mercredi 20 septembre 2017

Matança

Não falemos mais em tempestades ou moinhos
Que não toquem nossas faces esses ventos
Que não sequem nossas gargantas
Nem emudeçam nossas vozes.

Esta contração no estômago passará
Esse pesar passará, não restará o vazio.

Não há nome para este lugar
Escuro, só, imenso.

A lama não solidifica minhas raízes
Elas beiram o ar, avesso de si
Em sentido oposto bambeiam
Não se agarram ao invisível
Estão soltas.

mardi 1 août 2017

Coraçao da Ressaca

Meu coração é uma maré de março em plena ressaca
Vai-vem tao forte quanto se sabe vivo
O que passou é jogado para a areia,
Esfrega-se forte nos grãos...
Intenta se agarrar ali

Mas lá
a onda do peito arrebatadora
Tentáculo vivo e líquido
O suga de volta

Vem forte,
carregado pelas águas bruscas
que entre afagos e solavancos
desafoga e sufoca, afoga e acorda
O que ainda é amor ou não passou ...

Ele que ainda vive
Tenta  sobreviver e seguir, nadar
Mas a força extasiante o quer de volta
Dentro, revolto, intenso,
nas profundezas de suas águas...

Até que março se vá ...

Mas ele sempre volta.



dimanche 2 juillet 2017

Dobrar a esquina

Deixar pra trás
Para renascer
Afinal,
Os dias tem sido azuis
Nessa América do Sul.

vendredi 16 juin 2017

Notas do amor e do fim

Essa flor bruta
Essa fome silenciosa
Que me lembra
De sua presença
Do amor que te tive
E que me devora por dentro

Te amei
Te quis tanto
Tanto
E Agora só tenho essas palavras
Pesadas de adeus
Sua voz
O cheiro
A forma do abraço e do beijo

Te amei tanto.

A flor se esvaindo
Suas pétalas em sépia sedentas
Da água que não vai mais chegar
Bruta e maldita...
Somos nós essa natureza morta
Lá no fundo da retina.

Bilhete ao amor de longe

Meu amor, 
Há um mundo de lembranças
Que eu poderia te contar
Mas hoje,
Prefira apenas 
Encontrar seu olhar 

Nostalgie

Bonjour ma belle âme,
Je t'ai laissé un peu par ses rues
Je le sais.
Je ne reviens pas pour te chercher
Je viens juste pour te voir 
Marcher dans ses  rues anciennes du passé
et être sûre de tous qu'on a passé là. 

mardi 18 avril 2017

Da morte

O pescador abria a barriga do peixe
E tirava as vísceras

Pedro o mirava
E,
naquele instante,
entendia o que era a morte.

Deste dia em diante,
Pedro não come peixe

lundi 27 mars 2017


Como uma página
Em que é preciso se reescrever
Tudo desde o início

Reaprender os traços
As marcas do tempo
Dos amores passados
Das despedidas
As dobras do caminho

Pedra sobre pedra
Palavra sobre palavra
Dedos sobre tato
Aquele verso escondido
Na esquina do pescoço

No contorno dos lábios
Reaprender a acender a fogueira
Que anima a alma
É preciso vontade para viver
Tudo de novo





samedi 4 mars 2017

Despedida

Meus três sóis negros
Estilhaçados em meu peito

Meus três sóis no peito dele
Estilhaçando o amor em mim

Meus três sóis e ele inteiro
Despedaçados em mim

Eu em poça d'água
Um adeus sem fim

Meu menino do coração sagrado
Dou-te adeus como quem se desfaz
Da própria fé

Te amo pra sempre
No tempo em que nos encontramos
Nus na cama de corda
Sob pássaros invisíveis

Quando acreditei
que era nossa a dádiva de voar
Sem asas e em concha

Te deixo como quem renuncia
A si mesma
Pelo horror do mundo
E de nossos próprios demônios

Ainda assim,
Te tenho amor sem fim
No tempo de antes e de hoje
Reconheço meus
os sóis em teu peito
E esse jeito de abandono
Que vi em ti desde o começo.


vendredi 3 mars 2017

Pele sobre pelo

Inspirei.

