mardi 6 décembre 2005

"Ao amor que não passou"


Sutileza, querido... É assim que sinto seus olhos sobre os ombros daquela mulher, sutileza é o que vejo despencar das suas mãos quando distraidamente revelam em pequenos gestos repetitivos o desejo. Sutil assim também seu enorme sorriso disfarçado num pequeno mostrar de covas abaixo das maçãs de seu rosto. Sutil, os seus sonhos que aqui de longe eu enxergo, seus sonhos por ela que chegam a mim por tudo que sei de você e que te entrega. E os passos são sutis, chegam até lá, quase não tocam o chão... Essa sua leveza de andar que eu aprendi a reconhecer de antes. Em pequenos círculos disformes seus pés a cercam, um cheiro doce e você percebe como os cabelos dela balançam (sutis) sobre aqueles ombros semi-nus, seus olhos enxergam todas as marcas de suas costas, suas mãos suadas e macias passam tão perto e nunca podem chegar ao final.
Ela ainda não te sabe, querido, nada está perdido, ela só ainda não te viu como eu vejo. Talvez quando essa minha razão, que não sei por onde anda, voltar, então eu a explique, ela vai entender a sutileza necessária para ouvir sua voz, mesmo quando ela não fala. Eu mostrarei porque você é encantador mesmo quando não percebe, como você pode observar essa via das sutilezas quieto e sem ofensas, tenho certeza que ela entenderá. Mas por enquanto, me desculpe... Meus lábios não conseguem se mover, que dirá contar a ela seus segredos sutis que eu aprendi a guardar...

PS: Daqui uns dias isso aqui vira um daqueles romances breguinhas de bolso de antigamente... Que horror, me protejam de mim!

mercredi 9 novembre 2005

Faz silêncio p'ro silêncio chegar...

mardi 8 novembre 2005

SU-PE-TÃO

Supetão, meu filho, vem aqui por favor... Tá vendo aquela menina lá embaixo? A de vestido... Isso... Um vestido preto... já vai fazer dois anos que ela te procura... Como assim, o que, Supetão?! É... Procura, sim! Você diz que vive por aqui e ela nunca te achou... Tem algo de muito errado com esse seu serviço... Sei não, viu?
Bom, de qualquer forma, eu vou ali em Saturno visitar uns amigos e quando voltar, vou conferir direitinho esse seu trabalho... E anda! Xispa! Vai logo lá acordir a pobre garotinha!

Passaram-se mais 3 anos e Supetão nunca apareceu.

lundi 7 novembre 2005

Ela disse em tom baixo e trêmulo:

- Não espere muito de mim . Não sei se você costuma notar os pequenos deslizes que os corpos insistem em imprimir, mas de antemão, para não causar equívoco, eu mesma prefiro te dizer. Aqui neste instante incerto, dessas palavras que não saem nunca, apesar de estarem todo o tempo saltitando entre minha língua e o céu da boca, tudo o que tenho a dizer é que não posso te prometer muito... Na verdade nada posso... Ultimamente tenho podido menos ainda... Já não consigo conciliar meus pensamentos e eu que por muito tempo achei saber andar em corda bamba, descobri que a vida toda estive foi presa ao chão de maneira muito firme... Depois de alguns anos arrastados, enfim, consegui ver o que me diziam e eu nunca fiz questão de ouvir. Esses pés malditos fincados ao chão... Mas por que? Não foi assim que eu imaginei, meus sonhos vão tão mais alto, mais longe...Me perco. Agora nesse exato momento estou me perdendo. o que eu ia dizendo, o que eu ia dizendo... Era que... Era pra você... Isso! Não espere muito de mim... Não estou querendo dizer que eu não sou muito ou que não quero você criando expectativas sobre mim... Isso também, mas antes; preciso te contar que eu não sei ser desse jeito...
Assim como eu sou, que eu venho sendo, que dizem que eu sou e que me confunde tanto...
Só entenda...
Primeiro vem os movimentos dos meus olhos, meu bem... E como eles não precisam piscar quando está tudo bem, aquilo que brilha dentro deles, não se sabe daonde, não se sabe de quem... Eles precisam daquilo...
Depois vem as minhas mãos... Elas inquietas, reflexo do meu corpo histérico reprimido e inquieto; elas impacientes; elas tirando e colocando o anel sem parar; elas geladas; elas suando; elas em meus cabelos (arrumados?); elas em meu colo...
Minhas pernas, querido... Você nunca vai perceber e talvez essa seja uma das únicas vezes em que eu irei agradecer por você ser tão desatento... Minhas pernas bambas...
E de novo meus olhos, porque agora não só a luz, não só o piscar, mas o que vem interpretado por eles de lá de tão fundo que já nem se sabe. Quando eles soletram todas as letras para você e você não entende, meus olhos que falam pelas pupilas, olhos que dilatam e contraem meu pavor, meu medo e essa coisa intrusa, essa confusão, esse alvoroço que é fechar os olhos e não ver mais, vendo absolutamente tudo...
Não espere muito de mim, querido, eu já não correspondo às minhas, às suas ou às expectativas deles... Porque primeiro vem o que eu não sei, o que me faz respirar pausadamente pelo menos uma vez por dia e me faz perder o ar sempre que me lembro...
Se você conseguir, só se provar que consegue me explicar o turbilhão, se aguentar esse peso leve e insuportável... Assim, tudo bem, eu deixo você ficar... Mas não sei até quando.

