram tão ligeiro quanto os 30 minutos de casa para o trabalho; ligou para a namorada, comentou sobre fatos corriqueiros de seu dia cheio e desligou esquecendo de dizer que a amava. Correu para a sala, mas antes, encheu um copo d'água na tentativa de se lembrar dos 2 litros diários que o médico mandou beber. Sentou e pensou que com tanta coisa na lista, tinha vontade apenas de tomar uma cerveja.

Na semana anterior tinha sido aniversário de sua irmã, a família toda reunida e, entre a sobremesa e o suco, as perguntas frequentes sobre os rumos da vida. Pretendia se mudar em pouco tempo, arrumar um lugar com a namorada e começar uma vida a sós. Contava do curso recém iniciado e da importância de as pessoas refletirem sobre a questão das cotas para negros como uma necessidade no país em que vivemos.

Tinha uma vida saudável, fora as aventuras dos finais de semana. Comia carne vermelha moderadamente, não exagerava no açúcar, nem na gordura, praticava exercícios físicos com regularidade, sempre que podia caminhava pela praça perto de sua casa, não fumava, a não ser alguns cigarros de maconha nos fins de semana, mas nada que mudasse sua rotina. Era viciado apenas em vídeo game, motivo de brigas eternas com a namorada que insistia em concorrer com seu vício.

Naquele ano, completaria 26 anos e já começava a pensar no que faria no dia, já que todos os amigos iam cobrar algo, então era melhor que pensasse logo, do que esperar alguma surpresa desagradável. Gostava de reunir as pessoas queridas, era sempre engajado nos programas com o grupo de amigos da infância, inclusive, tinham um dia certo de jogar futebol, geralmente nas quinta-feiras à noite.

Ontem não tinha nada de especial marcado em sua agenda, só mais um dia comum. Provavelmente no fim do dia, iria se encontrar com a namorada, talvez um filme ou comer alguma coisa, não sabiam ainda.

Hoje deixou seu quarto com as coisas que tocara alguns minutos atrás, deixou os textos que havia encomendado na xerox, a conversa que deixou pra depois, os sapatos que já tem a forma de seu pé, as camisas que ficaram com seu cheiro depois que usou... e ao meio dia ele não existia mais. Sua vida havia desaparecido junto com todos os planos. Na mesa do café da manhã ficou o suco deixado pela metade. Hoje, nas ruas em que ele passava, na cadeira onde sentava, no telefone onde falava, no coração de quem ele amava, nas roupas que ele usava, no ventre de quem o colocara no mundo, havia só uma ausência e dali em diante, ela nunca mais seria desfeita.

vendredi 22 mai 2009

Em suas linhas

Seu sorriso me cala e
eu não consigo ir embora.

mardi 12 mai 2009

Sinto o cheiro de novo.

Oscilo entre a saudade do passado sem-par,
a esperança de uma retomada fantástica,
e a coragem fugidia de abraçar o escuro.


As manhãs vão se levantando como se aguardassem
São sempre a expectativa do que pode ser esse dia.
Há meses, elas esperam.


A construção me acorda ensurdecedora,
a me questionar "e então",
tudo que me olha espera uma decisão.


Meus passos já não aguentam,
andam cansados de titubear,
ora centro, ora longe,
ora perto, ora distante.


Até que chegará o momento do sim,
Quando a construção
será desconstrução,
E as manhãs não mais me perguntarão


O escuro arredio me enlaçará sem escrúpulos,
Eu o desejarei sem pudor,
Sentirei o novo deslizar forte pelos meus sentidos,
E tudo será composto de novos rumos.

lundi 4 mai 2009

Letra livre.

Queria ter essas palavras que traduzem a vida
Queria esse sentimento que arrepia o braço
Queria o verbo encantado pra soltar em pedaços

Queria o profundo do dizer o que é seu
Querendo em profundo traduzir como meu
Querendo um espaço onde se faça canção
Meu mundo, seu mundo numa só fração.


De ser tão inteiro quando se abre o compasso
De ter essa rima, essa moleza de quem tem esse traço
De sentar na calçada e ver como se formam os passos
Daqueles que contam sua vida como fracos
Quando apenas não contam o peso de sua sabedoria
Não conhecem a leveza de sua poesia


Reconhecendo que sua beleza está na ignorância
De não nomear o que na vida não tem importância
Encontrando lugar pro sentido e só
Observar devagar o movimento do sol.



