lundi 15 juin 2009

Conversando com Caetano

Perdeu, jogou de lado, agora é que não deu.
Ameaçou, arriscou arremessar pra fora da janela.
Não viu, não assumiu, não permitiu, não consentiu.
Deixou passar, ficar pra trás, perder valor, não mais amar.

Atropelou, mastigou, engoliu, perdeu de vista o vulto.
De cima assistiu seguir a cena sem nem mais um susto.
Andou, parou, suspirou, fumou e nem um segundo passou.

Voltou ainda sem saber o que estava a fazer.
Dormiu, acordou, hesitou, respirou, deixou o telefone tocar.
De curiosidade morreu sem procurar saber o que ela dizia.
Não preferiu, não expeliu, não conferiu, não quis promessa.

Quis sem querer, fez sem fazer, disse sem dizer.
Esqueceu o que faltava na soma, o que completava o jogo,
o que valia a pena apostar.
Se arrependeu, olhou pra trás e já não estava lá.

samedi 13 juin 2009

Não é você, sou eu.

Esse desejo que não se segura nas próprias pernas,
um dia desse caio de banda sem você pra aparar a queda.

jeudi 4 juin 2009

Alfabeto.

Talvez minhas palavras saibam se soltar mais pelas letras do que pelos sons,
Falo melhor quando escrevo,
Engasgo menos, destrincho mais.

Papel em branco é meu melhor e mais velho amigo,
a ele faço confidências que às vezes nem eu conheço...

Adeus voz, serei agora só letra.

lundi 1 juin 2009

Do deixar de Ser.

Anteontem vinha andando na rua, atravessou com pressa, o carro buzinou alto chamando sua atenção e a de todos, ontem ainda contabilizava todas as contas que deveriam ser pagas nos próximos dias e as que iriam ficar penduradas por mais um mês. Em um instante de calor, comprou uma água na barraca e comentou da instabilidade do clima. Voltou à rua com seus pensamentos que não sossegavam com tantos afazeres a resolver.

Ontem levantou com os olhos pesados pensando que as 7 horas que tinha dormido passaram tão ligeiro quanto os 30 minutos de casa para o trabalho; ligou para a namorada, comentou sobre fatos corriqueiros de seu dia cheio e desligou esquecendo de dizer que a amava. Correu para a sala, mas antes, encheu um copo d'água na tentativa de se lembrar dos 2 litros diários que o médico mandou beber. Sentou e pensou que com tanta coisa na lista, tinha vontade apenas de tomar uma cerveja.

Na semana anterior tinha sido aniversário de sua irmã, a família toda reunida e, entre a sobremesa e o suco, as perguntas frequentes sobre os rumos da vida. Pretendia se mudar em pouco tempo, arrumar um lugar com a namorada e começar uma vida a sós. Contava do curso recém iniciado e da importância de as pessoas refletirem sobre a questão das cotas para negros como uma necessidade no país em que vivemos.

Tinha uma vida saudável, fora as aventuras dos finais de semana. Comia carne vermelha moderadamente, não exagerava no açúcar, nem na gordura, praticava exercícios físicos com regularidade, sempre que podia caminhava pela praça perto de sua casa, não fumava, a não ser alguns cigarros de maconha nos fins de semana, mas nada que mudasse sua rotina. Era viciado apenas em vídeo game, motivo de brigas eternas com a namorada que insistia em concorrer com seu vício.

Naquele ano, completaria 26 anos e já começava a pensar no que faria no dia, já que todos os amigos iam cobrar algo, então era melhor que pensasse logo, do que esperar alguma surpresa desagradável. Gostava de reunir as pessoas queridas, era sempre engajado nos programas com o grupo de amigos da infância, inclusive, tinham um dia certo de jogar futebol, geralmente nas quinta-feiras à noite.

Ontem não tinha nada de especial marcado em sua agenda, só mais um dia comum. Provavelmente no fim do dia, iria se encontrar com a namorada, talvez um filme ou comer alguma coisa, não sabiam ainda.

Hoje deixou seu quarto com as coisas que tocara alguns minutos atrás, deixou os textos que havia encomendado na xerox, a conversa que deixou pra depois, os sapatos que já tem a forma de seu pé, as camisas que ficaram com seu cheiro depois que usou... e ao meio dia ele não existia mais. Sua vida havia desaparecido junto com todos os planos. Na mesa do café da manhã ficou o suco deixado pela metade. Hoje, nas ruas em que ele passava, na cadeira onde sentava, no telefone onde falava, no coração de quem ele amava, nas roupas que ele usava, no ventre de quem o colocara no mundo, havia só uma ausência e dali em diante, ela nunca mais seria desfeita.