O feixe de luz vinha forte, a porta escancarada e o sol do meio-dia gritando o calor dessa época traduziam 'escopicamente' as novas sensações que explodiriam a partir daquela tarde. Que vinham explodindo, é verdade, há algum tempo, mas que ganhavam espaço e corpo.
Ela estátua, cabelo molhado, blusa frouxa, ar leve de água que acabou de correr, a claridade iluminando-a toda. De sangue correndo quente e mais vermelho que sempre, lembrando dos minutos anteriores: o anel indo e voltando e caindo do dedo, o verbo que não cessava, uma sílaba engolindo e passando por cima da outra, os nós quase se desfazendo, chegando sempre à iminência de. O sorriso de lá, o balançar de cabeça, a outra dizendo sim à distância, sim sem som, permitindo que ela seja e só, que se denuncie, que se desmonte e na colheita dos cacos se descubra outra, a mesma.
O compasso da vida é uma junção de milésimos de segundos e o que se percebe deles. Quando acabam de passar correndo, deixando só aquela corrente de vento que levanta a saia das moças, sopram algo indecifrável nos ouvidos.
Aqueles alguns minutos traduziam o que vinha querendo aparecer ao longo desses dias. Um motivo de viver, uma potência de devir, de dar a cara à tapa e ver doer ou sentir mãos suaves e gentis. Entre tantos terremotos e enchentes, descobrir em algum instante perdido, entre "ombradas" desatentas, que o mundo gira sem pausa. E o que existe de fato, é a hora de entrar no ritmo da dança, sem contar os passos, sem pensar no ato, só chegando na beira e se jogando. Do topo da vontade de si para o resto do mundo, que sabe Deus como está, porque cada cabeça é um e a dela não parava aquela tarde... e nem queria, porque se parasse desistia.
Ela estátua e um estouro acabara de acontecer , conseguia ouvir ainda os tambores rufando, a orquestra crescendo dentro, cada vez mais forte e maior e aquela luz e aquela vontade e a saudade boa do que está por vir, porque sim, a sensação era de saudade, mas ainda não tinha sido, estava para acontecer.
O que vem agora? Ela dizia em silêncio, apertando os olhos para a luz forte. O que acontece a partir daqui?
Não tinha resposta. Os passos eram tecidos a partir dos milésimos de segundo que passavam, iam sendo construídos enquanto acabara-se de sentir aquele vento passar pelas saias. Como duas grandes agulhas de tricô que teciam as pegadas que ela ditava sem saber, sem querer. Mas agora queria e ia mostrando como era e sendo como podia, entre encontros e tropeços como tantos outros iguais ou parecidos que perambulam nesse mundo, e que estão (ou quase) passando pelo mesmo estrondo, quando não, uma enchente.
Assim o mundo acontece.
P.S.: andando por todos os cantos..."
6 commentaires:
=) zum zum zuda zuda!
Amém.
e o melhor é que a gente pode fazer a nossa propria historia, ao mesmo tempo que se vai lendo...
saudade eh um fato...
=*
muito bom. muito bom.
bjo
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