samedi 19 janvier 2008

Tudo e só

- Eu passaria horas sentada a sua frente, só de olhos, sem uma palavra a dizer.

- (Silêncio)

- Não sei explicar o porquê, talvez saiba, até, mas não em palavras. O desenvolvimento dessa nossa linguagem não cabe nisso que tenho aqui.

- (Olhos me olhando, cabeça encostada na perna, leve movimento, os olhos abaixam, esfregam-se no joelho mais alto e voltam a me fitar).

- De fato, eu mal te conheço e te sei tanto. É como se fosse alguma parte deslocada de mim em outro corpo, numa outra vida e eu paralisada, sem conseguir conjugar os motivos.

- (O rosto agora passava por minhas costas, debruçando-se como se pedisse para segurar seu peso sobre mim. O ombro direito vinha como meio abraço a chegar por minhas costelas, escorregando as mãos até meu ventre e perna esquerda. O outro ombro relaxado e o corpo virando-se para alcançar uma nova posição que ainda desconheço).

- Queria que você ouvisse, queria poder te fazer sentir e me dizer se há, de lá para cá, algo minimamente parecido. É muito estranho, porque às vezes, é como se fosse uma fantasia, alucinação... nunca troquei mais de 3 palavras com você, não conheço o tom de sua voz, nem seu cheiro, nem sei a textura de suas mãos...

- (Meu corpo agora sobre o dela, caminhando devagar e contido, e, ainda assim, todo derretido sobre seu dorso. Ela forte, me aguentando, em silêncio, uma comunicação essencialmente visceral com um envoltório de entrega calada, sutileza e suor.)

- Não sei quem você é, não sei o que te traz aqui, sei que temos muitos assuntos não ditos, muito a se resolver ou já resolvido e mal enterrado, o que me faz querer te olhar ainda mais. Eu passaria horas olhando seus olhos, sem precisar pronunciar uma palavra, até que tudo bastasse e nós duas pudéssemos levantar e sair.
Mas de repente, eles nos pediram que nos envolvêssemos desse jeito, e eu, ainda sem palavras, sou grata por me permitir sentir esse corpo quente se desdobrando sobre mim e também o reverso.

-(Nós duas em pé agora, olhos fechados, suas mãos em meu rosto, minhas mãos subindo de seu rosto até o cabelo, os passos se encostando, os seios se aproximando, seus pés em cima dos meus, suas mãos agarradas às minhas, sua cabeça sobre meu ombro esquerdo e a minha sobre seu ombro direito, a respiração ofegante correndo no mesmo ritmo e ainda, o silêncio).

mercredi 9 janvier 2008

Narrativas

Começo a sentir falta de narrativas. Fatos, passos, cruzamento de olhos e palavras. Tenho me perdido muito na imensidão de dentro, fluxo de consciência que paralisa o mundo de fora. Tenho reparado pouco em como as histórias de desfecham, em como elas se desenrolam, fico mais intrigada com o que deve estar passando por dentro deles naquelas horas de dias comuns.
Estava sentada, só na mesa. Em frente, a televisão passando o show de uma banda famosa. Ao meu lado, outra mesa: 4 cadeiras, apenas uma ocupada. O homem grande, um sanduiche congruente com seu tamanho, a voracidade com que comia. Ele gostava da banda, eu pensei. Sabia cantar as músicas, era sua companhia na hora do almoço.
Do outro lado, 3 amigos. Assuntos da vida. Mulheres, investimentos, quem era a mais atirada, como isso ainda assusta os homens. Falavam alto e tinham calor, de fato, fazia calor. Tinham muitos assuntos.
Em minha frente, uma moça jovem e sua filha, provavelmente. A pequena deveria ter uns 9 anos. Essa idade é difícil, mas ela estava tranquila, olhava para a mãe enquanto tomava o refrigerante e eu pensava: "ela nem sabe como a odeia". A mãe brincando com ela, olhando-a com propriedade, os assuntos eu não ouvia.
Por último, mais distante à minha direita, o último a chegar no cenário. Sozinho, óculos escuros, roupas escuras, andar e imposição de agressividade, de quem tem personalidade forte e de quem finge não se importar com o mundo ao redor ou se importa demais a ponto de mostrar-se indiferente para não sufocar-se.
Em pé, próxima a lixeira, a moça que via o cenário mudar durante o dia todo. Limpando a mesa após cada partida. Várias mesas, várias fomes, histórias, olhares, educações, desabafos em suspiro, solidão.
A banda continuava tocando.