jeudi 30 octobre 2014

Selvageria e fome

O animal tem saliva escorrendo pela boca,
o líquido visgoso
escorrega vagarosamente
por entre os dentes,
desenhando sua boca sedenta
de bicho.

O olhar intacto,
impacto certo
fulminante

Olhos negros fuzilam
qualquer cheiro de sangue

Cheiro que é vida
Vibrando corpos
Vivificando na escuridão

A fúria  no suor,
na pele, no pulso
no coração arredio

Repele qualquer sopro
que o desvie da vontade
do núcleo
da fonte
da primazia do desejo

Todo o resto é uma lama preta.
os pés  fincados ao chão
não mechem nem uma gota, nem um passo
sua fúria contida no olhar, na saliva, no compasso.

Ele  frente a mim
Meu olhar se esgueira
dentro de si
procura refúgio no olho
de dentro da carne

Ele me fita e mede
Cheira ao longe
meu pescoço fino

Refletem-se em seus olhos
o pavor
a paralisia
o porvir distante
de minha inércia

Seu olhar me queima
sem encostar na pele
faz de mim fogueira
incêndio.

A saliva desce
vagarosamente queixo abaixo
va-ga-ro-sa-men-te
persegue o reflexo de seu corpo
no ar

para enfim sentir
a gota quente tombar
sobre os pés

E ali
Naquele instante  aturdido
Render-se irrompendo
na constatação:

O bicho sou eu.



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