Despertou primeiro os olhos, que abriram num susto. Em seguida seu corpo foi devagar acompanhando o movimento da manhã que já cantava alto lá fora. O caminhão de frutas, a voz média, o bate estaca, bate martelo, monóxido de carbono e todo o resto.
Dentro, onde estava, ainda era morno e calmo, com a janela de vidro guardando o barulho de fora, mas mais dentro ainda, acordava calma aquela sombra esquisita de saudade. Uma memória que vem no corpo e que se monta no espreguiçar; toques registrados nos poros, nos ouvidos, nos olhos e na boca. Um falta-alguma-coisa qualquer que se despoja junto ao travesseiro e amanhece juntinho, acompanhado de suspiro e de uma textura assim sépia.
Ouvia uma risada engraçada, sentia o amarelo mel, o esmagar, as músicas desafinadas, o cheiro de manga, a água de côco, o cheiro de sal, o ofegar simultâneo e a lágrima teimosa que caía quando o céu explodia. Sentia o cheiro, o cheiro da sombra.
A cama era de solteiro, mas de repente havia tanto espaço ali que caberia um outro corpo grande, que cobrisse mais do que coberta e que, melhor que essa, trouxesse junto, uma infinita canção de ninar num ritmo assim tum-tum, tum-tum, tum-tum e movimentos lentos escorregando por entre o cabelo que descansa leve sobre si.
A sombra amanhece clara com o raiar do dia, e quando o corpo vai se ocupando com as outras coisas do mundo, ela vai ficando mais escura, se agregando às outras, se disfarçando em xícaras de café, em papéis que não esperam, em engarrafamentos, em "por favor", "muito obrigada" e "até logo"; para quando tudo escurecer, ela ser transparente e se deitar novamente ao lado, e agora com o cansaço que se esforça em não vê-la.
E no dia seguinte tudo começa outra vez.
jeudi 19 novembre 2009
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1 commentaire:
Que lindo texto!
Como pode algo incorpóreo ocupar tanto espaço em nós!?! Ainda que espremida entre os fragmentos de dia, de noite, de mundo, a saudade é uma sombra que resiste como um quase-corpo ao nosso lado. Estranho!rs
Um poema sobre o que fica:
Restos (Ildásio Tavares)
Há um resto de noite pela rua
Que se dissolve em bruma e madrugada.
Há um resto de tédio inevitável
Que se evola na tênue antemanhã.
Há um resto de sonho em cada passo
Que antes de ser se foi, já não existe.
Há um resto de ontem nas calçadas
Que foi dia de festa e fantasia.
Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.
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