mercredi 7 février 2007

"Quando olhaste bem nos olhos meus..."
Acordou ainda zonza do que vivera na noite passada. Não sabia administrar esses pequenos vícios humanos, há um tempo se adaptara ao que de costume a lei permite, mas é confuso, às vezes, pensar que a lei, que foi inventada, pode autorizar pensamentos interessantes sobre a possibilidade de se perder a consciência. E era isso que buscava, já sabia. Perder a consciência mesmo que por algumas horas, sem que causasse um dano a sua integridade moral, porque, assumemos, não passa de uma questão moral, e nesses instantes milagrosos de meia ausência de censura, achar-se imensa, escapando por todos os poros e flutuando entre desejos, olhares, toques e gozos.
Mas era interdição. Todo o resto era interdição e o que lhe restava causava enjôo, não dava certo todas as vezes, causava sono também, e vez ou outra sua pressão despencava nos andares da alma... Dessa última conseqüência não reclamava, sentia como mais uma forma de se abster do consciente.
Fora a vontade que lhe tomava todas as vezes que existia a possibilidade de não se medir, era só cautela. Vivia escondida nos meandros de si mesma, querendo que outros a vissem sem precisar se mostrar, querendo ser uma lente transparente que chamasse atenção pelo cheiro, pelos gestos e pelo jogo dos olhos. Mas sem precisar se desdobrar em palavras e nomes e títulos e glórias. Queria o reconhecimento da beleza singular de todas as almas, em sua sutil singularidade de ser banal... quando, de todo modo, nunca se é; queria olhos que se voltassem até ela pelo perfume de sinceridade que queria exalar para o mundo, não uma sinceridade dessas que fala demais, mas só a simplicidade de não ter que provar. E sempre que procurava exalar-se de si, era na tentaiva de deixar essa mistura transparecer a outros olhos e aos seus mesmos.
Pois bem, havia então o estrangeiro esquisito, e ele dava calafrios por prestar atenção demais. Estava atento a cada detalhe, a cada cor que ela usava, nos modos que cruzava as mãos e as pernas, no jeito em que tocava o cabelo, na expressão dos olhos e no suor que corria sempre que ficava tímida. Era estranho porque eles pouco se conheciam, ela pouco o conhecia, ela quase não o via, e ele parecia saber tanto, era como se ele pudesse desvendar nela o que ela queria que o mundo visse. Eram os detalhes. O mundo é composto de detalhes, ela semrpe pensou, mas ele tornava isso real. E não havia nenhuma ligação entre os dois, não havia afeto, não como de costume, havia uma curiosidade assustadora, e ela se sentia lida por ele, mesmo sem trocar mais de uma dúzia de palavras. Aquele estrangeiro que ela não sabia de onde vinha lhe causava a sensação que queria ter quando se embriagava, sem nunca se embriagar. Ele era a personificação do que ela queria dos outros . Era um simples jogo de ego. Era só isso e assustava por ser o reflexo que ela queria de seu próprio ego. Ela era, através da fala dele, a representação do que ela queria ser para os outros, então de algum modo ele provava que tudo que o que ela desejava quando bebia, podia existir. Sim, se alguém podia capturar aquela fotografia, aquele filme que ele conseguia dela, é porque de algum modo ela conseguia exalar aquele perfume. E era simples para ele demonstrar isso, apesar de mal se conhecerem, de não existir o comum afeto e de ser assustador.
E então, quando seu desejo se via refletido e reproduzido por aquele corpo estrangeiro, ela não sabia mais ser e acordava em ressaca da noite anterior.