mardi 21 février 2006

Da janela de trás

Passou a primeira árvore
Passaram as ruas depressa

Só o branco daquelas ruas discretas
Passaram passos com pressa.
Vagavam largos em imersa fluidez
Onde passam vultos
A imagem ao avesso

Quando olha pra trás
Das ruas da frente, o fim se faz

E os passos a serem dados já se passaram
O que ia dizer fez-se verbo
Quando não, pensado.

As folhas ainda de pé.
Virou o rosto e já caíram

Os olhos que piscam
Enquanto o mundo faz a curva
Dos acidentes fez lembrança
Do embrulho, saudade

Vira de novo,
Cansa do velho
volta ao passo passado
Do que já foi quando ainda
está para ser.

samedi 18 février 2006

De cabeça para baixo
ombros ao alto
moedas ao chão

De ponta cabeça
joelho na orelha
idéias na mão

Céu no mar
cidade no teto
folhas no ar
tédio eterno

Vermelha a face
embaçado o mundo
exaustas as pernas
Cansaço profundo

De cabeça para cima
Lá vem a agonia
É tudo monotonia
E morte da rima.

De cabeça para o alto
Tudo ao contrário
Pés fincados
Sorriso plástico.

vendredi 10 février 2006

É saudade, só saudade.
De olhos fechados (ou abertos). Quando qualquer vírgula solta faz voltar o tempo e qualquer pequeno detalhe, que foi capiturado por qualquer dos sentidos, abre a porta sem pedir licença ou sem respeitar o senhor tempo que já envelheceu... Saudade, só saudade... que levanta os fios de cabelo quando o vento passa e lá bem longe é possível ouvir aquela velha gargalhada sem ter nem por quê. Quando os olhos daqui fecham e veêm com tanta veemência os olhos de lá, sinceros, malditos e inevitavelmente verdadeiros, como se tudo ao redor podesse contar uma palavra que seja sobre o que já foi e ainda é tanto que dá medo... Saudade, só saudade... Da dor, do sol, do céu a noite, dos passos corridos, das borboletas invisíveis, do que foi e ninguém sabe, de quando volta e quem sabe, do sumir e estar sempre, o tempo todo... Saudade, só saudade... é o que escapole desses dedos, já marmanjos e tão inexperientes do que pode vir a ser, do que já deveria ter sido, do que nunca é quando não é pra ser, do que engasga, do que cospe e do que respira fundo e tenta só viver...
Saudade, só saudade...

mardi 7 février 2006

"-Olha como o caminho é looonngoo, mãe! Disse a pequena, olhando para o alto, tentando enxergar contra a luz do sol, o rosto seguro da mãe... Haviam tantas idéas naquela cabecinha que um caminho tão longo e vazio serviria apenas para desperdiçá-las a toa, sem uma presença que as desse vida... Perguntara só pelo desespero de imaginar o tanto de chão que vinha pela frente e quantos suspiros vazios teria que ouvir... A mãe, engolindo no seco, apertou-lhe a mão, mirou sua frente, pôs firmeza na postura e num tom sabio, cansado e sussurrado, disse:
- E olhe que sua vista de menina só enxerga até a linha do horizonte, pequena..."