dimanche 31 mars 2024

Nascimento II

 No mergulho da véspera

Iemanjá me abraçou e acolheu

Me ensinando aos poucos

O que era ser mãe

Banhou meus cabelos 

Molhou e levou minhas lágrimas

Te espero, filha 

Já vais tornar-te mãe 

E naquele tempo de silêncios 

Esperei.

Inquieta. 

Em dois dias comecei e sentir 

O chamado do corpo se manifestar. 

Só há aviso para quem está à escuta 

Com as vísceras e não com os ouvidos. 

Entre a dor, o medo e a insegurança

Uma certeza profunda e tímida 

Estou aqui para te receber, filha. 

Era Iemanjá me dizendo 

E eu dizendo pra minha filha. 

Duas noites, um dia e meio. 

Vivi o que precisava ser vivido.

No segundo dia,

Voltei ao mar e foi lá 

Que minhas águas de dentro jorraram

A bolsa rompeu, água dentro d’água 

Iemanjá dizendo vai e calma.

Derramei

Pela origem do mundo 

Abriram-se as comportas no mar

Para te fazer nascer, minha filha.

Me diziam Oxum e Iemanjá 

Eu dizia a Joana.

Duas noites, 

uma madrugada inteira de dor e força 

Pra te ver nascer

Te fazer nascer

E me renascer, filha. 

Mistério, tempo, revolução.

Nós juntas movendo o mundo,

Renovando as crenças,

Fazendo vida.

II

Sol a pino, beirando o meio do céu 

Azul anil 

Fervente

Fim de verão

Águas de março

O Carneiro apontando o zodíaco.

Ululei como nunca 

Feroz como nunca 

Coragem nos lambendo

E grunhindo junto

Fiz a maior convocação da minha vida.

“Vem, minha filha!”

Eram Oxum e Iemanjá me soprando

 E eu a você. 

Assim, na minha maior boca 

Você nasceu.

III

Te peguei nos braços. 

Você, miúda e melada

Me olhou nos olhos 

E disse, eu vim.

Estou aqui

E nesse instante o mundo mudou.




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