Queria ter o sabor dessa gente que samba
E poder sambar em todo lugar sem virar só lembrança
Carregar nos quadris o registro da palavra
E levar sob os pés o batuque da alma.

Vovó Sissi

- Os negros da Bahia vieram de 4 grupos. Eu posso lhe dizer assim, que mais ou menos 60% deles são do povo Iorubá, sabe? Esse canto na fala, esse jeito mando do povo daqui vem muito do povo Iorubá, eles falavam assim. Aí sobram 40% e eu te digo que esses 40 se dividem em 2 grupos de 20%, o primeiro deles é formado pelo povo que veio da região onde hoje é o Congo e os outros, é uma mistura, mas tem principalmente o povo de onde hoje é Gana e a República de Togo. As negras Ashanti, ah.. elas eram muito bonitas muito vistosas assim... Aqui nós temos muita influência dessas negras.

Tem também os negros lá na África que escravizavam outras etnias, por isso que vieram tantos Iorubás pra aqui, porque eles foram escravizados por seus vizinhos que eram mais poderosos, então eles mesmos começaram a se escravizar lá na África...
Além desta, ela contou mais muitas histórias, tudo isso num vão de 40 minutos, eu ia ouvindo e virando um pouco daquele chão, um pouco daquelas plantas em redor, um pouco as palavras dela. Ela contava sobre minha origem e eu virava um pouco pó, despedaçando em meu desconhecimento, virava um pouco gente também e podia olhar no olho dela e saber que tem algo em nosso sangue que circula junto, que nossas palavras cantadas dançam junto e nossos corpos escurecem com mais facilidade no sol.
Ela tem mais de 70 anos com essa imensidão distribui conhecimento e vida em suas histórias, conta de um passado que anda pelas ruas de Salvador, fala com as crianças com uma voz forte e carismática que desperta a curiosidade deles e o respeito também, todos a chamam de e tem por ela esse sentimento mesmo de cumplicidade e carinho.
Ela podia ser uma personagem (e é) mas é tão de verdade que é uma daquelas coisas que fazem a gente ter paixão pela vida.

samedi 18 avril 2009

Clarão. Ou: sobre os espaços vazios.

Quando o dia acordou branco e frio, pensou que algo havia mudado. Alguma coisa se deslocara dentro de si, mesmo que alguns centímetros apenas. Tudo fazia diferença agora. Era hora de se desfazer das velhas fantasias, fechar na mala antiga e guardar no fundo do armário, nada acontecera no real, mas aquelas imagens a despertaram um pesar de mudança.
Aquele mesmo sentimento de empacotar todas as coisas que são suas, reduzi-las a espaços de caixas quadradas, deixar que elas desocupem um outro espaço que não é mais seu. As fantasias eram as únicas que iriam para o armário e lá ficariam sem dono, até que um dia fossem descobertas por outra pessoa e construíssem então um sentido que não tinham outrora.
Assim, os próximos passos na manhã branca iriam tomando forma, todos os objetos em que seu olhar tocava iam vagarosamente desaparecendo de seus lugares postos antes, agora se encaixavam apertados no papelão. Da penteadeira sairiam todos os seus enfeites, as pérolas de que tanto gostava, os pingentes que traziam lembranças de outros anos. Os papéis antigos, já sem utilidade, mas que diziam tanto de quem ela era.
Da escrivaninha desapareciam os livros, um a um, aqueles nunca tocados, os outros deixados pela metade, interrompidos antes que o fim chegasse e aqueles preciosos, que guardavam minúcias de sentimentos compartilhados e às vezes descobertas insubstituíveis. Do guarda-roupa, sumiam pouco a pouco seus dias de branco, seus dias de chuva, os cheiros que ficavam presos, as marcas deixadas, sorrisos, ensaios, presenças...
Na sala tudo já havia sido levado, os sofás vazios, a televisão que falava para ninguém, a poltrona que abraçava nos dias mais longos, os retratos que faziam dali um lugar que não poderia ser outro. Nada mais restara... apenas no canto da sala a luminária que ganhou de presente e nunca encontrou um lugar perfeito para encaixá-la. Podia ouvir o eco de sua voz na sala vazia, seus passos ganhavam uma imensidão que a fazia implodir um pouco mais a cada pisada.
Tudo ali fora um dia e se desfazia aos poucos com a partida. Só as fantasias ficariam ali, guardadas, intocadas por ela, nunca alcançadas, nunca vividas, já manchadas pelo tempo. O dia branco clareava ainda mais o pesar de dentro, uma vida engolida sem mastigar. Estava tudo esperando por ela para ser posto para fora, todos os seus pertences, tudo que só dizia respeito a ela, ainda que ela não dissesse respeito a tudo.
Frente ao vazio, ao eco de sua voz desprendida, já pronta para partir, desaba no chão perto da porta, se desmancha ali mesmo, com as últimas caixas a serem levadas, não consegue se despregar de toda aquela ausência, seus olhos desobedecem, teimam; logo eles que são tão obedientes em multidões, agora não respondem ao seu comando, são o próprio desencontro. Fica ali por horas, mirando o céu que desponta da janela, um clarão que a denuncia, não sabe o que fazer com toda a luz, não consegue enxergar na claridade...
O dia terá que nascer branco por mais algum tempo até que além de todas as coisas, seu coração se desloque, mais do que poucos centímetros, que mude inteiro de lugar, que sopre o lugar antigo e depois de tirar todos os vestígios encha-o de pétalas soltas, conseguindo preencher tudo ali, pressionando-as bem para que tomem todo o buraco, e que saia dali aquela ausência.

