lundi 12 mai 2008

Dias que chovem

Conntornos embassados, as cores oscilam e se misturam na água.
Será que o mundo é todo de aquarela e se dissolve aos poucos quando chove?
Será que gente é um pouco assim também e quando cai a água vira um pouco líquida?
Ou será que evapora um pouquinho pra ir junto à água pra terra?
Deve ser pra ficar menos forte o gosto de ser gente, pra diluir um tanto da existência,
da dor e da doçura de ser o que é.

Tudo fica distraído e desperso em dia de chuva,
o vento vem forte arrastando palavras soltas no ar
e formando com elas pensamentos vagos,
frases soltas e até um sentimento de água mesmo.

Acontece um algo esqusito com os corpos,
parece que ficam mais sedentos de cuidado,
deve ser medo de escorregar nas poças.
(...)

sussuros

Fechei os olhos e soprei,
segurei o ar comedidamente
e soltei aos poucos.

Derramaram-se assim
pensamentos encadeados em
fantasias impossíveis,
segredos guardados.
Falei alto para que me ouvisse,
e depois me olhasse
com a certeza do que se passava em mim.
Olhou-me firme
e naquele instante
virei pó.

dimanche 11 mai 2008

O que é o vão.

Entre eles o abismo. Um de um lado do despenhadeiro, o outro do outro, mantêm-se olhando fixo nos olhos sem conseguirem abraçar-se sem conseguirem tocar-se e desmontar o que há ali, atrás do olhar.
Ele antes: de longe, o homem forte, grande, mais velho, mais bonito, a sedução, o encanto, a fortaleza. O mestre, onde as lições vão se dar e o mundo vai se mostrar mais inteiro, mais completo, mais dela. A beleza, o ideal, o onírico, o que brilha nos olhos que chega cegar, o lugar exato onde ela deveria estar, seus olhares intrusos, aquele verde lisérgico, todo ele, inflamando, inflamável, entrando nela, de longe, em ritmo suave e intensidade de furacão.
Ela (de lá) de outrora: mistério, sedução, tontura, o mundo inteiro a desvendar, doçura, sorriso que despertava gigantes, o corpo esquisito e lindo, ainda coberto, coeso. Meninice, juventude, ela a descoberta, a aprendiz que intimidava por ser curiosidade, por ser de outro lugar, por ter outros costumes. Ela, ela quem? Era só especulação, fazendo silêncio acontecer, o toque delicado, infantil e casto.
Os dois estáticos, um olhando fundo no outro e pensando o que poderia dar errado quando naquele momento tudo já havia sido inverso. A terra estremecera de tal forma que um imenso canyon havia se aberto entre os dois. Antes disso, a força que havia causado o abismo se sucedera:
Eram plenos de histórias, os dois, cada um à sua maneira, ele com os anos a mais, a voz tão grave e o peso que todo o mundo lhe causava, ela minúscula, página quase em branco, acabou carregando dele só o peso e não a palavra. Deu-se a incongruência. Ele não conseguia falar para ela, ele não conseguia ser diante dela, ela não conseguia se mostrar para ele, não sabia juntar frases, formar versos, nem fazer qualquer movimento que não fosse tenso.
Eram duas nozes de casca rígida, díficil de quebrar, uma esbarrando-se bruscamente contra a outra, sem nunca chegar a sentir o sabor do que havia dentro. Como duas borboletas, de lados opostos do vidro, cada uma tentando passar para o outro lado, sem notar que aquela superfície não permitiria. Estavam os dois, um frente ao outro, de corpo inteiro a ser tocado e não conseguiam.
Deu-se assim a implosão. Ele, um mundo para contar, que não conseguia articular em verbos, não podia, sentia-se impedido de lhe dizer, não sabia explicar o por quê, não conseguia. Ela observando à tudo, tentando, às vezes dizer algo, mas sempre com vergonha que estivesse errado.
Estando um frente ao outro, tentando desfazer o equívoco, de repente, o tremor se deu. E antes que pudessem começar a pronunciar qualquer palavra que fosse transformar vidro em vento ou casca rígida em pele macia, ou até o oposto, qualquer verbo que desfizesse o nó criado, que desinventasse a história que poderiam dar, que separasse N de Ó e de S, antes que pudessem dar um último abraço inseguro e concluir que a questão se dava em não ser, não saber, não conseguir um ser para o outro, antes que qualquer suspiro de letra maiúscula de parágrafo inicial pudesse ter acontecido, a terra tremeu.
Foi assistindo àquilo que partiram e nunca entenderam, nunca se olharam por dentro. A terra estremeceu-se de tal forma e criou um vão tão gigantesco separando os dois que, a partir dalí, qualquer tentativa de palavra seria em vã, um vão entre os dois, um vão escandaloso, e o barulho de terra se abrindo havia sido tão alto que se ensurdeceram um para o outro. Não podiam mais se ouvir, se olhavam a distância sem conseguir pronunciar uma sílaba, se olhavam com a força de quem quer despir o outro e não pode, se olharam como quem diz "me perdoa", e tentavam se equilibrar na incerteza, no estremecido, entre o pó de terra que subia e o desequilíbrio de dentro e fora.
Olharam-se até o tremor cessar e aconteceu enfim. Deu-se, então, silêncio e distância, encadeou-se serenidade, mas agora não podiam mais falar um com o outro, não podiam se tocar, não podiam nem insistir.
Suspiro fundo dela, suspiro curto dele. Ela levantou a mão esquerda, ele a direita, como que num espelho, acenaram-se em adeus, deram-se as costas e desde então nunca mais se enxergaram.