Há lugares onde estive e ainda não se anunciaram como existentes. Há lugares que visito cotidianamente porque algo em mim, muito profundo, já conhece esses lugares e, como num deja vu, eles reaparecem e eu os reconheço novamente todos os dias.
Há lugares em que eu tento chegar, mas não alcanço, é como se o caminho fosse um fio estreito e longo onde é preciso se equilibrar e tem de haver comunicação entre os dois pontos. Se esse fio se corta (ou é cortado) não é possível chegar ao outro ponto.
O outro ponto é justamente o ponto do outro. O outro é um pronome impessoal (?) masculino.
Já eu, eu sou mulher. Sou. Que não tem gênero na fala, mas na voz, no cheiro, nos seios, no jeito, no sexo, no útero, no desejo, no coração, no corpo e sobretudo nos ossos. Sim, nos ossos,
Porque são o que ficam, depois de tudo e que nos levam de volta ao início.
Sim, ao início, porque chão. Porque os ossos da mulher que sou voltarão pra lá, que é aqui, em fato, pra baixo, porque afinal, no fundo é o chão.
Então, números ímpares por onde já passeei nos contornaram novamente. E o lugar que hoje eu não consegui estar, porque o fio foi cortado (foi cortado, não cortou-se) me levou, de fato, a outro lugar, onde sou. Onde somos, e somos juntas, porque nos reconhecemos e nos escutamos e nos perguntamos por quê. Mas, por vezes , também não perguntamos nada e só falamos de nós mesmas e de tudo e de nada e de uma presença translúcida e viva que nos atravessa e que é mais do que sou, porque plural, e então: somos. Nós duas, mulheres, tecendo nosso feminino para vê-lo nascer e cuida-lo.
Rio abajo rio.
Já que
No fundo é o chão.
Por sob o céu
por sob nós
por sob as águas
(Vivas.)
vendredi 18 novembre 2016
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