jeudi 25 août 2016

No fundo é o chao

Por debaixo dos pés,
por debaixo das águas,
por debaixo de nós.




Eram criaturas de Deus
são.
Paridas de um ventre de muito sangue
e amor

Paridas de um ventre coberto por panos e pudor
Sao criaturas
Cujas mãos não alcançam o palmo
da maldade do mundo
ainda.
Antes que sejam mordidas
pelas presas raivosas do horror

Seu corpo pequeno de criatura encontrado nas areias
Silenciosas areias da praia desconhecida
Que não é pátria, mas podia ser lar
Que não chegou a acariciar seu pequeno coração de criatura
Que não aguentou a devastação da fuga.

De dentro, do profundo das águas
a mãe nua , aos prantos, urrava. Ele nos braços.
Pietá das águas salgadas.

Ê nijé nilé lodô. Yemanjá ô. Acota pê lê dê.

Carrega seus sonhos de menino.
Desfaz essas lágrimas em sal e água.

Lá dentro, mais no centro, por debaixo da água,
a loba solitária
corre em seu coração de mata
Para desafogar a pequena criatura

Dos olhos do fim
Dos olhos do terror.










Há de haver paraíso, só pode haver paraíso para essas criaturas de Deus.
 
  

mercredi 10 août 2016

Rascunho para Ulisses

O caminho é solitário, as águas são profundas e imensas. Por detrás do invisível está o chamado, o canto agudo das vozes que me traem, me enganam, o vazio da ausência  sob o véu da beleza. Aqui estou eu, prezo ao mastro, meu corpo resiste.

Resisto, sem antes quase entregar-me ao abismo.

"Ninguém passou por aqui sem antes ouvir a voz de nossas bocas." Eu ouvirei,  não seguirei surdo. Pois em silêncio também, o monstro nos devora de dentro para fora. É preciso cuidado, é preciso  uma fortaleza erguida no peito. Acordar os sentidos, reconhecer o golpe aos sonhos e lutar. Ainda que seja preciso tapar os ouvidos, para não ser devorado pelo canto dos monstros, pela tragédia das esquinas dessa terra, e que são, ainda, as mesmas águas profundas.

Voltar pra casa, reconhecer o cheiro, as cores, o afeto: pertencer. Ao que não é imperativo  do outro sobre mim, mas o que se faz meu no outro. O caminho é solitário  e não estou só.  
Mais de mês
não desenho sobre sobre tua brancura,
meus desejos.
Estou calada e se questionada,
 nada sei.

Nao saber
em tempos de fibra ótica
é quase um crime.

Estou quase me pondo morar com Hillé
no vão
da escada
ou do meu peito.