dimanche 23 avril 2006

Em algum dia perdido do outono de 2005, ela pausou os minutos e contemplou.


" Suas mãos, agora suaves, escorregavam com doçura e delicadeza do alto da minha nuca até o cox. Aquela existência agressiva de minutos atrás tinha o poder de se transformar no toque sutil das pessoas que amam... Mesmo que não fosse amor.
O que eu sentia era tão simples que trazia uma tranqüilidade angustiante, eram mãos grandes, mãos humanas de sexo oposto, desconectadas de seu instinto animal, apegando-se ao que há de mais belo em cada corpo: o prazer de se compartilhar pela espontânea vontade de. E era um movimento infinito de idas e vindas nas mesmas costas, talvez nos mesmos pontos, mas a sensação era única, era nova e absurda a cada passagem... Era como um feixe de luz, nascendo da carne pelo toque."

jeudi 20 avril 2006

" Mon petit oiseau de grandes ailes... C'est toi et tes yeux que me faitent voler.
Sur le gris de cette cité mon corps est lège... Quand il t'embrace le ciel se tourne un bleu chaud que je ne peut pas expliquer... Et moi? Tout que je vois sont les couleurs que tu porte dans ton ombre... Et tout que je pense est que nous pouvons être le monde."

Sobrevoa aqui, paira alguns minutos no ar, faz como numa coreografia desenhada a dedo, usa a cabeça como guia do que pode vir a ser, as asas a acompanham e o vento soprando arredio torna possível a dança.
Céu azul claro de manhã brasileira. As asas grandes querendo abraçar o mundo, os olhos, abertos para dentro, enxergam só o assoviar da força do vento contra o bico, a doce sensação de não pesar e a brisa fria da altitude.
Asas poderosas de pássaro, vontade nova de pássaro, leveza de pássaro e leveza de pássaro, suas cores quentes e vivas contracenam com o cenário frio de mundo.
É tão vago que quase não acontece, é forte e firme como é preciso ser para voar mais. Não se assusta com chuva, aeroplanos ou qualquer contrasenso do caminho. Segue em frente só, absolutamente só e as nuvens abrem alas para sua passagem...

jeudi 13 avril 2006

Quando cai água lá de cima as cores aqui embaixo ficam diferentes. Os sons são mais fluidos, emendam-se uns aos outros e compõem melodias sutis.

As idéias ficam mais vagas, passeiam caminhos longos e escorregadios, entre moinhos e redemoinhos, descem e sobem ladeiras... Escorregando na água que escorre, mergulhando e ascendendo entre novas conclusões e constatações.

É comum, quando chove, achar queixos apoiados em mãos, sustentando suspiros longínquos e saudades engraçadas. A água tem essa competência, levanta lembranças esquecidas, traz de volta cenas que dormiam, faz alguns filmes e os traduz em suspiros.

Nos dias molhados e cinzas, o mundo fica mesmo um pouco cinza, as folhas ficam foscas e reluzentes ao mesmo tempo. Me parece que céu, terra e mar se apagam ou ficam em luz baixa para que os homens consigam se enxergar. O colorido deixa o céu, a terra e o mar para dar cores aos homens, seus sonhos e pensamentos. Quando cai água dá vontade de dormir! Quando se dorme se sonha, depois do despertar se pensa no que foi sonhado e a lógica se refaz.

Cores, sons, pensamentos e sonhos... Hoje eles me remetem a essa água que vem do céu. Ou isso, ou o contrário. Talvez mais o contrário, essa água doce que me faz lembrar de todo o resto... Simples assim: alguns minutos perdidos, a mão direita apoiando o queixo, o olhar láááá longe, uma infinidade de cenas e por último, para encerrar os minutos, um grande suspiro e com ele todo o oxigênio que se pode levar.

jeudi 6 avril 2006

A placa dizia em letras garrafais:
- Mau humor. Favor não incomodar.
O dia seguiu esse ritmo até o entardecer, a estranheza da vida se punha com o sol. À noite pertencem o esquecimento, o alívio, o esboço, a falta de clareza, nela só se definem os vultos.
As estrelas se mostram, desliga-se o carro, espera-se o elevador, sobem os andares. Roda-se a chave, a porta se abre. O desejado é o silêncio, o barulho é um intruso maldito, a companhia indesejada à quem se oferece um sorriso vago, falso, amarelo.
Nove passos e meio até o único pedaço de mundo a que se pertence por enquanto. A porta bate, a chave tranca e isola o resto do universo. Uma janela grande e translúcida permite que se veja lua, nuvens, algumas estrelas e milhares de fragmentos de vida, em pequenos quadrados iluminados artificialmente.
O corpo em pé, pesado, os olhos fechando, ombros cansados tentam manter uma postura difícil. A música sai pelas duas caixas redondas e verdes. Os passos guiam-se sós, passeiam pelo chão ainda quente de sol. O cabelo solta-se suavemente, os botões da blusa abrem-se sem pressa, a saia escorrega pelos quadris e cai sobre o chão. As notas divagam descompromissadas entre quatro paredes, os pés descalços coordenam-se cada vez mais ritmados, o corpo cansado, agora quase nu, arrepia-se com a consciência das sensações, mais alguns segundos e a nudez é inteira. Nudez de corpo e alma, ambos exauridos, distantes de ruídos e de outros pensamentos.
O ritmo; a dança sem júri; os braços desembaraçados; o balançar das coxas; o abraço ao vento; o giro da cabeça. Um passo p'ra lá, dois p'ra cá, a contagem é assimétrica e conduz a uma simetria perfeita, a congruência de quando não se utilizam técnicas, a falta de raciocínio, a falta de censura. Tudo é um só: pernas, braços, quadris, ombros, nuca e cabeça. O conjunto de contagens de ritmo complexo.
As horas vão indo... Deixando de lado a luz quente, as expectativas, as esperanças. Não se ouvem perguntas, logo, não são necessárias respostas. Um dança nua de corpo cansado e tudo se resolve (nessa noite).

samedi 1 avril 2006

Sindicato dos em-casa-sem-casa/sem-casa-em-casa ou vice e versa

Há dois dias o mundo está meio estranho.
Ontem ouvi alguns imbecis.
Hoje ouço e vejo imbecis do outro lado da porta.
Durmo tarde e sem saber.
Acordo cedo e sem soluções.

A noite ficou meio esquisita.
Veio sem querer chegar.
Vai indo sem acontecer.
Foram serás e poréns.
Ficaram eu queria e talvez.

Jogo letras fora como quem masca chiclete,
Funciona até perder o gosto.
Tenho 7 números decorados no aparelho telefônico.
Uma voz que agüenta.
Outra voz que fala.
As vozes que reclamam.
A noite anda.
As horas se repetem.

Ouço a voz imbecil genitora.
Compreensão é uma virtude muito pequena.
Invento explicações.
Decoro textos não lidos.
Não grito.
Não respondo.
Não entendo.
Não encontro.

Morro mais uma noite.
Vivi dois dias sem motivo.
As horas correm e não passam.
A chuva começa e a noite acaba.


(Sábado em casa dá nisso...)