vendredi 7 novembre 2008

Abraço

Hoje, no caminho esturricado de sol e barulho, tinha um abraço caminhando em minha direção na rua. Seu silêncio e presença eram tão grandes que o mundo calou.

mercredi 24 septembre 2008

Do Berro e do Surdo.

No fim da tarde o mundo começa a virar ao avesso e colocar de ponta-cabeça o que ficava equilibrado na claridade, surgem milhares de movimentos disfarçados, escondidos, despercebidos.
É quando o sol se vai e a mão que durante o dia fez gargalhadas e ditou o pulsar grave de um surdo, conduzindo corpos suados que dançavam felizes, contentes de sua miséria ter alívio, ignorando a sujeira em que caminham todos os dias... essa mão que ainda agora embalava risadas, desvanece com o dia, vai-se embora com o sol e o surdo dá lugar algo mais imperativo, mais grave, mais surdo, de calibre 38 ou 36, ou de calibre nenhum.
A mão que durante o dia embalava corpos suados esquiva-se agora entre esquinas em breu e abandonadas e os corpos ainda são ritmados por ela, um outro andamento agora, novo compasso.
Entre passos corridos e vidros fechados, em batimentos fortes de coração, na sensação de perigo constante.
A contradição se encontra em toda esquina, onde o belo e o miserável se confrontam, se encaram, olham firme nos olhos, se sabem de perto, se conhecem há tempos, respiram fundo e engolem seco pra continuarem convivendo, até o dia em que um vai terminar com o outro e parecem saber que esse dia virá.
A mão é cisco pouco numa vastidão de poeira que a cerca, mas é ainda no singular que se faz. Quando um vivo, encontra o outro , a voz calada, um grito seco que sai do estômago e invade o outro. Invade porque antes foi invadido, porque o samba foi ouvido pelos poucos que estavam no navio, pelos mesmos que comiam papel se não houvesse resto de comida. ´
Entre o samba e a solidão, as ruas escuras e o abandono, a história guardada em uma caixa fechada a 7 chaves e o medo de ser percebido diferente.Às vezes se perguntando: quem é surdo? De onde pode vir o berro para que possa ser ouvido? Quem houve o berro e quem é o surdo? Quando não tem mais respostas razoáveis pra se pensar os motivos, pra explicar o macro, quando no pequeno a única razão é mesmo virar ao contrário, porque desse lado não há mais jeito.
É quando a mão aponta para cabeças, ameaçando parar para sempre algumas músicas, desacelerar alguns sambas, desritmar alguns corpos e às vezes o faz, às vezes não, e nessa rotina caminha uma mão de via dupla: entre um surdo que encanta e um berro que emudece.

Faz-se então Reflexividade

Solto o verbo em língua e faço sentido sendo.
Assim, enquanto costuro com palavras você e eu, faço nós e eles, de lá, fazem sós, e em momentos a vida vai se colocando em cadência.

No descompromisso desavisado de um dia passando o outro, tecendo redes e ligando pontos; desde minha primeira sílaba até o calar no silêncio, o mundo particular compartilhado vai crescendo.

O silêncio vai então dizer ao outro o que há de novo ou se mantém antigo nesse olhar mudo. Porque se falo não preciso só de palavras, essas são frutas passadas do ponto em lugares em que pele, olho e calor fazem mais sentido.

Ainda assim, sendo assim, nesse espaço perdido entre os verbos, nos encontramos. Nos olhares que se compreendem, nos corpos que se escutam à distância, em todo não dito, entredito.

Vou-me só tão acompanhada costurando sentido no vão, do nó ao inteiro, desde verbo até silêncio, a vida acontecendo no entre de nós.

(E quando se dá o encontro do sim com o não, o acordo tácito se faz sem convencimento, persuasão. Baixa um olhar, sobe outro. Depois o inverso, a troca e o corpo que segue. A cadência rápida, lenta... sem explícito, só o sutil.)

mercredi 20 août 2008

Vida de contorcionista

Ela vai se contorcendo como pode,
se enroscando em volta de si mesma
achando os dedos dos pés envoltos pela cabeça,
a barriga no chão
e o bumbum no cabelo.
.
.

