samedi 29 juin 2013

Depois de tanta chuva
encontrar seus olhos
é como terminar
de escoar a lama
do quintal.

E a lama
sempre volta
quando chove.

Vale.

Aquele é o mesmo
vale que minha memória
me foge.
O mesmo rio gelado
abraçou minha história
meu corpo
minhas lembranças.

O tempo essa vela acesa
sempre,
sempre.
Aquela água escura arrepiando
minha espinha curta,
esguia
fina.

Lembro da mão sobre as minhas,
a foto que guardou a memória
os olhos
o cansaço
a certeza.
Suas mãos,
aquelas
as mesmas.

Hoje as águas eram geladas
eram as mesmas águas
antigas e novas ainda.
As mãos?
Onde?
As minhas, aqui.
Eu inteira
perdida.
Não,
achada e só.
Nesse rio vermelho e gelado.

Minha espinha acorda mais esguia.
Ele cai na água depois,
se põe à distância, depois.
é inteiro ausência, depois.

Ainda que só,
rodeada e só
coberta de mim
Esse vale tem
essa força que é da água
gelada
arrepiando espinha
construindo novos caminhos
sobre mim,
sobre si mesmo.

Ainda vale
procurar essas mãos
na sua ausência-presença
ainda que as águas turvas
tudo escondam.

Vale.

lundi 17 juin 2013

Da textura de (uns) bichos

Moluscos são escorregadios.
Ao encontro com o sal,
derretem.
Concluo então, que:
Preciso virar sal
e derreter alguns moluscos
por aí.

vendredi 7 juin 2013

toca

Olhando você,
penso:
-O caminho natural dos corpos é o toque.
É natural o caminho.
O toque.
Te toco.
Tocas-me
En-toco-me-em-ti.
Em ti,
não menti.
Mmm...e(n)ti...

(suspiro)

II
É, natural...
Seu corpo em meu.
Em meu corpo, em ti.
Me entoca,
te toco,
naturalmente,
assim...

Penso:
- O caminho natural é seu corpo em mim.

mercredi 5 juin 2013

Augusto Omolú.

Mais de 50 pessoas dançavam você hoje e todo aquele prédio histórico  vibrava em sua honra.
Eu que não te conheci,
te senti tão vivo,
tão forte naqueles corações,
que quase te conheci.

A frase de teu filho ecoava
em minhas lembranças.
Foi numa manhã qualquer,
" você não conhece ele?
Você não conhece ele?"

E a partir daquele dia eu te conheci.
Te conheci,
mas não tive tempo.
Não houve tempo
de ver teu olhar de perto,
reconhecer teus passos,
tua linguagem,
os movimentos de teu corpo,
tua sabedoria.

Omolú é o orixá da cura
e eu cá me perguntava
que tipo de cura é possível para isto.
O que pode curar essa dor.

Um espaço vazio
 imenso
que se abre
no meio do mundo
quando alguém se vai.

Mas pior,
quando era arte
e difundia ela pelo mundo
e espalhava
tantos pupilos
e tanto saber,
tanto amor, tanto.

Omolú cobre de palhas
um corpo de chagas.
E só penso em seu corpo
coberto de chagas
no domingo.

Mas não quero pensar,
porque seu corpo era
muito maior
do que o que se foi.

E Omolú é o orixá da cura.
Foi a cura
que eu vi dançar
aqueles corpos suados esta noite,
a cura naquelas palavras de amor.

A vida
e a cura na percussão
que te acompanhavam esta noite.
Ainda que o corpo e
stivesse inanimado
e cheio de chagas 
em algum lugar perdido...
todo o resto está vivo,
nos corpos que você ensinou
a dançar
e que eu vi tão forte
vibrar o chão
daquele prédio antigo
esta noite..

Atotô.