jeudi 20 décembre 2007

"Jogando meu corpo no mundo...

O feixe de luz vinha forte, a porta escancarada e o sol do meio-dia gritando o calor dessa época traduziam 'escopicamente' as novas sensações que explodiriam a partir daquela tarde. Que vinham explodindo, é verdade, há algum tempo, mas que ganhavam espaço e corpo.
Ela estátua, cabelo molhado, blusa frouxa, ar leve de água que acabou de correr, a claridade iluminando-a toda. De sangue correndo quente e mais vermelho que sempre, lembrando dos minutos anteriores: o anel indo e voltando e caindo do dedo, o verbo que não cessava, uma sílaba engolindo e passando por cima da outra, os nós quase se desfazendo, chegando sempre à iminência de. O sorriso de lá, o balançar de cabeça, a outra dizendo sim à distância, sim sem som, permitindo que ela seja e só, que se denuncie, que se desmonte e na colheita dos cacos se descubra outra, a mesma.
O compasso da vida é uma junção de milésimos de segundos e o que se percebe deles. Quando acabam de passar correndo, deixando só aquela corrente de vento que levanta a saia das moças, sopram algo indecifrável nos ouvidos.
Aqueles alguns minutos traduziam o que vinha querendo aparecer ao longo desses dias. Um motivo de viver, uma potência de devir, de dar a cara à tapa e ver doer ou sentir mãos suaves e gentis. Entre tantos terremotos e enchentes, descobrir em algum instante perdido, entre "ombradas" desatentas, que o mundo gira sem pausa. E o que existe de fato, é a hora de entrar no ritmo da dança, sem contar os passos, sem pensar no ato, só chegando na beira e se jogando. Do topo da vontade de si para o resto do mundo, que sabe Deus como está, porque cada cabeça é um e a dela não parava aquela tarde... e nem queria, porque se parasse desistia.
Ela estátua e um estouro acabara de acontecer , conseguia ouvir ainda os tambores rufando, a orquestra crescendo dentro, cada vez mais forte e maior e aquela luz e aquela vontade e a saudade boa do que está por vir, porque sim, a sensação era de saudade, mas ainda não tinha sido, estava para acontecer.
O que vem agora? Ela dizia em silêncio, apertando os olhos para a luz forte. O que acontece a partir daqui?
Não tinha resposta. Os passos eram tecidos a partir dos milésimos de segundo que passavam, iam sendo construídos enquanto acabara-se de sentir aquele vento passar pelas saias. Como duas grandes agulhas de tricô que teciam as pegadas que ela ditava sem saber, sem querer. Mas agora queria e ia mostrando como era e sendo como podia, entre encontros e tropeços como tantos outros iguais ou parecidos que perambulam nesse mundo, e que estão (ou quase) passando pelo mesmo estrondo, quando não, uma enchente.
Assim o mundo acontece.
P.S.: andando por todos os cantos..."

samedi 15 décembre 2007

Um caso ou um conto, ela disse.

D. Alice não esperava por ninguém naquela sala encardida e cheia de desconhecidos. Estava lá há dias e pensava apenas em quando poderia voltar para seu canto, onde tudo era seu, e deixar as coisas como sempre foram com a presença da dona.
Eram olhos cansados, os dela, olhos de uma espera longa e reflexo de anos que correram. O tempo passara de pressa demais, os filhos cresceram depressa demais, o mundo passou por ela depressa demais. Mantinha ainda, uma tranquilidade, parecia compreender tudo o que vivera até então e não achar que fora ruim. Foram dias criados na terra, mãos esfoladas do esforço, 14 irmãos e 13 filhos, um marido doente e a ausência de si em meio a toda essa gente.
Dona Alice tinha uma estatura pequena, um peso maior do que seus joelhos de 78 anos poderiam aguentar, uma postura curva, daqueles que já suportaram a gravidade da terra por muito tempo. Suas palavras eram lúcidas, conversava muito com as pessoas de branco. Fazia perguntas das quais não compreendia as respostas, contava dos dias anteriores com novidades que não interessavam, falava pouco de seu passado, sabia dizer apenas, que o povo que a rodeava era muito fraco. Seu pai, seu marido, seus filhos. Ela era fraca, tinha sido a vida toda.
D. Alice sentava numa cadeira e seu filho mais novo, que a acompanhava sempre, sentava na outra. Os dois passavam o dia sem trocar meia dúzia de palavras, entendiam-se entre olhares, não sabiam muito um do outro, não se tinha o que saber. Ambos não tinham o que falar, estavam muito tempo nus um frente ao outro, os dois com medo do que podia vir a acontecer depois de tanto esperar. Aquelas cadeiras de plástico de pernas frágeis é quem abraçavam em silêncio os dois. Cada um na sua, não sabiam o que acontecia além dali.
Ela olhava a varanda e segurava um guardanapo já todo amassado, colocava uma das mãos no pescoço inchado e suspirava, imaginando o que viria depois. As mãos pequenas e enrugadas eram quentes e guardavam o frio de dentro.
Naquele momento ela pouco se queixava, não tinha muito do que se queixar, não perdia seu tempo com essas coisas de gente besta. D. Alice, ao contrário, falava de hoje, das pessoas que havia visto nos últimos tempos, dos vários médicos por quem passara, da bondade de uns, dos conselhos de outros, de como esperava naquela sala há dias sem nada acontecer.
Dentre os muitos fragmentos de seu discurso, só uma palavra se repetia, se repetia já sem eco para as pessoas de branco que estavam ali, palavra que ela já não falava de imediato, mas que dava voltas por dentro e a cada tempinho maior de conversa, a cada deixa do outro, escapulia sem pedir:
- Medo
- Medo de que, D. Alice?
- Medo de morrer.