Já não importa o dia,
deixamos de marcar as horas,
os números que valem agora são outros.
mortos, sem nome, sem história, sem enterro, sem velório
ditam os próximos dias que deixaremos de nos abraçar.
Desliguei a tv há um tempo
dentro da casa ainda faz sol, temos chuva também
tenho descoberto quais as plantas que sobrevivem
com pouco
tem sido um aprendizado
Estas são as que planto
observo também este tempo
delas que é outro
Ver brotar uma folha na virada do dia
é como aprender uma mágica
As noites, não.
tem me ensinado pouco
acendem holofotes virados para dentro
a luz é tão forte que não durmo.
Às vezes, sim.
tenho visitado outros países,
estado em banheiros estranhos
tido conversas estranhas.
Uma lembrança me diz que é possível
sonhar com o que se tem saudade
foi assim na infância
acabou-se a infância e com ela os sonhos
?
Coleciono cenas-refúgio
para alimentar os vestígios diurnos
a memória parece estar cansada
as imagens repousam no silêncio
e aqui faz muito barulho.
Quando não tem escapatória
eu danço
assim mesmo
holofotes acesos
ruído imenso
vertigem incessante
desequilíbrio
esqueço-lembro
continuo
Porque sei que
o corpo que dança subverte o tempo
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