Ele não disse uma palavra. Continuou atônito, sentado no sofá, os cotovelos apoiados nas pernas, olhos fixos na direção dela. O olho esquerdo se afogava, o direito tinha deixado uma gota cair. Passaram-se exatamente 13 segundos. Um suspiro lento e fundo. Levantou vagarosamente, pegou as chaves em cima da mesa de vidro e, sem uma palavra, bateu aporta.

dimanche 6 novembre 2005

Swing on a tree

Balanço de corda e madeira, velho e preciso, preso na mangueira que fica na frente da casa, a árvore que viu três gerações da família passarem.

Hoje de manhã, manhã de domingo, o balanço acordou cedo. A mocinha, usualmente de saias, pulou da cama antes das 7, saiu correndo nas pontas dos pés, pelos corredores da casa; a fralda pesando e só a fralda. Agarrou a maçaneta tão alta- que quase não lhe chegava!- , o coração palpitando a todo vapor pelo proibido; e finalmente a porta aberta deixava ver, lá no jardim, o balanço sozinho e inerte, esperando a mocinha de fraldas. Quatro metros até lá, perninhas pequenas e ágeis da garotinha...

Neste domingo, além do sol, as pessoas daquela rua acordaram também com gargalhadas gostosas de uma mocinha de fraldas que fazia o velho balanço de cordas e madeira voltar a viver. Alto e baixo, alto e baixo... A manguerira esse domingo teve outra história para contar e suas folhas vibravam com o prazer de ouvir o tom alto daquelas gargalhadas inocentes...

lundi 24 octobre 2005

Seu Manoel era tímido. Ele não tinha barba e sempre usava boné, carregava a pequena pasta com suas partituras sagradas para todos os lugares. Seu Manoel tinha filhos e trabalhava todos os dias. À noite, Seu Manoel cantava e como ele amava cantar! Seu Manoel fechava os olhos e cantava como ninguém! Se abrisse os olhos haveria de certo um desconserto... Mas podia cantar sempre de olhos fechados e assim se sucedia toda noite o canto de Seu Manoel!
Tudo em frases nesses dias.

Fala palavra; fala cor; fala gente; fala quente; fala dele, o amor; fala voz; fala lágrima; fala o cheiro, eu senti; fala o gosto, vem daonde? Fala a lágrima molhada e os arrepios vêm; fala do que não se conhece, não me conhece; fala que eu descubro; fala e eu percebo; fala um pouco, eu traduzo. Fala do mundo; fala belo; fala vento; fala o medo; fala o canto, canta o que fala; fala para alguém, para ninguém entender; veja bem, o que se fala não se volta; fala o tom, aquele dos batimentos; fala de dentro; fala baixo; fala quieto e calmo, traduz o meu branco; me ensina esse olhar; fala do significado; fala o que eu não consigo falar só de olhar; interpreta para minha mediocridade essa cor que me confunde... E eu falarei também meus motivos.
Pequenos botões, pequenas palavras, sorrisos pequenos em boca pequena, pequena esperança, pequena dor, pequenos versos, pequeno telefone, pequenos olhos que já não enxergam, pequenas mãos, pequeno amor... Para um mundo que sucumbe pelo GRANDE.

mardi 18 octobre 2005

São sempre ciclos. Estamos em 2005, a história se "repete".

A minha bicicleta aprendeu a andar sozinha. Assim não passaria horas trancada dentro da garagem suja, esperando a boa vontade de sua dona para poder enxergar a luz do sol. Minha bicicleta caminhava só. Com suas duas circunferências magras, percorria chãos de pedra e barro, via insetos, bichos de pêlo e pessoas. O mundo era um infinito de curiosidades e ela se bastava, ia metro após metro numa calmaria boa de cidade do interior... E poderia ser qualquer cidade... Nunca esqueceria da música que toca quando acontece o atrito entre bicicleta e chão. Assim ela continuava a jornada de sua vida, em pequenos gigantes passeios solitários tão bem acompanhados...