lundi 16 octobre 2023

Estrangeira

 Há muito vinha caminhando por solos diversos

pisando um pé frente ao outro

devagar e com cautela

observando os traços e os jeitos 

das gentes que não se parecem comigo

Parecer é verbo difícil de encontrar

caminho

Visto que me acompanha uma tal 

estranheza diante do mundo

desde que por gente me entendo

uma afinidade com silêncios e vultos

olhares fugidios e corpo só

Nessas esquinas fui montando

esquema

de estar sempre fora

estrangeira 

para evitar o encontro 

comigo com outra.


Há algum tempo

Toda via 

me vi 

fi(n)car.

Foi nesse chão

que por permanecer

criei minha bicha:

felina Coragem


Desbravando diariamente mata densa

que volta a crescer sempre que me [dis]traio,

Coragem me fez ver outros porvires

Para além de fincar e criar,

Procriar virou verbo encarne

A bicha já tão parte de mim

Que numa noite mística de fogos e entrega

Um prazer imenso subiu 

entre minhas pernas

foi até o ventre.


Naquele instante, 

as terras todas e mares 

antes estrangeiras

Fizeram de meu corpo, casa

e tudo que dantes fora

passou a ter lugar dentro.


Agora vivo, 

além de todas que ainda sou

Uma outra vida,

de estrangeira à nativa

que nasce-cresce no meu Core.


Coração que pulsa mais 

apressado e brilhante

 abre-alas para toda uma jornada

nessas terras que aportaremos 

as duas, e Coragem, 

deixando rastro de sementes

para fazer florescer nossa nova terra.






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