dimanche 28 mai 2006



Era carneiro



Eu acordei. Era o último dia, meu último dia lá e o último dia de vida dele. Sabia que não ficaria para o almoço, esperei não ver o tal bicho... Esperava, na verdade, que ele já viesse morto, ou melhor, multilado e pronto, mas não ia ser assim, ele viria inteirinho, peludo e gordo, largaria seus últimos excrementos pela varanda e mais tarde seria só uma lembrança.

Minha mala era pequena, não tinha ido passar muitos dias, cumpriria algumas obrigações afetivas e voltaria à minha cidade, à minha solidão de geléia, torradas e salada de frutas naquele mês tão vazio. Era estranho. Achava que sentia falta, mas depois de algumas horas, digo horas, e não dias, percebi que prefiro a falta, prefiro a ausência, a saudade, as boas lembranças... Aquela convivência não nos deixa em paz, não nos entendemos, não conversamos e não sabemos nos ouvir. Então, a lógica era clara: viver longe para não nos matar... Devo dizer que isso não importa. O que importa é que era meu último dia, minha mala estava semi-pronta, todas as coisas guardadas, uma semana empacotada, meus objetos pessoais, minhas roupas, o livro intocado, o caderno novo, os cds preferidos, a escova de dentes... Lembrava da escova de dentes? Tudo deveria estar guardado, costumo não voltar tão cedo àquele lugar... E era um pedaço de mim ali... Não no lugar, ou melhor... No lugar também... Mas nas coisas, na mala. Era um pedaço de mim. Havia pedaços de mim em todas as partes... inclusive no...

Como eu ia dizendo: preparei a mala, troquei de roupa, a mais confortável serve para esses dias de viagem, a fome foi chegando e desci as escadas, em direção a cozinha. Sentei à mesa, preparei o pão com queijo, misturei o café ao leite... Quando me lembrei da existência do bicho e perguntei:
- Ué, mas onde está o carneiro? Já mataram?

A resposta não demorou a vir e rapidamente, como num movimento automático, daqueles em que não se pensa, só se faz, olhei para o lado. A porta da cozinha ficava em frente ao quintal, nele havia um tanque grande de cimento e ao lado do tanque uma construção, uma casinha menor com dois quartos, um como dependência e o outro como depósito.
Ele estava lá. Suas patas traseiras amarradas por uma corda ao telhado da casinha, estava de "cabeça para baixo", sua lã era negra, tinha muita carne, sua cabeça quase encostava no tanque, logo abaixo dela havia uma bacia velha de alumínio, estava ensangüentada, quase cheia do líquido espesso e escuro; seus olhos estavam semi-abertos, parecia tranqüilo, não demonstrava dor; não parecia ter se incomodado ao morrer... Agora só pingava, pingava sua vida numa bacia... E não se manifestara, era isso... Morrera sem se manifestar e se acontecesse outra vez, seria o mesmo, seria sempre assim... Um pedaço de carne e lã, agora morto, pingando seus pedaços naquela bacia velha... Um pedaço de mim, morto, pingando naquela bacia velha, morrendo em silêncio, em silêncio...
Eu perguntei:
- Ué, mas ele não grita quando está morrendo? Ele não faz nenhum barulho? Não emite nenhum ruído?
E a resposta veio naturalmente:
- Não...

samedi 13 mai 2006

- Agora é a minha vez. Será que eu teria o privilégio dessa valsa, senhor?

O salão era enorme, estava vazio, nenhum passo perdido. O mundo esvaíra-se, eram apenas dois; ela homem, ele mulher, ali um em frente ao outro na espera do se.
Ele deixou um sorriso tímido, de canto de boca, uma expressão discretamente assustada e a dificuldade em se mover:

- Eu não sei dançar.
- Nem eu

[Risos]

Os próximos longos minutos foram ministrados pela linguagem intuitiva dos dois corpos quando juntos. Nenhum pisar de pés, nenhuma direção contrária... Tudo encaixou-se perfeitamente, eram exímios bailarinos que não sabiam dançar... Rodopios e rodopios, dois pra lá, dois p'ra cá...

lundi 8 mai 2006

And he said:

- Don't go jumping waterfalls.
Só se for assim

Caminhando sem jeito,
meio devagar,
na contra-mão do mundo
e o mundo tem tantas contra-mãos,
talvez ele acabe parando no sentido correto.

Vai num passo certo,
outro troncho,
um no preto outro no branco,
assim calado e sem dono,
morrendo de saber
que sempre pertence a algo
[ou à alguém]
mas sem nunca admitir o pertencimento.

Cambaleando entre a perda
de sentido
e a dúvida,
existindo sem sentir [e]
duvidando até de ser.

Ele anda,
calçada desigual,
sapatos antigos,
pés esquecidos,
a velha dor de cabeça.

Ele vai,
quieto e fosco,
as vezes um cigarro amassado,
um suspiro cansado...
a mesma falta de sempre
as mesmas lembranças de sempre
o mesmo silêncio e o sempre.

mardi 2 mai 2006

Sejamos claros.

Ultimamente,
vem me consumindo
uma necessidade, um tanto exasperada,
de "embriagar-me".
Perder o setido,
sair dessa razão que me resume.

Ultimamente,
muitas noções
têm me consumido,
me desequilibrado,
me desconstruído
sem jamais me permitir.

Ultimamente,
eu já não sei
se deveria ter sido
desse jeito há muito tempo,
e meu tempo tem se dissolvido
rapidamente,
como vitamina C efervescente...

Ultimamente,
em fugas desconfiadas
Alguns desejos vem caminhando
meio bambos,
em curvas meio tortas
me protagonizando...

Ultimamente,
eu vejo Vinicius
e caio
num choro doce...
E olhe que eu nem gosto
de uísque...