De repente era eu aquela andorinha perdida,
que entrou na sala por um engano de voo
Desesperada ela-eu voava
sem conseguir achar o caminho
de volta para o céu
De repente aquele pássaro sozinho
era eu sem conseguir fazer verão
Em minha solidão de pássaro
Aprisionado
Inutilmente defendendo o óbvio
Enquanto o mundo se transforma
Em uma imensidão de corpos esvaziados
Ela-eu desesperadamente
querendo nutrir outros corações
com minha esperança
com fé no amor e na compaixão
Ela-eu fazendo círculos e círculos no ar
e já cansada ela-eu repousava segundos aterrorizantes
O coração a sair pela boca
O medo do açoite, da captura
Da morte.
Repousando a milímetros da liberdade,
sobre as grades da porta aberta
Mas ela-eu não sabia voar para fora
Naqueles instantes que duraram uma vida
Não era possível escapar
De repente era eu aquela andorinha
que no meio da tarde acalorada
de um quase verão no sertão
Tentava voar para fora e não achava o caminho
Como se aqueles instantes anunciassem
o furacão, a desordem, a calamidade.
E eu-ela sabia que sozinha não se faz verão
Mas ainda assim ela-eu sabe voar
E assim ficamos juntas aprisionadas em nossos vôos.
o coração a sair pela boca
até que enfim fosse possível
enxergar a porta de saída
e partir.
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