o líquido visgoso
escorrega vagarosamente
por entre os dentes,
desenhando sua boca sedenta
de bicho.
O olhar intacto,
impacto certo
fulminante
Olhos negros fuzilam
qualquer cheiro de sangue
Cheiro que é vida
Vibrando corpos
Vivificando na escuridão
A fúria no suor,
na pele, no pulso
no coração arredio
Repele qualquer sopro
que o desvie da vontade
do núcleo
da fonte
da primazia do desejo
Todo o resto é uma lama preta.
os pés fincados ao chão
não mechem nem uma gota, nem um passo
sua fúria contida no olhar, na saliva, no compasso.
Ele frente a mim
Meu olhar se esgueira
dentro de si
procura refúgio no olho
de dentro da carne
Ele me fita e mede
Cheira ao longe
meu pescoço fino
Refletem-se em seus olhos
o pavor
a paralisia
o porvir distante
de minha inércia
Seu olhar me queima
sem encostar na pele
faz de mim fogueira
incêndio.
A saliva desce
vagarosamente queixo abaixo
va-ga-ro-sa-men-te
persegue o reflexo de seu corpo
no ar
para enfim sentir
a gota quente tombar
sobre os pés
E ali
Naquele instante aturdido
Render-se irrompendo
na constatação:
O bicho sou eu.
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