mercredi 9 novembre 2005

Faz silêncio p'ro silêncio chegar...

mardi 8 novembre 2005

SU-PE-TÃO

Supetão, meu filho, vem aqui por favor... Tá vendo aquela menina lá embaixo? A de vestido... Isso... Um vestido preto... já vai fazer dois anos que ela te procura... Como assim, o que, Supetão?! É... Procura, sim! Você diz que vive por aqui e ela nunca te achou... Tem algo de muito errado com esse seu serviço... Sei não, viu?
Bom, de qualquer forma, eu vou ali em Saturno visitar uns amigos e quando voltar, vou conferir direitinho esse seu trabalho... E anda! Xispa! Vai logo lá acordir a pobre garotinha!

Passaram-se mais 3 anos e Supetão nunca apareceu.

lundi 7 novembre 2005

Ela disse em tom baixo e trêmulo:

- Não espere muito de mim . Não sei se você costuma notar os pequenos deslizes que os corpos insistem em imprimir, mas de antemão, para não causar equívoco, eu mesma prefiro te dizer. Aqui neste instante incerto, dessas palavras que não saem nunca, apesar de estarem todo o tempo saltitando entre minha língua e o céu da boca, tudo o que tenho a dizer é que não posso te prometer muito... Na verdade nada posso... Ultimamente tenho podido menos ainda... Já não consigo conciliar meus pensamentos e eu que por muito tempo achei saber andar em corda bamba, descobri que a vida toda estive foi presa ao chão de maneira muito firme... Depois de alguns anos arrastados, enfim, consegui ver o que me diziam e eu nunca fiz questão de ouvir. Esses pés malditos fincados ao chão... Mas por que? Não foi assim que eu imaginei, meus sonhos vão tão mais alto, mais longe...Me perco. Agora nesse exato momento estou me perdendo. o que eu ia dizendo, o que eu ia dizendo... Era que... Era pra você... Isso! Não espere muito de mim... Não estou querendo dizer que eu não sou muito ou que não quero você criando expectativas sobre mim... Isso também, mas antes; preciso te contar que eu não sei ser desse jeito...
Assim como eu sou, que eu venho sendo, que dizem que eu sou e que me confunde tanto...
Só entenda...
Primeiro vem os movimentos dos meus olhos, meu bem... E como eles não precisam piscar quando está tudo bem, aquilo que brilha dentro deles, não se sabe daonde, não se sabe de quem... Eles precisam daquilo...
Depois vem as minhas mãos... Elas inquietas, reflexo do meu corpo histérico reprimido e inquieto; elas impacientes; elas tirando e colocando o anel sem parar; elas geladas; elas suando; elas em meus cabelos (arrumados?); elas em meu colo...
Minhas pernas, querido... Você nunca vai perceber e talvez essa seja uma das únicas vezes em que eu irei agradecer por você ser tão desatento... Minhas pernas bambas...
E de novo meus olhos, porque agora não só a luz, não só o piscar, mas o que vem interpretado por eles de lá de tão fundo que já nem se sabe. Quando eles soletram todas as letras para você e você não entende, meus olhos que falam pelas pupilas, olhos que dilatam e contraem meu pavor, meu medo e essa coisa intrusa, essa confusão, esse alvoroço que é fechar os olhos e não ver mais, vendo absolutamente tudo...
Não espere muito de mim, querido, eu já não correspondo às minhas, às suas ou às expectativas deles... Porque primeiro vem o que eu não sei, o que me faz respirar pausadamente pelo menos uma vez por dia e me faz perder o ar sempre que me lembro...
Se você conseguir, só se provar que consegue me explicar o turbilhão, se aguentar esse peso leve e insuportável... Assim, tudo bem, eu deixo você ficar... Mas não sei até quando.

Ele não disse uma palavra. Continuou atônito, sentado no sofá, os cotovelos apoiados nas pernas, olhos fixos na direção dela. O olho esquerdo se afogava, o direito tinha deixado uma gota cair. Passaram-se exatamente 13 segundos. Um suspiro lento e fundo. Levantou vagarosamente, pegou as chaves em cima da mesa de vidro e, sem uma palavra, bateu aporta.

dimanche 6 novembre 2005

Swing on a tree

Balanço de corda e madeira, velho e preciso, preso na mangueira que fica na frente da casa, a árvore que viu três gerações da família passarem.

Hoje de manhã, manhã de domingo, o balanço acordou cedo. A mocinha, usualmente de saias, pulou da cama antes das 7, saiu correndo nas pontas dos pés, pelos corredores da casa; a fralda pesando e só a fralda. Agarrou a maçaneta tão alta- que quase não lhe chegava!- , o coração palpitando a todo vapor pelo proibido; e finalmente a porta aberta deixava ver, lá no jardim, o balanço sozinho e inerte, esperando a mocinha de fraldas. Quatro metros até lá, perninhas pequenas e ágeis da garotinha...

Neste domingo, além do sol, as pessoas daquela rua acordaram também com gargalhadas gostosas de uma mocinha de fraldas que fazia o velho balanço de cordas e madeira voltar a viver. Alto e baixo, alto e baixo... A manguerira esse domingo teve outra história para contar e suas folhas vibravam com o prazer de ouvir o tom alto daquelas gargalhadas inocentes...