mardi 26 mars 2013

A cidade é maravilhosa
A cidade era maravilhosa
A cidade é monstruosa
A cidade é.

Virou pó


É preciso cuidar,
se há mar,
é preciso.
Hoje, varrendo o chão,
só a poeira e o que sobrou da noite de ontem.
Um animal morto,
Alguns copos sujos,
A velha sabedoria:
somos sós no mundo.
Todo o resto a gente inventa.
Não há amor.
Não há mais nada.


mercredi 13 mars 2013

Tanto em-si-mesm-ou-se que virou pedra. Aquela, no meio do caminho.

lundi 11 mars 2013

Eu não vou mais
Me perder não vou,
Vou mais,
Não vou me perder
mais


samedi 9 mars 2013

É dia novo,
amanheceu luz branca amarelada na janela.
Aqui sempre é calor, 
mesmo escuro é calor.

Virou-se o dia 
tudo continua tranquilamente
revirado.
As frutas tem  gosto de sempre, 
já enjoados,
café muito doce 
ou muito amargo.

Há praia... 
preguiça
Há saúde...
então há vida.

Mas o que há que não há? 

Amanheceu de novo,
E esqueci  os meus sonhos.



vendredi 1 mars 2013

Amor d'água.

 Não é possível que  seja de algo outro que não a água... Se seu elemento é fogo, os sentidos do mundo estão realmente invertidos.

Vez ou outra, ele evapora, se dissipa em pensamentos, vai para longe, deixa de si só a invisível presença no ar. Para então, depois de algum tempo, condensar-se, desaguando água doce, sobre a terra e sobre a  Baia de Todos os Santos.

Dessa sua descida leve, dois caminhos se sucedem: Sobre a terra, é sobre mim que deságua. Terra, esta sou eu, esse é meu elemento. Cá estou, com os pés secos, rachados, às vezes do calor, a vida quase se esvaindo, balançada pelo vento, o chão tudo sugando, esmorecendo  sumindo, sumindo... Quando então, chuá! Ele vem doce, sobre mim, irriga-me toda, dos pés à cabeça, refresca, acalma, levanta toda a vida em mim. Deixa minhas raízes mais fortes, minhas extremidades vistosas, bonitas. Ele, quando é água doce sobre a terra, me faz florir, afasta os bichos, deixa-me inteira, mais forte, para continuar firme nesse destino que é ser terra.
Seu outro caminho é quando se derrama sobre a Baía de Todos os Santos. Faz-se então mais poderoso, imenso, é como se do mar viesse e para lá voltasse. Sei, que ainda em vapor, é para lá que ele vai. Sei por seus olhos distraídos, que se acham, ao se perderem por tantas horas na Baía. Sei também por suas lentes, que registram água, água, cor de água. Pelo que pinta, sei. Sei por Iemanjá, que guarda nosso sono quando ele me cobre nas noites férteis. É para a Baía, para o mar da Bahia que ele sempre vai.

Assim, quando se precipita sobre a Baia, sua água doce se joga inteira sobre o verde escuro misterioso desse mar. Levanta a areia do chão, mistura-se inteiro ao sal de Iemanjá, recobre-se de sua proteção, ela o o protege, enfeita, o beija inteiro, faz dele seu filho homem; ele lhe cobre de mimos, diz palavras de adoração e respeito, exalta sua presença maternal e de mulher.

Sua água doce, é então toda salobra e de salobra, toda salgada, poderosa, inteira. Quando ele está nessa forma, em mar, é quando se crê imenso. Não só se crê, mas o é. É forte, pode derrubar árvores centenárias, promover inundações, fazer desaparecer cidades inteiras... Pode também abrigar vida. É em sua forma de mar que ele é protetor de toda a vida que tem dentro de si, encobre toda ela,  todas as suas espécies e os guarda num silêncio profundo, onde os sons que pouco se escutam são os graves que ecoam lá de longe, de fora de si.

Mas não pode permanecer para sempre mar. O ritmo do mundo calca ciclos e a vida nunca os paralisa, não se permanece um algo só por muito tempo...

Aqui, na terra onde vive, o sol é forte, incide quase que perpendicularmente sobre toda a superfície, dá-se pois a impossibilidade de ser água fria, empedrada, sólida congelada. O que se prossegue é que, a partir das águas salgadas, assim como da terra onde ele tudo banhou, o sol o esquenta, tinindo, amarelo, forte, tanto, tanto, que de água líquida daqui e dali ele vai se transformando, pouco a pouco recuperando sua forma inicial de gente. Gente: esse contorno que ele tem pouco antes de evaporar outra vez e se desaguar, começando sua jornada de água novamente.

Acredito que pode estar aí o equívoco de alguns, ao lhe acreditarem fogo. É fato que sem a tal bola de fogo ele não poderia recomeçar e dar prosseguimento ao seu ciclo infinito de água, mas não se pode confundir sua essência nesses caminhos. Seu elemento não pode ser o fogo, senão, ele não desaguaria tão doce, delicadamente sobre mim, senão, seus olhos não seriam mareados, levados, vapor d'água.  Se fosse fogo, sua casa não seria o mar, Iemanjá não seria sua Iyá, não seria então para lá que ele sempre voltaria.

Hoje eu vi - com esses olhos marrons, com os pés escorregando, tentando encontrar equilíbrio entre as pedras - como ele é de água. O vi, em formato de homem, ter os pés cobertos pela água, catar sob ela, pedrinhas cor d'água e se encantar com as cores. O vi se dissipando em estacas de madeira, juntando-as com cuidado milimétrico, para voltar ao mar, para ainda em seu formato de gente, encorpado pelo sol, repousar sobre as águas que são também ele, procurando o silêncio que só encontra naquelas águas... para onde depois irá ainda voltar. O vi hoje, construir, com empenho que só o amor permite, aquilo que o levará para perto do que é sua essência e naqueles instantes, tive certeza. Meu amor é água. Doce, salgada, delicada, intensa,forte, imensa, mar....