Ela vai se embaraçando com pode,
procurando o grito que perdeu de dentro pra fora,
quando tentava se desenroscar.
.
.

Vai tropeçando sem poder fincar os pés
de tanto embaraço,
deslocando os dedos para o céu,
quando deveriam se equilibrar no chão.
.
.

As bochechas rosas,
a falta de fôlego,
a contra-mão de si.
.
.

E mesmo quando ela tenta descontorcer,
ou torcer só,
sem o con,
ou sem o cer,
as sílabas nào se despregam...
.
.

é assim contorcionismo,
contorcendo,
cercontor,
torconcendo que não tem fim,
e nem tem pra onde sair o grito.

dimanche 22 juin 2008

As ruas daqui são de pedras, os muros baixos, as casas abertas, o dia começa e termina cantando a mesma música. O vento mais frio que o de lá, dá um cheiro bom pro ar e é possível ouvir melhor os passarinhos daqui. Os pés quando tocam nesse chão sentem o frio subir até a espinha e um gosto na boca de infância.

A velha casa, os velhos cômodos, os móveis, a multidão que chega e sai a todo momento e o mesmo suspiro ao entrar, só para conferir se tudo continua o mesmo. E está tudo sempre lá.

Houve também épocas de mudança, dias de coelhos da páscoa, de pastilha de laranja na farmácia, de beijo de avô, de baleado ou vôlei no corredor. Houve dormir na casa da tia e sair correndo no dia seguinte, antes que alguém perguntasse qualquer coisa... havia timidez também.

Há tudo do mesmo e tudo tão diferente. Um coreto que era gigante, que era palco e esconderijo, hoje se esconde pequeno entre trepadeiras verdes. Antes tinha o misto de Seu Joaquim no trailer no meio da praça... onde será que anda Seu Joaquim, será que anda?

Tinha bicicleta, tinha esconde-esconde e pega-pega. Tinha gente pequena, menor ainda e tinha sorvete na praça de lá.

Tem coisas que não mudam e continuam desconcerto, desapego, desapreço, desabafo, desconsolo, desencaixe, despalavra, desaconchego, desaprendido coração. Mas do outro lado há tudo o contrário e abraço apertado, a lembrança que vai sempre estar, o pode contar, o não vai esquecer, a jabuticaba no pé, tanjerina de verdade, o quentão, o bolo de milho, o chimango quentinho, o avoador mais gostoso,as cores do chão quando bate o sol no fim da tarde, a cerveja de todo dia e as conversas de todo dia e as perguntas de todo dia e as não respostas de todo o dia.

Antes era um coisa e hoje é outra tão diferente-igual, que assusta e alivia. Esses encontros desencontros de não lembro, nem conheço e te vi tão pequena. Não vi, não lembro, mas agora sei e comprimento e sou de bom dia e boa tarde e boa noite.

No natal tem reizado e pífano e fantasia, tem presente pras crianças, tem festa na praça e o papai-noel mais feio que já houve. Em São João tem licor, amendoim e casa dos outros, São João passou por aqui? Tem friozinho e fogueira e cheiro de fogueira queimando. E em todos esses tem solidão.

Na cozinha tem mãos de fada, de cantora e de atriz, mãos que fazem delícias e trabalham desde sempre. Mãos de falta, de história sofrida, de loucura, de sair andando daqui até Feira de Santana, de herança de escravidão, de coragem e simplicidade e de sabedoria maior que a de tantos.

Nos abraços quentes têm os mesmos traços, os mesmos dos rostos das mulheres da casa, as fisionomias conhecidas, as mãos parecidas, os sorrisos, o que tem dentro mais ainda.

A música é, as vezes estranha, mas a que é daqui mesmo é boa, é de dançar e tem sotaque, é sincera e só tem aqui, pra quem sabe tocar desse jeito e ouvir e dançar.