É forte esse gosto do sangue quente
Soltei-me do alto
Cai sobre seu pelo
Só ergo meu corpo se te deixar partir

Alvorecer de seu pelo na minha,
Animal arisco se derrete sob mim

Te domo porque sou sua
Expiro no seu ritmo
Seu sangue quente no meu

Nascemos do mesmo desejo e calor
Somos nós guardiãs desse mistério

Inspiro seu cheiro selvagem
Reconheço seus os meus passos
Sobrevivemos à catástrofe

Nos agarramos em nó
De pele pelo quente suor
Não ergo meu corpo de sobre ti
Só deixo meu corpo descolar de ti
Se
(Dança)

Só te deixo ir quando não souber
O que sou
E tenho sido tantas

Respiro contigo, te agarro pelas pontas
enlaço minhas pernas ao seu redor

Vamos juntos
ofegantes quentes pele sobre pelo.


jeudi 2 mars 2017

Transmutaçao

Ando querendo cavalgar
Ter cascos duros e resistentes

ao calor ao frio ao amor

Ando querendo respirar ofegante
suando por debaixo do pelo
Respondendo só aos instintos
de animal

Fome, sede, sexo, cuidado

Ando querendo seguir sem destino
campo a fora
O caminho de volta na memória

Ando querendo dormir totalmente nua
corpo inteiro na relva
Ser beijada pela noite
E despertar pelos beijos do sol.

samedi 25 février 2017

Sonho

Uma cidade com chãos de pedra
Meus pés que deslizavam sobre elas
Meus pés que levavam meu corpo
Incerto mas firme
Em velocidade pelo chão
Que de casas pequenas do interior
Iam se transformando em mata
Agora eu deslizava muito rápido
Pelas pedras entre a mata
Muitas águas frente a mim
Ao meu redor
Eu em velocidade na mata
Diante das águas

De tão veloz
O medo me acelerava a alma
E de súbito parei
Me vi sentada
Águas pesadas reluzentes
Em minha frente

Lá adiante,
Cavalos
Cavalos soltos ao longe na mata

Quero me levantar
Ao que percebo
estar com o dorso apoiado
Num corpo quente de bicho

Sobre o ventre do cavalo
Que deitado me aninhava
Eu parei

De tão veloz
Parei no ventre e não no lombo
Do cavalo

Agora o medo de sair dali me tomava
Porque estava tudo maravilhosamente
Bem
Mas eu precisava ir
E se o bicho não gostasse e me machucasse

Penso comigo que nada de mal vai acontecer
E que tudo posso resolver
Resisto e insisto que só pode ser um sonho
E é.

Desperto

 Sinto ainda a respiração ofegante dele
O barulho das águas
O cheiro da mata em mim.
O cheiro das águas o barulho da mata nossa respiração de bicho


jeudi 16 février 2017

Carta para minha mãe

Mae,
Há tempos te devo uma carta.
Uma declaração em palavras que demora a vir.
Eu nasci de sua barriga,
e não consigo te escrever.

Hoje eu dancei pra você
Ainda que você não estivesse lá
Percebi ali
Que não é preciso te dizer

Você está inscrita em mim
No sorriso
Nas ancas
Nas pernas

As palavras estão ali
Em corpo
Quando te busco das águas
E te trago no colo.

Mãe minha que me carregou
Agora sou eu quem te carrega
Te tenho no corpo
Te alimento
Te dou amor

lundi 6 février 2017

Ignorância 2

Quero te comprar uma roupa bonita
Que caiba meu abraço

Quero te dar um presente
Que te sirva
A respeitar e a compreender
Os corações valentes

Um pingente, quem sabe
que te mostre a verdade
Que no fundo, irmão
Somos tão pequenos
como o caroço de feijão

Que nada sabemos
e nem somos maior que ninguém
E que todo presente que damos e temos
É por querer nos fazer bem.

ignorância

Saber pouco da vida
Nao planejar o futuro
Respirar sempre fundo
Olhar no oco e enxergar o mundo
De mim
Dele
de você
De nós todos

Só aprendi mesmo a amar
Embora, as vezes torto,
Diante de meus olhos bobos
Esta é a única condição que há.


mardi 31 janvier 2017

Darwinismos

"Pensar sobre sua própria existência"
Ela disse que seria o que nos torna gente.
Mas e essas borboletas que criamos no estômago?
Esses novelhos de lã que tecemos?
E essa mania de querer
Isso de amar...
Nos torna o que?
Bichos?

vendredi 27 janvier 2017

Dor de estômago

Quando dói o estômago,
dói tudo.
Mas é muito cedo, amor
para desistir.

As águas continuam claras
as temperaturas altas
a mais profunda ignorância
talvez seja uma dádiva
um espaço em branco
uma bolha de prazer

Seus pés sambam na avenida
seus olhos percorrem os outros
um tambor desajustado
não entra em acordo

Como aquele dia em que fazia
um silêncio aqui dentro
E todos bebiam e gritavam
lá fora.
O passarinho só
em sua prisão de pássaro
me olhava e compreendia

A mim não foi dado asas
mas vez ou outra
sinto o vento
no rosto
no corpo
na pele
e é quase como se estivesse voando.

O que mesmo viemos fazer aqui?
Ela me pergunta olhando nos olhos

Pensei ter certeza,
durou alguns segundos e
já não me lembro mais.

Deve haver muita gente lá fora
mas tudo está tão
solitariamente silencioso
que já nem me lembro que é verão.