dimanche 13 septembre 2009

Reticências

Seu coração era um vulcão vivo que de épocas em épocas, enfurecido, lançava uma larva fervente e vermelha que se espalhava com tamanha intensidade que não deixava nada como antes por onde passava. Por vezes, as proporções que a erupção tomava eram mais desastrosas do que esperava e tinha, ela mesma, que pagar pela fúria de seu coração, reconstruindo vagarosamente o que ele havia destruído e quando não era possível, o jeito era lidar com o vazio que restava.
Nesses dias de deserto pós erupção, as horas caminham lentas e mudas e os passos no chão fazem ecos ensurdecedores aos ouvidos. Agora eram apenas dois pés e duas mãos e mais nada ao redor. Havia ficado só no mundo. Dentre os milhares de planos de reconstrução de seu universo particular, pensara em tirar algumas pessoas da cidade, em escrever cartas anônimas, em descobrir a forma de fazer o tempo correr ao contrário, ou de apagar más memórias, talvez desenhar algo no muro frente a casa dele, pintar o asfalto, talvez um carro de som, ou uma banda inteira tocando ao vivo em sua janela, algo que o fizesse acordar do sono profundo, da dor que cega, da raiva que amarga a saliva. Ela queria qualquer coisa de impalpável que fizesse o rumo das coisas mudar.
Como se as lembranças dele estivessem em cada esquina do que conhecia, em todo objeto que tocava, toda música que ouvia. Tudo a partir de então tinha seu nome e seu coração batia no compasso do samba dele. Não era possível acreditar que tudo aquilo virara cinza, era cruel conceber que aquele era o fim, não podia ser. Lhe disseram um dia, com toda sinceridade, que o Amor era um algo recíproco, e se dela saíam tantos raios incandescentes dessa tal coisa em direção a ele, é porque algo de lá pra cá, mesmo que machucado e escondido nos escombros, havia e era tão forte quanto o que ela sentia; e era apenas essa crença que lhe mantinha viva.

2 commentaires:

Lua a dit…

lindo!!!

Emmanuel Mirdad a dit…

Não é recíproco. Quase nunca. E aí que mora o perigo.

Quando se está aplicado, tal como este post, não há sinal de alerta que nos salve, que abra um trechinho pequenino de razão que possa iluminar a cautela. Simplesmente há o pulo, o salto rumo ao abismo, sem medida, coragem facão.

E aí, imersos na ação, não detalhamos as porções da troca. E, o outro lado, com muito menos amor do que deveria, sentencia o fim, irredutível.