As ruas daqui são de pedra e os corações são quentes, as casas baixas, os chãos batidos, o vento tem outro cheiro, o pôr do sol é de outra cor, as estrelas são tantas que uma briga com a outra pra ver quem brilha mais no céu, os cachorros andam soltos e aparecem aos montes, as bocas não fecham e tem um ritmo engraçado de falar, os passarinhos cantam mais por aqui e os olhos enxergam de outro jeito.

lundi 12 mai 2008

Dias que chovem

Conntornos embassados, as cores oscilam e se misturam na água.
Será que o mundo é todo de aquarela e se dissolve aos poucos quando chove?
Será que gente é um pouco assim também e quando cai a água vira um pouco líquida?
Ou será que evapora um pouquinho pra ir junto à água pra terra?
Deve ser pra ficar menos forte o gosto de ser gente, pra diluir um tanto da existência,
da dor e da doçura de ser o que é.

Tudo fica distraído e desperso em dia de chuva,
o vento vem forte arrastando palavras soltas no ar
e formando com elas pensamentos vagos,
frases soltas e até um sentimento de água mesmo.

Acontece um algo esqusito com os corpos,
parece que ficam mais sedentos de cuidado,
deve ser medo de escorregar nas poças.
(...)

sussuros

Fechei os olhos e soprei,
segurei o ar comedidamente
e soltei aos poucos.

Derramaram-se assim
pensamentos encadeados em
fantasias impossíveis,
segredos guardados.
Falei alto para que me ouvisse,
e depois me olhasse
com a certeza do que se passava em mim.
Olhou-me firme
e naquele instante
virei pó.

dimanche 11 mai 2008

O que é o vão.

Entre eles o abismo. Um de um lado do despenhadeiro, o outro do outro, mantêm-se olhando fixo nos olhos sem conseguirem abraçar-se sem conseguirem tocar-se e desmontar o que há ali, atrás do olhar.
Ele antes: de longe, o homem forte, grande, mais velho, mais bonito, a sedução, o encanto, a fortaleza. O mestre, onde as lições vão se dar e o mundo vai se mostrar mais inteiro, mais completo, mais dela. A beleza, o ideal, o onírico, o que brilha nos olhos que chega cegar, o lugar exato onde ela deveria estar, seus olhares intrusos, aquele verde lisérgico, todo ele, inflamando, inflamável, entrando nela, de longe, em ritmo suave e intensidade de furacão.
Ela (de lá) de outrora: mistério, sedução, tontura, o mundo inteiro a desvendar, doçura, sorriso que despertava gigantes, o corpo esquisito e lindo, ainda coberto, coeso. Meninice, juventude, ela a descoberta, a aprendiz que intimidava por ser curiosidade, por ser de outro lugar, por ter outros costumes. Ela, ela quem? Era só especulação, fazendo silêncio acontecer, o toque delicado, infantil e casto.
Os dois estáticos, um olhando fundo no outro e pensando o que poderia dar errado quando naquele momento tudo já havia sido inverso. A terra estremecera de tal forma que um imenso canyon havia se aberto entre os dois. Antes disso, a força que havia causado o abismo se sucedera:
Eram plenos de histórias, os dois, cada um à sua maneira, ele com os anos a mais, a voz tão grave e o peso que todo o mundo lhe causava, ela minúscula, página quase em branco, acabou carregando dele só o peso e não a palavra. Deu-se a incongruência. Ele não conseguia falar para ela, ele não conseguia ser diante dela, ela não conseguia se mostrar para ele, não sabia juntar frases, formar versos, nem fazer qualquer movimento que não fosse tenso.
Eram duas nozes de casca rígida, díficil de quebrar, uma esbarrando-se bruscamente contra a outra, sem nunca chegar a sentir o sabor do que havia dentro. Como duas borboletas, de lados opostos do vidro, cada uma tentando passar para o outro lado, sem notar que aquela superfície não permitiria. Estavam os dois, um frente ao outro, de corpo inteiro a ser tocado e não conseguiam.
Deu-se assim a implosão. Ele, um mundo para contar, que não conseguia articular em verbos, não podia, sentia-se impedido de lhe dizer, não sabia explicar o por quê, não conseguia. Ela observando à tudo, tentando, às vezes dizer algo, mas sempre com vergonha que estivesse errado.
Estando um frente ao outro, tentando desfazer o equívoco, de repente, o tremor se deu. E antes que pudessem começar a pronunciar qualquer palavra que fosse transformar vidro em vento ou casca rígida em pele macia, ou até o oposto, qualquer verbo que desfizesse o nó criado, que desinventasse a história que poderiam dar, que separasse N de Ó e de S, antes que pudessem dar um último abraço inseguro e concluir que a questão se dava em não ser, não saber, não conseguir um ser para o outro, antes que qualquer suspiro de letra maiúscula de parágrafo inicial pudesse ter acontecido, a terra tremeu.
Foi assistindo àquilo que partiram e nunca entenderam, nunca se olharam por dentro. A terra estremeceu-se de tal forma e criou um vão tão gigantesco separando os dois que, a partir dalí, qualquer tentativa de palavra seria em vã, um vão entre os dois, um vão escandaloso, e o barulho de terra se abrindo havia sido tão alto que se ensurdeceram um para o outro. Não podiam mais se ouvir, se olhavam a distância sem conseguir pronunciar uma sílaba, se olhavam com a força de quem quer despir o outro e não pode, se olharam como quem diz "me perdoa", e tentavam se equilibrar na incerteza, no estremecido, entre o pó de terra que subia e o desequilíbrio de dentro e fora.
Olharam-se até o tremor cessar e aconteceu enfim. Deu-se, então, silêncio e distância, encadeou-se serenidade, mas agora não podiam mais falar um com o outro, não podiam se tocar, não podiam nem insistir.
Suspiro fundo dela, suspiro curto dele. Ela levantou a mão esquerda, ele a direita, como que num espelho, acenaram-se em adeus, deram-se as costas e desde então nunca mais se enxergaram.

