dimanche 2 juin 2019

Acontecimento de corpo em palavras:



Sobrevivemos. ou estávamos tentando sobreviver? Quando cruzamos a porta lateral ao lado do casarão, as águas  se abriram com toda força, meu corpo se movendo no líquido, lento, fluido, buscando chegar em algum lugar. Nos ouvidos, os cantos me guiavam, mulheres à minha frente, ao meu lado, sobreviventes, guias... respirar nunca foi tão difícil, ser tomada pelas águas, mas não se deixar afogar por elas, lembro da lama que invadiu nossas terras, a lama que invadiu minha casa, quase me afogo nela, busco o ar fundo, respiro. Em flashes, percebo feições, revejo amores passados, revivo outros afogamentos, busco o ar; me falta, me falta, desespero, busco o ar, vou ao fundo, ao chão. Ouço o canto, respiro fundo, me desafogo. Encontro a escadaria, um caminho de água e sangue me conduz, à frente, o rastro das mulheres que passaram antes de mim, já consigo respirar. Sinto a água agora tomar minha pele, mas já posso pulsar com ela, entender seus caminhos dentro-fora, uma mulher de vermelho me anuncia a força do despertar, já é possível dançar, o tecido vai se largando de mim, dançamos juntos, até que ele se vai, sigo. Uma estátua no meio das águas me lembra tempos antigos, me lembra outras vidas que não vivi, já não me importa, posso respirar, outro pano pesado vai se soltando, ficando pelo caminho. As águas em mim dançam e circulam até que percebo estar girando, girando, respirando sentindo a liquidez de tudo o que se move ao redor, como seres num caudaloso redemoinho de água, a lembrança da lama girando o que foi meu ainda volta, mas já não sigo a mesma, posso respirar, posso ir.

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