samedi 19 septembre 2009

Tropical úmido

Abre a boca me engole cinza,
as vezes olho seu céu e de tão azul me cega,
Seus ruídos às duas da tarde me enchem de um enjôo preguiçoso.
Pelas ruas, os restos de momentos, pedaços de cenas que passaram,
Monto romances com estranhos, invento histórias cheias de sentido.

Sua umidade me derrete nos 30 graus,
sua quentura leva consigo um ar arrastado,
como se tudo aqui demorasse mais,
desse mais trabalho.

Há também o valor inestimável das pequenas grandes vidas que nos atravessam,
entre os 15 km percorridos:
brigas em telefones móveis,
cuidado de quem se ama,
carinho na pressa,
cansaço na sacola,
atraso no relógio,
sorriso no terço,
me toca o braço e agradece,
rima na venda,
moeda no bolso,
tem alguém aqui?
descubro um novo nome em cada vale-transporte.

O chão é incerto e turvo, exala o coração das gentes que caminham sobre eles,
vou só, tão cercada pelos meus nessa terra. Que não é sozinha inteira, mas que alcança vida ainda que inanimada.

Essa cor escura, esses braços fortes, de gente que fez toda essa bolha ser assim.
Enfurecida e muda, onde a mão que pede toca o perfume francês,
onde o idioma mole e torto trisca na metidez das palavras desnecessárias,
onde a sujeira dança com o mar,
onde o gris toca o anil e as cores fazem caminhos infinitos.

É esse o chão que ferve sob meus pés,
que me pergunta todos os dias quem sou eu,
que me queima a pele e aquece o corpo,
que me expulsa e puxa de volta em conforto, dizendo:
você pertence a mim.

O que não sei dizer.

Essas palavras que faltam,
fazem cócegas em minha língua,
escorregam pela güela,
sinto seu cheiro suave ao nariz.

Vou ao seu alcance e me escapolem
arredias,
não posso tocá-las, não sei suas sílabas,
Existem discretas fazendo borboletas em mim,
Batem asas em meu coração e estômago,
Meus olhos tropeçam, bambos
em busca de sua pronúncia,
Atônitos, calam, esperam que você possa ouvi-las,
sem precisar de uma intérprete.

Estão além de mim,
existindo onde não sou,
aumentando o fluxo sangüíneo,
Deixando tudo no quase dito,
Me fazendo salivar e engolir o verbo,
que não suporta o peso dessa tal vida.

jeudi 17 septembre 2009

Olhos grandes e cílios espessos

Vem depressa com o corpo,
encosta no meu dorso,
que de olhos fechados,
sabemos, não há passado.

Chega de manso,
leva embora o banzo,
vira o avesso,
faz nascer um começo.

Soluça meu engano,
pra desencadear encanto.
Descobre com o olhar
meu esconderijo,
E aceita esse respirar cansado como abrigo

Se for no agora,
pode não ser inteiro,
mas é só esperar a hora,
que ganhamos peso.

Tipo de coisa que se solta devagar
que nem vento no fim do dia,
quando se engancha nos cabelos
e arrepia a espinha.

dimanche 13 septembre 2009

Para repetir até virar verdade.

A vida é bela,
A vida é boa,
O amor existe.

Do encontro

Quando abriu a porta, sob a chuva grossa que caía naquela tarde de setembro, estava ela, encharcada, segurando uma caixa em uma mão e uma frase já borrada pela água, na outra. Ele, coração de gelo que é, começou a derreter vagarosamente sob a chuva forte e com ele, as lágrimas dela que, quentes e salgadas, se misturavam à água doce e fria que caía.

Tinham uma vida inteira a ser costurada.

Reticências

Seu coração era um vulcão vivo que de épocas em épocas, enfurecido, lançava uma larva fervente e vermelha que se espalhava com tamanha intensidade que não deixava nada como antes por onde passava. Por vezes, as proporções que a erupção tomava eram mais desastrosas do que esperava e tinha, ela mesma, que pagar pela fúria de seu coração, reconstruindo vagarosamente o que ele havia destruído e quando não era possível, o jeito era lidar com o vazio que restava.
Nesses dias de deserto pós erupção, as horas caminham lentas e mudas e os passos no chão fazem ecos ensurdecedores aos ouvidos. Agora eram apenas dois pés e duas mãos e mais nada ao redor. Havia ficado só no mundo. Dentre os milhares de planos de reconstrução de seu universo particular, pensara em tirar algumas pessoas da cidade, em escrever cartas anônimas, em descobrir a forma de fazer o tempo correr ao contrário, ou de apagar más memórias, talvez desenhar algo no muro frente a casa dele, pintar o asfalto, talvez um carro de som, ou uma banda inteira tocando ao vivo em sua janela, algo que o fizesse acordar do sono profundo, da dor que cega, da raiva que amarga a saliva. Ela queria qualquer coisa de impalpável que fizesse o rumo das coisas mudar.
Como se as lembranças dele estivessem em cada esquina do que conhecia, em todo objeto que tocava, toda música que ouvia. Tudo a partir de então tinha seu nome e seu coração batia no compasso do samba dele. Não era possível acreditar que tudo aquilo virara cinza, era cruel conceber que aquele era o fim, não podia ser. Lhe disseram um dia, com toda sinceridade, que o Amor era um algo recíproco, e se dela saíam tantos raios incandescentes dessa tal coisa em direção a ele, é porque algo de lá pra cá, mesmo que machucado e escondido nos escombros, havia e era tão forte quanto o que ela sentia; e era apenas essa crença que lhe mantinha viva.

jeudi 10 septembre 2009

Medida

Do tamanho de formiga,
de inseto,
de fungo,
de vírus,
de bactéria,
de célula,
de gameta,
de tudo o que não se vê a olho nu.
Do tamanho que ficou.

jeudi 3 septembre 2009

Do verbo desaparecer

De desintegrar,
sair da vista ou da presença.
Ocultar-se.
Sumir-se;
levar descaminho.
Apagar-se,
ofuscar-se.
Caminhar sem rumo,
invisível aos olhos,
despida de volume,
avessar,
atravessar a parede do mundo,
sumir dentro de si,
introjetar o coração no nada ,
ser engolida pelo buraco negro,
morar em marte,
tomar o chá do sumiço,
comer biscoito de vento e com ele varrer a si,
cometer autofagia,
desmaterializar-se,
desencantar-se,
...

mercredi 2 septembre 2009

Prece

Sopra forte pra ver curar,
perdoa os mal feitos e diz que vai passar,
no três, quando eu contar e abrir os olhos,
vai tudo mudar.

Que o vento é companheiro e leva embora a maldade,
que a chuva que não passa sabe da minha saudade,
que se ninguém ouvir, aqui calada, saberei sozinha da minha vontade,
desse aperto grande, desse corpo pela metade.

Me livra desse pesar e faz voltar o tempo, pra com ele eu despertar,
lembrar na hora certa de quem tenho que cuidar,
e não cair às pressas em qualquer lugar,
sem perceber que pelo efêmero e vazio se perde o rumo, o caminho.

Me faz dormir em silêncio onde as árvores cantam macias durante a tarde,
Traz de volta o riso, o abraço apertado, as mãos, o peito e todo o resto que me falta.

Amém.