mercredi 30 avril 2008

Para não dizer que foi banal

(Rascunho)

Depois da conversa, um semi-monólogo, que não durara mais que 3 minutos, ela saiu andando em direção à sua casa; derramou duas ou três lágrimas só para sentir que não teria sido em vão, que não havia perdido seu tempo, só para constar algum cisco no coração.
Seguiu até a porta de sua casa, quando decidiu mudar de direção, continuou andando. um bar diferente0 talvez, pessoas com olhos diferentes, olhares mais ressaqueados, quem sabe. só não queria ficar com aquele gosto de sem sentido, de tempo perdido, de não sentido, nem sofrido. Não sabia o que poderia vir dalí em diante. Só esperava não repetir os mesmos passos, em calçadas já conhecidas.

dimanche 27 avril 2008

Foto de uma saudade

Encontrou a foto do dia na praia dentro de uma das caixas no guarda-roupa.
Ela sorrindo de perfil, gargalhando, melhor dizer, o fundo amarelo, alaranjado, o verde escuro do mar. Não se lembrava do que ria naquele momento, mas teve de volta, quando viu a foto, a sensação boa que havia tido no dia, que tinha em muitos dias quando estavam juntas.
A praia era aqui perto, seu sorriso é que não era tanto. Ele mexia em caldeirões de lava fervendo por dentro, acordava gigantes adormecidos, era espuma que vai embora quando a onda passa... Fazia o coração da outra desmanchar.
Naquele tempo eram novas, sabiam pouco das desventuras da vida, sabiam nada uma da outra, sabiam tanto e tanto era tão pouco naquela época. A foto devia ter sido num feriado desses em que viajavam para ver a vida acontecendo. Teciam poesia pelas madrugadas, riam embriagadas e dançavam bem perto as músicas que mais gostavam. O tempo era líquido, elas nem tanto, não como hoje, eram fluidas talvez , as peles quando se encostavam, arrepiadas, escorregavam...
Olhava a foto e sorria, sem gargalhar, sorria do estômago até os olhos. Tudo era rápido demais, o mundo vai rápido demais, não há contrato para algumas coisas. Lembrava tão bem de cenas já antigas, lembrava dela chegando com aquele jeito leve destrambelhado, chegando rindo linda e desmoronando do seu lado, cansada de dançar. Eram uma só, as duas. Beijo de nariz e risos frouxos, cantavam desafinadas todas as músicas que o Zé tocava, onde será que andava o Zé? Tinha ido embora junto com a multidão...
Lembrava de quando depois de rir e dançar e de tanto vinho, ela parava séria, olhava o mar... era nada e tudo, de repente, ficava quieta. Lembrava até o barulho da cena, o grave das ondas vindo e ficando agudo quando a maré forte puxava o que era seu de volta e ela olhando, muda. Dificilmente compartilhava o que passava por dentro nessas horas.
Nunca esquecera aqueles dias, as sensações, pelo menos. Era sua caixa fechada de saudade, não abria mão de mantê-las. Hoje, vive uma vida tranquila, tudo corrido e devidamente pago no final do mês. Algumas vontades ficaram para trás e algumas risadas inesquecíveis também, mas sempre é preciso arrumar o guarda-roupa e mexer em caixas guardadas.