mercredi 15 avril 2009

- Se você fosse um alface seria verde e faria bem à saúde.

dimanche 29 mars 2009

Receita de solidão.

- 2 xícaras de coragem.
-1 copo grande de confiança.
- 3 doses de amizades.
- 1 medida morna de pensamentos tolos.
- 4 colheres de espaço vazio.
- Filmes de amor à vontade.
- 1 pacote de fermento do tipo fico melhor assim.

Modo de preparo.

Em um coração bem apertado e machucado, coloque primeiro o copo de confiança, misture a coragem e o fermento. Deixe descansar em suspiros profundos por algumas horas.
Em seguida, junte os pensamentos tolos ao espaço vazio e aos filmes de amor. Bata bastante.

Quando a mistura estiver bem homogênea, acrescente a coragem, a confiança e o fermento já bem descansados. Bata até conseguir consistência e uma aparência vistosa.
Leve ao forno e deixe crescer.

Está pronta. Bom apetite.

mercredi 25 mars 2009

Vir a ser

Devir,
um dia te encosto na parede,
um dia te calo a boca e os olhos,
um dia te deixo presa e não deixo que fale,

Um dia você não me escapa
e eu te digo com todas as letras,
em bom português informal,
em tom que se faça comprrender.

Te arranco de dentro de mim,
te exponho aos meus infernos,
te deixo implorar pra ir,
ou calar querendo ficar.

Mas ainda te digo,
hoje ou daqui há muito,
com todos os pronomes , verbos, desejos e posses:
eu sou você.

vendredi 13 mars 2009

Em alguma página perdida de setembro passado

Estrangeira de mim,
abro os braços e bem vinda seja
aqui nessa outra.

Suas horas são mais calmas,
Seus olhares sinceros e tranquilos.
Da boca, palavras e desejos
se desenrolam sem pressa.

Ela que veio de fora,
sabe mais do que esse coração daqui.
Sua cor é amarela, de sol caindo no mar,
de flor aberta em chão verde,
de olho contra a luz,
não de qualquer ausência.

Veio de antes da curva,
onde os fluidos são quentes e crus,
entre risos largos e desprendidos.


"Sou de outro lugar
e andei por aqui procurando primavera,
encontrando agosto. "

Seu olhar anda devagar,
Sutileza é seu jeito de falar,
e com silêncio, assim sincero,
ela some,
se vai,
mas deve voltar.

lundi 9 février 2009

Não sabia explicar.
Só sabia que aquilo era amor.

mercredi 4 février 2009

Existem gotas de vida em qualquer parte do mundo.

Um vendedor de colares foi em direção a duas meninas na praia,
Ele baiano, elas também.

Ele ritmo suave, tranquilidade,
barganha sem pressa,
simpatia na voz,
sorriso devagar,

Elas desconfiadas, apressadas,
não carregavam sentido na fala,
duas cabeças em outros lugares,
perdiam o tempo (sempre) sem perceber
e não perdiam tempo com a vida.

