jeudi 9 mai 2013

Traços ou íntimo exposto ou lembranças após um filme de lembranças.

Porque ao bater a porta, tenho que me esforçar para lembrar de não te esquecer. E para te esquecer, é só ouvir as outras vozes, que ecoam, à essa hora, 23h51, todas do mesmo quarto, onde a TV e muito amor estão acesos.
Mas ainda se ouço outros, ainda assim não te esqueço. ponho um pedaço de açúcar na boca. Sinto toda a língua salivar o doce, o sangue adoçar, acalmar... devagar adoçar... Mas ainda não esqueço.

Pensei que se tudo estivesse guardado em uma caixa, e que se a colocasse lá no fundo do armário, depois de alguns anos, algumas traças e mofo, isso tudo não mais existiria. Mas não há doce, não há outras vozes, não há sossego. Em verdade, tudo isto há, mas você está sempre lá.

Não, não se trata aqui do amor que passou, não me refiro àquele que chamava de meu há algum tempo atrás. O que insiste aqui é outro, é outra. A mesma, a de sempre. A que vaga sem destino, circulando, embaralhando fazendo nós em si mesma. E de repente, me vem a cena da moça que dança com a corda e que dançava com a lua. Esta aqui também dança. Não com a lua, corda também não há e não, felizmente, tamanha tristeza. Há essa incansável, incessante, impossível, esta incontornável, esta indizível, esta.
Esta que tentou colocar-se em uma caixa e guardar-se no fundo do armário. Que se camuflou, escondida, tentando caber no coração do outro, que agora perdeu. Que se dobrou organizadamente em duas malas de 32kg, pegou um avião e cruzou o atlântico. Esta que não atravessou todos os oceanos. Que abandonou aqui   o seu amor, jogou ao chão os buquês de margaridas. Tudo o que fica sempre é esta.

A que olha no espelho e vê um rosto bonito às vezes, narigudo às vezes, com orelhas grandes às vezes. Uma boca bonita, olhos impossíveis, olhos que não se sabem, olhos que não se lêem, olhos. Que aguardam e se agarram a qualquer mínima pista de alguém que os leiam. Olhos castanhos escuros, janelas.

Então não coube em 64kg, nem em uma caixa no fundo do armário, nem em espaço algum não cabe. A moça me contou lembranças de outra e eu a vi costurando lembranças suas. Para descobrir o que da outra não a era, não precisava sê-la, não será.

E dela, nesta, ficou o que se dança. Os passos pequenos de pés crianças, embalando o sonho. Ficou o dançar solitário, os olhos de Belilove em meu corpo de menina, que aprendia a pôr no corpo, em todo ele, o coração. O baú de fantasias coloridas, numa casa enorme, frente ao mar, onde às sextas-feiras, esta aqui podia ser tudo o que cabia em seus sonhos e em seus passos...  Ficou também o desencanto mais tarde. Um vazio que não sumia com nada e o corpo que se paralisou pelas vozes dos outros.

Mas esta não cabe numa caixa e tudo está aqui, circulando ainda e ainda e encore e encore, en corps, en corps... Quando a França faz sentido e correr solitária pelas madrugadas do deuxième arrondissement parece ser mais um acontecimento do corpo, encore. Quando o silêncio se fez e me disse que seria melhor se não olhasse a verdade. Que os olhos no espelho não tem fundo, não tem fim, não se sabem... Encore...

A água, o tempo, a sutileza, a delicadeza, o furacão, o corpo, a água, o tempo, a delicadeza, a sutileza, o silêncio, o vazio, o furacão, a calmaria, o choro, o mar, a água, a delicadeza, o corpo. São as letras que mais me encantam, me emovem, movem-(m)e, fazem-me dançar.

2 commentaires:

Mirdad a dit…

Atônito. Lindo. Bateu.

Vitor a dit…

Forte o texto, que se faz sentir.