dimanche 29 novembre 2009

Passarinho

Canário
Gavião
Lavadeira
Arãcuã
Periquito
Papagaio...

Mas Sabiá...
Ainda bem-te-vi passar
pra vir beija-flor,
aí foi bom cantar.

lundi 23 novembre 2009

De ser tão imenso

O marrom do barro, da poeira, das mãos antigas,
as vozes agudas,
o canto dos querubins,
os olhares mansos.
Os abraços sinceros,
as músicas que me dizem a identidade.

Guardar a cidade num cortejo,
balançar na quixabeira sonhos de menino,
Transformar cisal em casa e de mãos menores descobrir o segredo das cortinas,

Cantar a infância da avó, na meninice da criança agora,
silenciar e ver tanta vida valendo a pena,

Cirandar, apertar a mão, moldar a panela que os olhos não deixam terminar.
Sentar na terra, comer mamão, dormir na esteira, despertar com um sorriso de perna-de-pau.

Descobrir minhas histórias na vida do outro,
atentar que se é gente e que se sente tão parecido.

Brincar de elástico, aprender a brincar de elástico.

Ver roda gigante tão pequena, escutar o esfregar de uma peça na outra,
Ver o céu pretinho, cheio de pintinha, e o brilho delas tão forte guiando de lá.

A flor amarela, violeta e a rosa de quem eu ganhei o cheirar,
O suco de tamarindo mais doce que o de cajá,

A cachaça de louro e de côco, o museu nas paredes do bar,
A mãe que torce o nariz, e como é comum em qualquer lugar,

O sonho que não desiste, que segue em frente firme,
As bicicletas à mão, o esqueleto que quase fica lá.

O samba que não era samba, o ficos que ganhou nome,
a noite fria que é casada com o dia quente,
o silêncio da casa cheia na madrugada, a lenda que virou a alvorada...

Tudo isso guardadinho em seu lugar...
Nenhuma foto pra olhar,
nenhum áudio pra escutar,
e daqui em diante,
só fechando os olhos e pondo a mão no coração pra rememorar.

jeudi 19 novembre 2009

Sombra de saudade

Despertou primeiro os olhos, que abriram num susto. Em seguida seu corpo foi devagar acompanhando o movimento da manhã que já cantava alto lá fora. O caminhão de frutas, a voz média, o bate estaca, bate martelo, monóxido de carbono e todo o resto.

Dentro, onde estava, ainda era morno e calmo, com a janela de vidro guardando o barulho de fora, mas mais dentro ainda, acordava calma aquela sombra esquisita de saudade. Uma memória que vem no corpo e que se monta no espreguiçar; toques registrados nos poros, nos ouvidos, nos olhos e na boca. Um falta-alguma-coisa qualquer que se despoja junto ao travesseiro e amanhece juntinho, acompanhado de suspiro e de uma textura assim sépia.

Ouvia uma risada engraçada, sentia o amarelo mel, o esmagar, as músicas desafinadas, o cheiro de manga, a água de côco, o cheiro de sal, o ofegar simultâneo e a lágrima teimosa que caía quando o céu explodia. Sentia o cheiro, o cheiro da sombra.

A cama era de solteiro, mas de repente havia tanto espaço ali que caberia um outro corpo grande, que cobrisse mais do que coberta e que, melhor que essa, trouxesse junto, uma infinita canção de ninar num ritmo assim tum-tum, tum-tum, tum-tum e movimentos lentos escorregando por entre o cabelo que descansa leve sobre si.

A sombra amanhece clara com o raiar do dia, e quando o corpo vai se ocupando com as outras coisas do mundo, ela vai ficando mais escura, se agregando às outras, se disfarçando em xícaras de café, em papéis que não esperam, em engarrafamentos, em "por favor", "muito obrigada" e "até logo"; para quando tudo escurecer, ela ser transparente e se deitar novamente ao lado, e agora com o cansaço que se esforça em não vê-la.
E no dia seguinte tudo começa outra vez.

Du temps

Pour quoi ça?
Et le vent que va
Me fait lembrar
Du temps quand
Tout était en parfait état

Sur le chaud de ce sable
Mes pieds se brûlent
dans le mirage

D’une vieille chanson qu’on ensemble jouait
D’un nouveau amour qu’on ensemble créaient

Et pour quoi pas ?
Si il y a toute une vie en retard
Et les coeurs que ne se calment pas
Un chemin couvert déjà

C’est tourjours l’avenir que démonte les plans de vie
Les espaces ouverts pour que le bonheur se fondre
Le départ des réves, l’entrés des monstres
La solitude des mains

lundi 16 novembre 2009

Suas mãos não páram, seus pés não páram.
Mas a cabeça e o coração bem que podiam.

vendredi 13 novembre 2009

Amanhã é sexta.

Acordou suave.
Lembrou-se do cinza,
das mãos mansas e certeiras,
cobrindo o rosto,
carregando como se fosse seu.

Do áspero que acarinha,
vontade.
E a noite caiu

Para

De olhos apertados caber você no meu sorriso.
Te vi bonito, cheiro de gente,
desce doce em minha garganta.
Assim calado, tanto fala que devagar
tanto faz e faz.
E em sorriso e voz que ressoa,
Me traz perto, não vai, não me deixa ir.

De certo que tudo é um pouco cedo,
E cedo tudo um pouco,
mas só hoje,
Certo é que não houve ,
engano não tinha
pra você versos meus,

Agora, respiram fundo e sentem
cheirinho de gente, aguando nó,
Se perguntando por quês, do ques, que vês.

jeudi 12 novembre 2009

- Sim, as cartas de amor são mesmo ridículas.
E ainda que o sejam, são inevitáveis.
Soprano assim.
Deus batizou e fez de mim.
Perigo foi cair no grave,
Pra levar choque e arrepiar no ataque.

mardi 10 novembre 2009

Jabuticaba

Pretinha azeda que explode branquinha doce.

dimanche 8 novembre 2009

De ai ai

- Me fez uma falta aqui dentro.

A ausência aqui continuou em silêncio.

jeudi 5 novembre 2009

- Fiquei de pé ao meio dia no cruzamento que liga Garibaldi, Vasco da Gama, Reis Católicos e Garcia. Afastei os pés, estiquei as mãos, olhei o céu com os olhos espremidos e a água desceu gelada e num só jato só sobre mim.

Li você

Me procurei em todas as páginas,
Me encaixei em todas as palavras,
Ainda que não fossem pra mim.
Porque tem gente que acontece de ser poeta
E poesia é assim.

Fluxo de água e trilhos

Desengano milagre,
quebro o pote,
caem moedas e um coração

Vermelho forte,
foi ficando branco gelo
De véu remendo,
silencioso no cotovelo.

Acena do vagão
tudo agora é não,
quente em mim,
ficando frio assim.

Pra desembocar ainda salgada água,
me engole doce a alma
Ou engole doce alma pra mergulhar salgado corpo

Tudo em volta tem luz vertical,
Banho de verde e lentidão gelada
Água minha.
Me leva longe, sussurra concha em mim.

mardi 3 novembre 2009

Saber desistir é uma bênção.