Ele na mansidão mostrou um, dois, três cores...

Não sei as cores dos orixás,
mas esse aqui tá bonito.
Já fui em mãe de santo,
mas não sou assim de candomblé não.
Eu fico sempre por aqui, faço uns trabalhos.

Esses daqui eu fiz alguns, tem uns que vem pronto também,
Esse aí ficou lindo em você.
Eu gosto de fazer amizade, sabe?
Tem gente aí que explora,
vê que o pessoal é de fora...
mas eu não, eu gosto da conversa.
Gosto de parar aqui e trocar uma ideia com vocês.


Mais cumprido? São todos do mesmo tamanho.
É que as vezes fica um pouquinho maior que o outro,
mas é tudo igualzinho.

Sou daqui mesmo,
todo mundo me chama de Timba.
É porque no Carnaval eu pinto a galera de timbalada.
quando vocês passarem e me virem,
pode falar "e aí, Timba", eu vou lembrar de vocês: "ah, as duas meninas da praia."
Todo mundo aqui fala comigo, eu gosto.


Elas nem sabiam mais o que era mesmo,
ele vendia colares e elas não queriam comprar colares
Ele distribuía palavras tranquilas,
Tinha um gosto doce na voz,
Parava o mundo quando falava.

Elas levaram os colares,
levaram sorrisos,
levaram um pedaço de vida se fazendo.

A cor do santo não se sabe.
Cada uma ganhou uma fita e três pedidos.
Pedidos de coração, de ritmo manso,
de quem pinta as pessoas no Carnaval.

E uma sensação de que a vida se esconde nos parênteses.

mardi 3 février 2009

Mundo do desconheço.

(Essas são linhas de saudade.)

quando menina eu era multidão,
tinha uma relação estreita com o mar e tudo que vinha dele.
Era íntima das profundezas,
Vamos ver quem consegue trazer areia?
Acho que foram 6 metros, pai!
Entrou água, mas consegui tocar no chão.

Tudo era azul, meu pés iam mais rápido que a cabeça,
meu coração segurava a mim e ao mundo
e não hesitava no percurso.

Era tempo de cor forte, cor de céu em Salvador.
Em que o mundo era fluido e eu escorregava em seus braços,
nada pesava, era tudo sopro de vento manso,
abraço apertado de amor puro,
chuva de felicidade.

Vivi num tempo em que uma voz em mim que cantava sem precisar de autorização
e cantava em tom limpo e certeiro, sem técnica,
só de intenção.

Tudo era paz,
e se eu nadasse o máximo que pudesse
conseguiria todas as coisas,
meus amores só iriam morrer aos 400 anos,
meu pai ia ter o coração mais forte.
Meus pensamentos tinham a força de mudar o curso de todas as coisas.
De meu silêncio saíam todas as soluções para o mundo.


Quase tudo que pedi o universo me deu. Só esqueci de pedir para não perder essa força, a coragem e a inocência. E de repente elas se foram, sem aviso prévio.

Minhas certezas ficaram espalhadas pelas águas azuis de antes,
a fluidez se dissolveu no calor da terra.
Em vez de ser grande, ser inteira,
conheço pedaços que não me pertencem
e não sei aonde pertencer.

Sou de lugares que não me cabem,
não me respondem, não me olham nos olhos.
Estou por aqui e por ali, sem cessar,
em todos os cantos à procura do que se perdeu,
de um mundo que ficou no fundo do azul.

Hoje eu sou um pouco .
Sou metade, não reconheço um terço dos sentimentos que me habitavam.
Desconheço o mar, tenho medo de sua força, de seu azul, de sua profundeza.
E quem era gauche me soprou um dia e tinha razão: os medos crescem junto com a gente.


Não consigo mais tocar no fundo,
tenho medo de águas frias e escuras,
tenho medo de montanha russa,
tenho medo de cachorro grande,
tenho medo de andar só à noite,
tenho medo de solidão,
tenho medo de ter medo,
tenho medo de esquecer quem eu sou,
tenho medo de não ser,
tenho medo de não saber quem sou,
tenho medo de perder,
tenho medo de não ganhar,
tenho medo de acreditar,
tenho medo de amanhã...
Aos 23, meus medos são arranha-céus. E tenho medo que com o passar dos anos, eles ultrapassem o céu.