samedi 18 avril 2009

Clarão. Ou: sobre os espaços vazios.

Quando o dia acordou branco e frio, pensou que algo havia mudado. Alguma coisa se deslocara dentro de si, mesmo que alguns centímetros apenas. Tudo fazia diferença agora. Era hora de se desfazer das velhas fantasias, fechar na mala antiga e guardar no fundo do armário, nada acontecera no real, mas aquelas imagens a despertaram um pesar de mudança.
Aquele mesmo sentimento de empacotar todas as coisas que são suas, reduzi-las a espaços de caixas quadradas, deixar que elas desocupem um outro espaço que não é mais seu. As fantasias eram as únicas que iriam para o armário e lá ficariam sem dono, até que um dia fossem descobertas por outra pessoa e construíssem então um sentido que não tinham outrora.
Assim, os próximos passos na manhã branca iriam tomando forma, todos os objetos em que seu olhar tocava iam vagarosamente desaparecendo de seus lugares postos antes, agora se encaixavam apertados no papelão. Da penteadeira sairiam todos os seus enfeites, as pérolas de que tanto gostava, os pingentes que traziam lembranças de outros anos. Os papéis antigos, já sem utilidade, mas que diziam tanto de quem ela era.
Da escrivaninha desapareciam os livros, um a um, aqueles nunca tocados, os outros deixados pela metade, interrompidos antes que o fim chegasse e aqueles preciosos, que guardavam minúcias de sentimentos compartilhados e às vezes descobertas insubstituíveis. Do guarda-roupa, sumiam pouco a pouco seus dias de branco, seus dias de chuva, os cheiros que ficavam presos, as marcas deixadas, sorrisos, ensaios, presenças...
Na sala tudo já havia sido levado, os sofás vazios, a televisão que falava para ninguém, a poltrona que abraçava nos dias mais longos, os retratos que faziam dali um lugar que não poderia ser outro. Nada mais restara... apenas no canto da sala a luminária que ganhou de presente e nunca encontrou um lugar perfeito para encaixá-la. Podia ouvir o eco de sua voz na sala vazia, seus passos ganhavam uma imensidão que a fazia implodir um pouco mais a cada pisada.
Tudo ali fora um dia e se desfazia aos poucos com a partida. Só as fantasias ficariam ali, guardadas, intocadas por ela, nunca alcançadas, nunca vividas, já manchadas pelo tempo. O dia branco clareava ainda mais o pesar de dentro, uma vida engolida sem mastigar. Estava tudo esperando por ela para ser posto para fora, todos os seus pertences, tudo que só dizia respeito a ela, ainda que ela não dissesse respeito a tudo.
Frente ao vazio, ao eco de sua voz desprendida, já pronta para partir, desaba no chão perto da porta, se desmancha ali mesmo, com as últimas caixas a serem levadas, não consegue se despregar de toda aquela ausência, seus olhos desobedecem, teimam; logo eles que são tão obedientes em multidões, agora não respondem ao seu comando, são o próprio desencontro. Fica ali por horas, mirando o céu que desponta da janela, um clarão que a denuncia, não sabe o que fazer com toda a luz, não consegue enxergar na claridade...
O dia terá que nascer branco por mais algum tempo até que além de todas as coisas, seu coração se desloque, mais do que poucos centímetros, que mude inteiro de lugar, que sopre o lugar antigo e depois de tirar todos os vestígios encha-o de pétalas soltas, conseguindo preencher tudo ali, pressionando-as bem para que tomem todo o buraco, e que saia dali aquela ausência.

mercredi 15 avril 2009

- Se você fosse um alface seria verde e faria bem à saúde.