mercredi 24 septembre 2008

Do Berro e do Surdo.

No fim da tarde o mundo começa a virar ao avesso e colocar de ponta-cabeça o que ficava equilibrado na claridade, surgem milhares de movimentos disfarçados, escondidos, despercebidos.
É quando o sol se vai e a mão que durante o dia fez gargalhadas e ditou o pulsar grave de um surdo, conduzindo corpos suados que dançavam felizes, contentes de sua miséria ter alívio, ignorando a sujeira em que caminham todos os dias... essa mão que ainda agora embalava risadas, desvanece com o dia, vai-se embora com o sol e o surdo dá lugar algo mais imperativo, mais grave, mais surdo, de calibre 38 ou 36, ou de calibre nenhum.
A mão que durante o dia embalava corpos suados esquiva-se agora entre esquinas em breu e abandonadas e os corpos ainda são ritmados por ela, um outro andamento agora, novo compasso.
Entre passos corridos e vidros fechados, em batimentos fortes de coração, na sensação de perigo constante.
A contradição se encontra em toda esquina, onde o belo e o miserável se confrontam, se encaram, olham firme nos olhos, se sabem de perto, se conhecem há tempos, respiram fundo e engolem seco pra continuarem convivendo, até o dia em que um vai terminar com o outro e parecem saber que esse dia virá.
A mão é cisco pouco numa vastidão de poeira que a cerca, mas é ainda no singular que se faz. Quando um vivo, encontra o outro , a voz calada, um grito seco que sai do estômago e invade o outro. Invade porque antes foi invadido, porque o samba foi ouvido pelos poucos que estavam no navio, pelos mesmos que comiam papel se não houvesse resto de comida. ´
Entre o samba e a solidão, as ruas escuras e o abandono, a história guardada em uma caixa fechada a 7 chaves e o medo de ser percebido diferente.Às vezes se perguntando: quem é surdo? De onde pode vir o berro para que possa ser ouvido? Quem houve o berro e quem é o surdo? Quando não tem mais respostas razoáveis pra se pensar os motivos, pra explicar o macro, quando no pequeno a única razão é mesmo virar ao contrário, porque desse lado não há mais jeito.
É quando a mão aponta para cabeças, ameaçando parar para sempre algumas músicas, desacelerar alguns sambas, desritmar alguns corpos e às vezes o faz, às vezes não, e nessa rotina caminha uma mão de via dupla: entre um surdo que encanta e um berro que emudece.

Faz-se então Reflexividade

Solto o verbo em língua e faço sentido sendo.
Assim, enquanto costuro com palavras você e eu, faço nós e eles, de lá, fazem sós, e em momentos a vida vai se colocando em cadência.

No descompromisso desavisado de um dia passando o outro, tecendo redes e ligando pontos; desde minha primeira sílaba até o calar no silêncio, o mundo particular compartilhado vai crescendo.

O silêncio vai então dizer ao outro o que há de novo ou se mantém antigo nesse olhar mudo. Porque se falo não preciso só de palavras, essas são frutas passadas do ponto em lugares em que pele, olho e calor fazem mais sentido.

Ainda assim, sendo assim, nesse espaço perdido entre os verbos, nos encontramos. Nos olhares que se compreendem, nos corpos que se escutam à distância, em todo não dito, entredito.

Vou-me só tão acompanhada costurando sentido no vão, do nó ao inteiro, desde verbo até silêncio, a vida acontecendo no entre de nós.

(E quando se dá o encontro do sim com o não, o acordo tácito se faz sem convencimento, persuasão. Baixa um olhar, sobe outro. Depois o inverso, a troca e o corpo que segue. A cadência rápida, lenta... sem explícito, só o sutil.)