dimanche 22 juin 2008

As ruas daqui são de pedras, os muros baixos, as casas abertas, o dia começa e termina cantando a mesma música. O vento mais frio que o de lá, dá um cheiro bom pro ar e é possível ouvir melhor os passarinhos daqui. Os pés quando tocam nesse chão sentem o frio subir até a espinha e um gosto na boca de infância.

A velha casa, os velhos cômodos, os móveis, a multidão que chega e sai a todo momento e o mesmo suspiro ao entrar, só para conferir se tudo continua o mesmo. E está tudo sempre lá.

Houve também épocas de mudança, dias de coelhos da páscoa, de pastilha de laranja na farmácia, de beijo de avô, de baleado ou vôlei no corredor. Houve dormir na casa da tia e sair correndo no dia seguinte, antes que alguém perguntasse qualquer coisa... havia timidez também.

Há tudo do mesmo e tudo tão diferente. Um coreto que era gigante, que era palco e esconderijo, hoje se esconde pequeno entre trepadeiras verdes. Antes tinha o misto de Seu Joaquim no trailer no meio da praça... onde será que anda Seu Joaquim, será que anda?

Tinha bicicleta, tinha esconde-esconde e pega-pega. Tinha gente pequena, menor ainda e tinha sorvete na praça de lá.

Tem coisas que não mudam e continuam desconcerto, desapego, desapreço, desabafo, desconsolo, desencaixe, despalavra, desaconchego, desaprendido coração. Mas do outro lado há tudo o contrário e abraço apertado, a lembrança que vai sempre estar, o pode contar, o não vai esquecer, a jabuticaba no pé, tanjerina de verdade, o quentão, o bolo de milho, o chimango quentinho, o avoador mais gostoso,as cores do chão quando bate o sol no fim da tarde, a cerveja de todo dia e as conversas de todo dia e as perguntas de todo dia e as não respostas de todo o dia.

Antes era um coisa e hoje é outra tão diferente-igual, que assusta e alivia. Esses encontros desencontros de não lembro, nem conheço e te vi tão pequena. Não vi, não lembro, mas agora sei e comprimento e sou de bom dia e boa tarde e boa noite.

No natal tem reizado e pífano e fantasia, tem presente pras crianças, tem festa na praça e o papai-noel mais feio que já houve. Em São João tem licor, amendoim e casa dos outros, São João passou por aqui? Tem friozinho e fogueira e cheiro de fogueira queimando. E em todos esses tem solidão.

Na cozinha tem mãos de fada, de cantora e de atriz, mãos que fazem delícias e trabalham desde sempre. Mãos de falta, de história sofrida, de loucura, de sair andando daqui até Feira de Santana, de herança de escravidão, de coragem e simplicidade e de sabedoria maior que a de tantos.

Nos abraços quentes têm os mesmos traços, os mesmos dos rostos das mulheres da casa, as fisionomias conhecidas, as mãos parecidas, os sorrisos, o que tem dentro mais ainda.

A música é, as vezes estranha, mas a que é daqui mesmo é boa, é de dançar e tem sotaque, é sincera e só tem aqui, pra quem sabe tocar desse jeito e ouvir e dançar.

As ruas daqui são de pedra e os corações são quentes, as casas baixas, os chãos batidos, o vento tem outro cheiro, o pôr do sol é de outra cor, as estrelas são tantas que uma briga com a outra pra ver quem brilha mais no céu, os cachorros andam soltos e aparecem aos montes, as bocas não fecham e tem um ritmo engraçado de falar, os passarinhos cantam mais por aqui e os olhos enxergam de outro jeito.