mercredi 30 octobre 2013

CASA

Na distância, 
minha casa era o cheiro do mar
A gota salgada que escorria 
umidificando o corpo seco.

De longe, 
minha casa era 
a cor do sotaque relaxado
desbocado, enxerido,
carinhosamente manso.

O doce do quente 
da água
do sol
da saudade
dos afetos
dos meus
dos outros em mim.

Nesse instante,
minha casa é poeira,
restos, lembranças turvas, 
algumas memórias 
e o corpo já úmido 
busca incessante
essa casa perdida,
desacreditada,
nunca vivida,
ou reconhecida...

Minha casa sou eu
tentando achar um lugar
para descansar de mim.

lundi 28 octobre 2013

A midsummer night's dream e as letras em inglês.
É o mais perto que chego de uma ausência
O meu lugar nos braços do outro
não é meu lugar
é lugar do outro.

Fiz uma concha e revivi
algo que se foi com o tempo.
Outras mãos arrodeavam meus seios,
adentravam minhas pernas
faziam coquillage para eu-vênus.

O video passava
enquanto eu quase dormia...
Não consegui esquecer a lembrança
Não consegui reviver a cena
lamentei em sonho
a presença ausente de um passado.

Este corpo está tão só que não sabe ser abraçado.

10 versos para 10 não lugares.

Há 10 dias não escrevo.
São 10 os lugares que me pedem para ter casa.
Mais de 10 minutos tentando escrever.
10 segundos duram o suspiro e o silêncio.
Há 10 horas sonhei e esqueci o sonho.
Há 10 meses havia uma casa e um coração.
Agora são 10 os lugares que não consigo preencher
10 possibilidades de não caber.
10 segundos, minutos, horas, anos tentando dar/fazer sentido...
E são muito mais de 10 os momentos de agonia.

vendredi 18 octobre 2013

Mudo

De dentro da bolha, grito
Pulmões a toda força.
Fora, nem eu, nem você,
Ninguém ouve.

jeudi 17 octobre 2013

Ruínas

Antigo é o mundo,
Ruínas em tudo
Imenso é, mundo;
Vasto e silencioso
Em todo este ruído estrondoso...
Os olhos cravejados ao chão
Vai mulher...
Os punhos emaranhados
Nos incontáveis, trôpegos,
Embaraçados fios
Do amor
Antiga a dor, infante
Desse sexo em guerra
Exilado, roubado, em troca,
Amordaçado.
As ruínas de lá longe
Vivem aqui, dentro.
Gaguejam as sílabas do amor maldito
Arranham vermelho quente
A carne viva
Desmascaram o resto fingido
De honra e paz
Escancaram o horror de (des)conhecer
Esse amargo, amertume na boca.
O ouvido zombe
O gelo sobe pelos pés
Algidez de tornar-se pólvora disparada,
Tomando o corpo
Forçando enfim
Todo este
Em ruína e silêncio...

mardi 15 octobre 2013

Do medo do amor

Enquanto ouvia
A voz doce prevendo
Para mim, dias amáveis,
Afáveis, de carinho e
encostar de ombros,
De ser inteira em tantos...

Senti aguda e estridente
Em meu peito
O horror do medo
De ser para sempre
 solidão.

lundi 14 octobre 2013

"É só mistério não tem segredo"

De tantas histórias, tantos amores, o que ecoou nas bocas, ouvidos e olhos das moças sentadas à mesa foi a frase, parafraseada, recriada para caber em nossos dias:
"Há menos mistérios entre o céu e a terra do que no coração de uma mulher".

Intuição

Intuitivamente eu ri até não mais poder
Intuitivamente Shakespeare me chega em presente
Intuitivamente esse silêncio é não querer
Eu querendo tanto sem saber

Procurando espaços para sofrer
de tudo o que já conheço
desse amor mentiroso que foge correndo
se um dia chega a parecer
Desejando solenemente o que aqueles olhos
amarelos me davam.
O amor à beira do rio marrom
onde flores de algodão
viravam travesseiros de nuvem
as horas caminhavam lentas
Argila tocava repetidamente nos auto-falantes
e eu era
simplicissimamente
encantada
rodeada
e rodeando amor.

Círio com C.

A santa atravessaria a cidade,
A corda estaria abarrotada de gente
Os voluntários levariam água
A multidão estaria nas ruas.

Só após a notícia no jornal,
Um dia depois,
Eu viria o que não conseguira
ouvir antes.

Minhas não palavras
estavam perto em pensamento
durante toda a procissão.

Durante toda a romaria
vi patos no tucupi
a fé dos que creem
as lágrimas nos olhos e
a solidão de estar longe.


Amarelinho

O céu era azul no sábado
E eu me fiz azul
para lhe fazer par.

Fogo, água e corações.

Distanciar os corações
começando pelo distanciamento
dos corpos.

Para se distanciar os corações,
deve-se iniciar pelo distanciamento
dos corpos?

Afastar-se para não afogar-se.
Afogar-se: encher-se de água dentro.
Afoguear-se: tomar-se de fogo
de fora para dentro.
-tão parecido, tão distinto-


É preciso aproximar os corações
quando a água é carinho na pele
e o fogo é acalento para pés e mãos.





A água da chuva não é gelada
nem quente, neste solo tropical.

samedi 5 octobre 2013

Cobre tudo.

[Os atos têm me ultrapassado.
Antes que pense si
Já se foram a boca, as mãos, os pés.]

Solidão não é de se querer
É aperto extremo.
Diminui os tamanhos de quase tudo
só aumenta o vão de dentro.
Gota d'água em buraco fundo.

O coração está seguro aqui
neste não lugar de não pertencer
Se escorrego daqui ou de lá
é de se entregar
deixar amar...

Ainda não. Em nenhum lugar
neste aperto imensidão
há espaço para mais um.

Por ora,
só hipóteses
que flutuam,
vezes delicadas,
vezes doídas
nessa tal caixa apertada
e vazia.