mercredi 23 avril 2008

Sertão.

Ele senta na porta de casa todo dia que chega da lida, geralmente com o pôr do sol. Acende um fumo, pensa na vida. Nessa hora passa por dentro um sofrimento que não é sofrimento, é mais um alívio de ter acabado o dia. Não sofre não, agradece estar vivo.
Uma tragada e a tosse grossa saindo junto com a fumaça. Não tem mal tempo, acorda às 4:30 da manhã, inchada de um lado, facão do outro, tem que ter mãos fortes e grossas. Ele não estranha o trabalho. Não brinca em serviço, nasceu no mato e sabe diferenciar tranquilamente cascável de jubóia, mutuca de mosca de fruta.
Senta no batende de cimento e terra, calça encardida, mãos amarronzadas. Tem sertão em seu rosto, em cada marca nos braços. Tem a fome de todo seu povo, a sabedoria de existir sem se perguntar por quê.

Automático é preguiça e é verdade.

Invadiu meu travesseiro à noite, veio em figura, em vários, em silêncio em olho cheio e grande. Bonito e só, calado, me faz, sem rumo, não ser, não vai, não quer, não foi, deixou. Fiquei.
Enorme, de braços grandes e quentes, boca de fumo, cheiroso, entorpecente, mata e acorda.
Vinho? pode ser, mas onde? Me diz que sim, que não é aquilo que pensei, o que pensou?
Eu encarei, encarei até não poder mais ver, circundei, segui, fui atrás, encurralei, como se não fosse deixar passar, mas deixei, como deixei. Parou, me conhecia? Disse oi, por que não? Quem é? Não sei, e você? Também não sei. Parou, mentiu, olhou nos olhos, fingiu que não via, mas sabia que sim, era ela, era eu. Encarei sim. Fui até chegar perto, sentir respiração, sentir cheiro, sentir gosto, senti vontade.
Encontrei outra vez, algumas vezes, sem tia morta, com tia morta não fui, fiquei. E mudou tudo, virou sombra, fantasma, lembrete de geladeira encrustado para sempre em sonhos e dias de festa. Olhei dentro de novo naquele dia. Abraçou de verdade, é de Oxossi, ele tem ciúmes, Oxossi. Os dois Oxossi? E a combinação se dá onde? As guias estão no pescoço e no corpo. Quente, sujo e cheiro bom. Eu fui lá, olhei de novo, escrevi o que não devia, olhei de perto e de longe, fingi que não vi, morri por dentro, gritei só. É Oxossi, só pode ser filho de Oxossi. Brinca de dizer a verdade para mim, me diz algo, então. É bom falar por que? Tá sossegando por que? Onde eu não fui? Por que parei?Para arrepender?
Tenho agora, vez ou outra, sonho encardido, bom de acordar e respirar fundo. Guarda pra sempre escondido, não pode mais. Volta tempo?

mardi 1 avril 2008

Micro-mini-sintético-imenso

Depois de olhar por longos minutos pelo vidro da varanda que dava para o mar, decidiu, enfim, se desfazer daquele lugar.

Soneto àquele(a) que olha calado(a)

Me vigia do escuro
Existe no silêncio
Fica sempre perto
Para que possa sentir o cheiro
.
.
.
Mesmo impossível,
Até se invisível,
Contorna meus arredores,
Me sopra quente nos ouvidos.
.
.
.
Existe em segredo para mim
Me entorna com seus desejos,
Enche de gozo, o ego.

