lundi 24 octobre 2005

Seu Manoel era tímido. Ele não tinha barba e sempre usava boné, carregava a pequena pasta com suas partituras sagradas para todos os lugares. Seu Manoel tinha filhos e trabalhava todos os dias. À noite, Seu Manoel cantava e como ele amava cantar! Seu Manoel fechava os olhos e cantava como ninguém! Se abrisse os olhos haveria de certo um desconserto... Mas podia cantar sempre de olhos fechados e assim se sucedia toda noite o canto de Seu Manoel!
Tudo em frases nesses dias.

Fala palavra; fala cor; fala gente; fala quente; fala dele, o amor; fala voz; fala lágrima; fala o cheiro, eu senti; fala o gosto, vem daonde? Fala a lágrima molhada e os arrepios vêm; fala do que não se conhece, não me conhece; fala que eu descubro; fala e eu percebo; fala um pouco, eu traduzo. Fala do mundo; fala belo; fala vento; fala o medo; fala o canto, canta o que fala; fala para alguém, para ninguém entender; veja bem, o que se fala não se volta; fala o tom, aquele dos batimentos; fala de dentro; fala baixo; fala quieto e calmo, traduz o meu branco; me ensina esse olhar; fala do significado; fala o que eu não consigo falar só de olhar; interpreta para minha mediocridade essa cor que me confunde... E eu falarei também meus motivos.
Pequenos botões, pequenas palavras, sorrisos pequenos em boca pequena, pequena esperança, pequena dor, pequenos versos, pequeno telefone, pequenos olhos que já não enxergam, pequenas mãos, pequeno amor... Para um mundo que sucumbe pelo GRANDE.

mardi 18 octobre 2005

São sempre ciclos. Estamos em 2005, a história se "repete".

A minha bicicleta aprendeu a andar sozinha. Assim não passaria horas trancada dentro da garagem suja, esperando a boa vontade de sua dona para poder enxergar a luz do sol. Minha bicicleta caminhava só. Com suas duas circunferências magras, percorria chãos de pedra e barro, via insetos, bichos de pêlo e pessoas. O mundo era um infinito de curiosidades e ela se bastava, ia metro após metro numa calmaria boa de cidade do interior... E poderia ser qualquer cidade... Nunca esqueceria da música que toca quando acontece o atrito entre bicicleta e chão. Assim ela continuava a jornada de sua vida, em pequenos gigantes passeios solitários tão bem acompanhados...