No mergulho da véspera
Iemanjá me abraçou e acolheu
Me ensinando aos poucos
O que era ser mãe
Banhou meus cabelos
Molhou e levou minhas lágrimas
Te espero, filha
Já vais tornar-te mãe
E naquele tempo de silêncios
Esperei.
Inquieta.
Em dois dias comecei e sentir
O chamado do corpo se manifestar.
Só há aviso para quem está à escuta
Com as vísceras e não com os ouvidos.
Entre a dor, o medo e a insegurança
Uma certeza profunda e tímida
Estou aqui para te receber, filha.
Era Iemanjá me dizendo
E eu dizendo pra minha filha.
Duas noites, um dia e meio.
Vivi o que precisava ser vivido.
No segundo dia,
Voltei ao mar e foi lá
Que minhas águas de dentro jorraram
A bolsa rompeu, água dentro d’água
Iemanjá dizendo vai e calma.
Derramei
Pela origem do mundo
Abriram-se as comportas no mar
Para te fazer nascer, minha filha.
Me diziam Oxum e Iemanjá
Eu dizia a Joana.
Duas noites,
uma madrugada inteira de dor e força
Pra te ver nascer
Te fazer nascer
E me renascer, filha.
Mistério, tempo, revolução.
Nós juntas movendo o mundo,
Renovando as crenças,
Fazendo vida.
II
Sol a pino, beirando o meio do céu
Azul anil
Fervente
Fim de verão
Águas de março
O Carneiro apontando o zodíaco.
Ululei como nunca
Feroz como nunca
Coragem nos lambendo
E grunhindo junto
Fiz a maior convocação da minha vida.
“Vem, minha filha!”
Eram Oxum e Iemanjá me soprando
E eu a você.
Assim, na minha maior boca
Você nasceu.
III
Te peguei nos braços.
Você, miúda e melada
Me olhou nos olhos
E disse, eu vim.
Estou aqui
E nesse instante o mundo mudou.
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