.

.
Sê sempre esse oculto falante,

Que encanta a fantasia,

Que se desvenda em poesia.

lundi 31 mars 2008

Em resposta ao não.

Porque te um multidão batendo pés fortes dentro de mim,
Porque tem um coração que bate por mil,
Porque tem olhos que escorregam brilho e lágrimas,
Porque tem mãos que não resistem ao outro,
Porque tem um corpo que se inquieta,
Porque tem uma voz, que ainda sem permissão ou ordem, não cessa,
Porque tem sangue quente disparado a léguas de distância, circulando em furacões por aqui,
Porque é a saída de emergência, as luzes vermelhas, os tambores graves, o batuque da terra e do coração,
Porque pulsa muito e o tempo todo, oscilando entre períodos de fúria e calmaria enganada,
Porque derramei sempre e continuo a fazê-lo,
Porque me desdobro em tempos que não são meus, espaços que não são meus, histórias que não são minhas,
Porque existo muito e, às vezes, tão pouco,
Porque sou irrisória e imensa e preciso explodir por alguns cantos para não ser engolida pela boca de mim,
Porque me encanta e desencanta e enche de vazio e me alimenta em cheiro, me embebeda em saudade, me desperta em arrepios, me ludibria em sonhos, me desfaz em pedaços, me amordaça em papéis, me despede em sorrisos, me inventa em histórias, me entrega em versos
e venda todo meu corpo em vontade.

mercredi 27 février 2008

Para os transeuntes interessados:





Em busca de agarrar pelos calcanhares uma idéia que a primeira vista não passava de mais uma elocubração distante em um dos caminhos da Chapada Diamantina, eu e mais 3 pessoas (linkadas ao lado), criamos um blog coletivo que está servindo atualmente como laboratório para o que em breve será um livro de papel (se tudo der certo). Estamos divulgando para que os interessados possam entrar em contato com essas linhas semi-anônimas, comentando, espalhando para seus conhecidos e divulgando a notícia.

Por isso, entrem sem bater e sejam muito bem-vindos ao blog

http://www.quatrocantosdemundo.blogspot.com/ . Podem tirar o sapato, respirar fundo e deixar qualquer impressão.

vendredi 22 février 2008

Partir

Para não partir
Romper em dois cantos
Dois pontos
Uma ponte de si

Deixando partidos os passos,
o coração e o resto.
Os dois, todos.
Daquela terra de argila
e calcário, levar na boca
a água salgada e o corpo quente.

Partir em partidas,
vir a ser outra vez,
de parto escolhido
de história nova,
de nova versão,
de outro lugar,
outras mãos.

Romper em vôo,
os laços fincados,
as proximidades,
o que se identifica
e o que sufoca.

Partir
espatifar
destroçar
ruir
arruinar
desencantar
para encantar de novo, do novo.

Ou
Nunca partir e só romper,
desiludir da sensação de novo do parto;
para iludir no velho novo,
os fatos que já são passados.


PS: Em que canto de mundo estou? E que diferença isso faz?

vendredi 8 février 2008

Anônimo(a)

Sentado na calçada,
roupa suja,
olhos embassados,
pés encardidos,
pouco cabelo,
barba crescida, desgrenhada,
lugar nenhum a frente,
um saco de vento grande,
a cidade maior ainda,
as ruas cheias,
o sol escaldando,
as mãos ásperas
e o coração apertado.

Do outro lado

Uma sala cheia de mesas,
muito café,
poucos sorrisos,
horas que correm desperadas,
outras que nunca passam,
tantos papéis,
poucas respostas,
a bela aparência,
lugar nenhum a frente,
uma pilha grande de compromissos,
a cidade que engole sem mastigar,
as ruas cheias,
o sol escaldando,
as mãos finas
e o coração apertado.

samedi 19 janvier 2008

Tudo e só

- Eu passaria horas sentada a sua frente, só de olhos, sem uma palavra a dizer.

- (Silêncio)

- Não sei explicar o porquê, talvez saiba, até, mas não em palavras. O desenvolvimento dessa nossa linguagem não cabe nisso que tenho aqui.

