dimanche 11 juin 2006

Os bebês são egocêntricos. Talvez essa fase perdure por mais tempo nessa existência boba...
Ele não tinha mais cabelo, em verdade, possuia alguns fios na lateral ... Mas o topo era calvo, calvo... Isso importava tão pouco quando ele falava... E daquele serzinho pequeno, calvo e orelhudo, eu ouvi: "o que você está fazendo com a única vida que tem?" A pergunta vai e volta e vai e volta e não chega a lugar nenhum... Porque saber não é fácil e saber que se sabe é mais difícil ainda. Desço a barra de rolagem e vejo retratos, retratos tão individualistas e não consigo mais responder do que que o mundo precisa. Sei que tem muito de mim em tudo, ando falando demais de mim, ando em círculos e ouço círculos. Talvez eu precise de outros assuntos, outras novidades, outras dores e outros prazeres. Ouvi muito sobre o homem essa semana... Tantos nomes famosos, tantos intelectuais renomados, tanto que eu desconheço, tanto que não procuro... E tudo isso culmina num ponto ferido de argumentação: ninguém sabe de nada.
Como saber do real? Se ele não foi significado por ninguém, se existe antes da linguagem e do mundo simbólico, como saber de algo que não tem um significado, uma representação... É essa maldita sensação que todos têm? É ela, por acaso?
Uma confusão de sentidos e de faltas... Um desamor, uma impossibilidade, uma coisa.
O que escrevo agora não faz o menor sentido e mais parece um diário, eu não emito opiniões e, portanto, não devo chegar a conclusões. Não tenho um tema hoje... Escreveria sobre a bicicleta que ando procurando pelas ruas, mas pode ser uma mera ilustração do impossível.
Só sei que os bebês são egocêntricos e eu continuo um bebê.

dimanche 4 juin 2006

Seria só o pó?


A tarde seguia morna e gelada. O céu não tinha cores fortes, nada de especial, nenhuma palavra, nenhum segredo... Um dia médio passava sem pretensões, sem intenções... Mas quaisquer segundos podem mudar tudo:

Ele tinha aquele singelo poder, por vezes escondido, de transformar os símbolos. Fazia malabarismo com as letras, transformava fragmentos em poesia... Carregava consigo um pequeno saquinho de pano com um pó translúcido que cheirava a flores e no momento, que parecia ser escolhido pelo tempo, sem nunca ser determinado ao certo, ele soprava o pó e o mundo se transformava.
Ela se encantava, vivia assim meio bamba, meio sem jeito, mas tinha de certo uma força por ali, conhecia pouco do mundo e talvez por isso se encantasse inocentemente com o cotidiano. Às vezes era tudo novo e os movimentos banais se reconstituíam em danças leves do tempo... Nunca soube donde vinha esse tipo de transformação, mas seus pensamentos iam longe e despertavam sorriso no rosto... Possuía também o pó. Sem saber o por quê, apenas utilizava-o intuitivamente quando os dias vinham pesados...
Por ordem do acaso, afinal, este tal de acaso andava sempre ao lado deles, os dois se encontraram naquela tarde média.
Ao admirar a bonequinha que caricaturava a figura dela, ele pronunciou:

- Ela é a sua cara......só faltou uma perna de pau ou corda bamba....ou um carrinho com estrelas minguantes....elas ainda caem?

- Ô...caem sim, mas nunca mais eu vi uma delas caindo...

- Nenhuma delas me concedeu pedido...em meio a toda correria do primeiro encontro....elas se seguraram no vidro.....Não caiu uma sequer


- Poxa... eu estou precisando encontrar uma delas por ai, meus pedidos também andam meio esquecidos. Mas da próxima vez que eu encontrar uma, guardo um pedido para você, está bem?

- Essas trapaças de nada valem.......pode até resultar no contrário...tem que coincidir com o momento em que os olhos estão abertos...se tentar fixar o olhar...ele desfoca...em segundos você não enxerga mais nada... então é melhor seguir sem se preocupar.

- Vejamos...então eu posso fazer um outro pedido! Eu posso pedir para elas manterem seus olhos abertos nesses momentos mágicos... assim você não perde uma estrela sequer...

- Entendi agora pq você voa...

- Por que eu vôo?

- Sua relação com as estrelas é estreita...

- Digamos que a gente se cativa...

-Vive juntinho delas...você...sempre me dando um pedacinho de sonho.....

- E você, me dando poesia...às vezes eu esqueço

- Esquece...

- É... esqueço que a gente que inventa o mundo...mas agora você me faz lembrar...

E assim eles o fizeram.Inventaram o mundo! Transformaram as cores daquela tarde banal com o pincel das palavras... não sabiam explicar... mas nas duas existências havia algo em comum, alguma coisa perdida que ambos encontravam vez em quando, nesses intervalos de tempo que podem ser tão vazios do mesmo modo que podem encher o mundo.
E foi pó mágico para todos os lados. O aroma do ar mudou, a lei da gravidade diminuiu o seu pesar e o mundo caminhou mais leve nas horas seguintes...