A placa dizia em letras garrafais:
- Mau humor. Favor não incomodar.
O dia seguiu esse ritmo até o entardecer, a estranheza da vida se punha com o sol. À noite pertencem o esquecimento, o alívio, o esboço, a falta de clareza, nela só se definem os vultos.
As estrelas se mostram, desliga-se o carro, espera-se o elevador, sobem os andares. Roda-se a chave, a porta se abre. O desejado é o silêncio, o barulho é um intruso maldito, a companhia indesejada à quem se oferece um sorriso vago, falso, amarelo.
Nove passos e meio até o único pedaço de mundo a que se pertence por enquanto. A porta bate, a chave tranca e isola o resto do universo. Uma janela grande e translúcida permite que se veja lua, nuvens, algumas estrelas e milhares de fragmentos de vida, em pequenos quadrados iluminados artificialmente.
O corpo em pé, pesado, os olhos fechando, ombros cansados tentam manter uma postura difícil. A música sai pelas duas caixas redondas e verdes. Os passos guiam-se sós, passeiam pelo chão ainda quente de sol. O cabelo solta-se suavemente, os botões da blusa abrem-se sem pressa, a saia escorrega pelos quadris e cai sobre o chão. As notas divagam descompromissadas entre quatro paredes, os pés descalços coordenam-se cada vez mais ritmados, o corpo cansado, agora quase nu, arrepia-se com a consciência das sensações, mais alguns segundos e a nudez é inteira. Nudez de corpo e alma, ambos exauridos, distantes de ruídos e de outros pensamentos.
O ritmo; a dança sem júri; os braços desembaraçados; o balançar das coxas; o abraço ao vento; o giro da cabeça. Um passo p'ra lá, dois p'ra cá, a contagem é assimétrica e conduz a uma simetria perfeita, a congruência de quando não se utilizam técnicas, a falta de raciocínio, a falta de censura. Tudo é um só: pernas, braços, quadris, ombros, nuca e cabeça. O conjunto de contagens de ritmo complexo.
As horas vão indo... Deixando de lado a luz quente, as expectativas, as esperanças. Não se ouvem perguntas, logo, não são necessárias respostas. Um dança nua de corpo cansado e tudo se resolve (nessa noite).
3 commentaires:
Perfeito... não...perfeito é pouco..sublime como a dança!
O que me lembra que é quase uma da manhã e eu ainda estou acordada...
seus textos definitivamente me tocam..
você me conhece por dentro ou somos feitas da mesma matéria - a confusão e o não pertencimento..?
Enregistrer un commentaire