- (Olhos me olhando, cabeça encostada na perna, leve movimento, os olhos abaixam, esfregam-se no joelho mais alto e voltam a me fitar).

- De fato, eu mal te conheço e te sei tanto. É como se fosse alguma parte deslocada de mim em outro corpo, numa outra vida e eu paralisada, sem conseguir conjugar os motivos.

- (O rosto agora passava por minhas costas, debruçando-se como se pedisse para segurar seu peso sobre mim. O ombro direito vinha como meio abraço a chegar por minhas costelas, escorregando as mãos até meu ventre e perna esquerda. O outro ombro relaxado e o corpo virando-se para alcançar uma nova posição que ainda desconheço).

- Queria que você ouvisse, queria poder te fazer sentir e me dizer se há, de lá para cá, algo minimamente parecido. É muito estranho, porque às vezes, é como se fosse uma fantasia, alucinação... nunca troquei mais de 3 palavras com você, não conheço o tom de sua voz, nem seu cheiro, nem sei a textura de suas mãos...

- (Meu corpo agora sobre o dela, caminhando devagar e contido, e, ainda assim, todo derretido sobre seu dorso. Ela forte, me aguentando, em silêncio, uma comunicação essencialmente visceral com um envoltório de entrega calada, sutileza e suor.)

- Não sei quem você é, não sei o que te traz aqui, sei que temos muitos assuntos não ditos, muito a se resolver ou já resolvido e mal enterrado, o que me faz querer te olhar ainda mais. Eu passaria horas olhando seus olhos, sem precisar pronunciar uma palavra, até que tudo bastasse e nós duas pudéssemos levantar e sair.
Mas de repente, eles nos pediram que nos envolvêssemos desse jeito, e eu, ainda sem palavras, sou grata por me permitir sentir esse corpo quente se desdobrando sobre mim e também o reverso.

-(Nós duas em pé agora, olhos fechados, suas mãos em meu rosto, minhas mãos subindo de seu rosto até o cabelo, os passos se encostando, os seios se aproximando, seus pés em cima dos meus, suas mãos agarradas às minhas, sua cabeça sobre meu ombro esquerdo e a minha sobre seu ombro direito, a respiração ofegante correndo no mesmo ritmo e ainda, o silêncio).

mercredi 9 janvier 2008

Narrativas

Começo a sentir falta de narrativas. Fatos, passos, cruzamento de olhos e palavras. Tenho me perdido muito na imensidão de dentro, fluxo de consciência que paralisa o mundo de fora. Tenho reparado pouco em como as histórias de desfecham, em como elas se desenrolam, fico mais intrigada com o que deve estar passando por dentro deles naquelas horas de dias comuns.
Estava sentada, só na mesa. Em frente, a televisão passando o show de uma banda famosa. Ao meu lado, outra mesa: 4 cadeiras, apenas uma ocupada. O homem grande, um sanduiche congruente com seu tamanho, a voracidade com que comia. Ele gostava da banda, eu pensei. Sabia cantar as músicas, era sua companhia na hora do almoço.
Do outro lado, 3 amigos. Assuntos da vida. Mulheres, investimentos, quem era a mais atirada, como isso ainda assusta os homens. Falavam alto e tinham calor, de fato, fazia calor. Tinham muitos assuntos.
Em minha frente, uma moça jovem e sua filha, provavelmente. A pequena deveria ter uns 9 anos. Essa idade é difícil, mas ela estava tranquila, olhava para a mãe enquanto tomava o refrigerante e eu pensava: "ela nem sabe como a odeia". A mãe brincando com ela, olhando-a com propriedade, os assuntos eu não ouvia.
Por último, mais distante à minha direita, o último a chegar no cenário. Sozinho, óculos escuros, roupas escuras, andar e imposição de agressividade, de quem tem personalidade forte e de quem finge não se importar com o mundo ao redor ou se importa demais a ponto de mostrar-se indiferente para não sufocar-se.
Em pé, próxima a lixeira, a moça que via o cenário mudar durante o dia todo. Limpando a mesa após cada partida. Várias mesas, várias fomes, histórias, olhares, educações, desabafos em suspiro, solidão.
A banda continuava tocando.