a cada dia ele aumenta um tanto.
é uma busca
uma escavação silenciosa
a terra está por baixo até de minhas unhas
quase incomodaria
se a procura não fosse mais importante
comecei a escavação por perceber
que não escutava o som da minha voz.
Passei a passar horas
atenta aos ruídos de meu corpo
grunhidos, colisões, escapes.
Mas da boca,
uma mudez aguda
Apaguei os olhos, ouvi um tremor
debaixo, de dentro, do centro
achei que era lá
com as mãos
comecei a cavar
O tremor continua
cada vez mais grave e perto
estou na beira
me sinto às vésperas
não me angustia mais a sujeira
o manto argiloso e vivo
me dá até prazer
Reconheço a cada centímetro
um pouco mais:
é minha própria voz
Ela mesma
já começo a ouvir a música
vou mais e mais
agora do grave
ela vai quase ao tom mais agudo
o tremor se expande
racha tudo
Mas então pássaros
e esse correr de águas, escuta.
lençóis freáticos das minhas cordas vocais
alimentam a terra
que sou
Já quase escuto as palavras deslizarem
abocanho-lhes
Estou pronta
No âmago da terra
encontrei minha voz
e o mundo por uma vez silenciou
.
Depois de me ouvir
nunca mais fui a mesma."
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