jeudi 13 octobre 2011

Entre

Entre nós dois,
entre a cama e a mesa,
entre o vermelho do chão e o branco do teto ,
entre a varanda e o banheiro,
entre a prateleira e a geladeira,

Entre o ponto de ônibus e o restaurante,
entre a ópera e a residência,
entre a escada e a casa.
Entre.

Da falta que o silêncio faz.

Quando estou só, ouço meu estômago, meus intestinos e meus pensamentos.

Ampulheta

No canto da janela, encorada entre a quina e o vidro, estava ela.
Pacientemente passando, areia azul, caindo no vazio, até encher-se de si, e acabar de um lado só.
O sol trincava seu vidro todos os dias ao meio-dia, se estendia comprido até as duas da tarde, quando já deixava quente os tacos da casa.
Vez ou outra, eu me sentava à beira da janela, acendia um cigarro, e o tempo em que passava ali era o que bastava pra ela. Se afunilava toda para um lado só, na velocidade que corriam minhas dúvidas, minhas certezas, minhas incertezas.
Outros dias, quando passava com pressa por ali, a via à espera de alguém que a virasse e que lhe renovasse a vida, eram nesses momentos que eu lembrava que ela existia e que ainda que não a virasse, guardava o tempo.
Foi quando, em dia de vento forte, a cortina brava, pela força de fora, bateu-lhe com força e bastou um segundo, talvez menos...
Areia azul espalhada pelo chão. Entre os intervalos do piso, grãos perdidos. o vidro despedaçado, a lembrança de tudo o que passou.
O tempo desfez-se na queda, da janela até o chão, perdidos por todo o espaço, os mínimos grãos irrecuperáveis do infinito.
O mesmo vento não volta, o tempo não se recupera.
Tudo agora é grão em chão de madeira...